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'Toni Erdmann' fala de reconciliação de um pai e sua filha

Longa está na disputa do Oscar de filme estrangeiro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2017 | 04h00

Em janeiro do ano passado, a revista Cahiers du Cinéma listou os filmes mais aguardados de 2016. Entre eles estavam Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e Toni Erdmann, da alemã Maren Ade. Ambos os filmes se reencontraram em maio, na seleção do Festival de Cannes. Foram muito elogiados pela crítica. Toni Erdmann recebeu o prêmio do júri, Aquarius não levou nada. O filme alemão participa agora da disputa do Oscar.

Há nove meses - o tempo de uma gestação -, o repórter já apostara com Maren que o filme dela tinha cara de Oscar. Ela riu, dizendo que ainda estava longe e que tinha de ficar focada em Cannes. Queixou-se - “Se soubesse que o filme ia despertar tanto interesse da imprensa, acho que teria desistido. É mais difícil ficar aqui o dia inteiro conversando com jornalistas do que dirigir uma equipe de filmagem. Por mais que a gente elabore um filme, também trabalha com intuição. Ainda vai se passar muito tempo antes de eu saber com certeza porque quis fazer esse filme, e o fiz desse jeito. Existem áreas misteriosas da criação que convém não iluminar demais”, explicou.

O curioso é que, em Paris, a caminho do Festival de Berlim - que começa nesta quinta, 9 -, o repórter descobriu o livro Sélection Officielle, de Thierry Frémaux, o programador de Cannes. Há um ano, ele estava em Berlim e comenta o que viu. Conta como chegou à seleção oficial de Cannes em 2016. Relata que toda a sua equipe se entusiasmou com o filme de Maren Ade, e lhe cobrava quando ia vê-lo. Frémaux impressionou-se - claro, senão o filme não teria sido selecionado -, mas faz uma ressalva. Achou-o longo (demais). Essa foi uma pergunta inevitável para a diretora. O filme toma seu tempo - como, de resto, também o de Kleber Mendonça Filho. Foi difícil de montar?

“Trabalhei tanto no roteiro e com os atores que parava diante das cenas. Mas tem uma hora em que você sabe que vai ter de cortar. É a única maneira de servir ao projeto, à história que se quer contar. Cortar, mas mantendo o foco.” Para o espectador que assiste a Toni Erdmann - e, como cinéfilo, acompanha as reações ao trabalho de Maren -, uma coisa pode parecer surpreendente. Toni Erdmann tem um humor muito forte e peculiar, mas enquanto escrevia ela não pensava numa comédia. Ela conta seus percalços. “Fundei, com um par de amigos, uma empresa e esse é meu primeiro filme como produtora. Foi tudo demorado. O roteiro me tomou um ano e meio ou dois, a questão dos fundos também foi complicada. Os investidores desconfiam das mulheres, querem palpitar. Duvido que algum homem tivesse de ouvir tanto como o filme deveria ser”, lembrou.

A ideia da relação entre pai e filha estava presente desde o começo. “Era o que queria, falar de pai e filha, mas demorei para achar o conflito. O pai desenhou-se desde o começo como um gozador, mas eu o via inicialmente como um personagem trágico. E a filha... Eu simplesmente não sabia o que fazer com ela. Queria que fosse uma profissional, que tivesse uma atividade diferente da minha. Fiz uma longa pesquisa sobre mulheres em posição de comando, talvez até como reação aos homens que tentavam me limitar com suas ideias sobre o filme que eu queria fazer. A coisa só começou a funcionar de fato, quando decidi que ela seria consultora. Seja homem ou mulher, o consultor tem de ser uma espécie de performer. E ela, decididamente, não quer ser palhaça, como o pai. Mas o pai percebe que, no mundo competitivo masculino, sua filha está se violentando para triunfar. O embate termina sendo esse. Um pai irritante que tenta reumanizar a filha”, recordou.

Foi aí que o humor começou a se insinuar na história. “Fiquei em pânico. Não saberia escrever uma comédia, era o que pensava. Comecei a pesquisar loucamente na internet sobre Andy Kaufman. Tudo sobre ele, porque aquele tipo de humor era o que eu queria. Mas não teria dado certo, se não tivesse os atores certos. A química entre Peter Simonischek e Sandra Hüller foi que operou o milagre.” As locações na Hungria também ajudaram muito. “Queria que ela fosse uma viajante, mas não queria os lugares de sempre. América, Inglaterra. Alguém me soprou Budapeste e eu fui checar. Encontrei um mundo muito interessante. Esses clubes noturnos, uma desigualdade social muito grande. Gente muito rica e os deserdados da época do comunismo. O incrível é que, na Budapeste que conheci, os laços familiares são muito fortes, e me fortaleceram a convicção do filme que queria fazer”, explicou ainda.

A pergunta que não quer calar - no final (olha o spoiler) há uma festa e o pai se disfarça de gorila. Há 50 anos, em outra festa, David Warner vestiu-se de gorila em Deliciosas Loucuras de Amor, de Karel Reisz. “Nunca ninguém me falou desse filme, você é o primeiro. E eu achando que estava sendo original”, diz Maren. De volta à montagem, no fim, ela tinha mais de 100 horas de material. Passou mais seis meses cortando. “Tinha medo de que ela cortasse minhas melhores cenas”, revela Simonischek. “A preocupação de Maren era evitar que o pai do filme se parecesse com o dela, que também é piadista.” Para a diretora, todo esse tempo terminou correndo depressa. “Tive um bebê durante o processo. Tinha de me dividir entre meus dois filhos. Mas ser mãe também ajudou”, acrescentou a diretora.

OUTROS CANDIDATOS

O Apartamento

Filme iraniano, dirigido por Asghar Farhadi, que já anunciou não participar da cerimônia do Oscar, dia 26 de fevereiro, em represália às medidas imigratórias do governo de Donald Trump.

Um Homem Chamado Ove

Representante da Suécia, é baseado no romance de Fredrik Backman. Deve estrear em 16/2.

Tanna

Australiano, é falado na língua nauvhal e baseado em fatos reais.

Terra de Minas

Da Dinamarca, sobre alemães obrigados a descobrir minas.

 

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