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Tom Hiddleston aposta no gótico

Além de 'A Colina Escarlate', ator será visto na tela em cinco projetos de cinema e TV nos próximos anos; veja trailer do longa dirigido por Del Toro

Ian Spelling, NYT

09 de novembro de 2015 | 17h24

Tom Hiddleston mal está podendo respirar: graças ao seu desempenho como Loki em Thor (2011), Os Vingadores (2012) e Thor: O Mundo Sombrio (2013), parece que esse britânico de 34 anos já pode escolher os papéis que lhe mais interessarem.

É o sonho de todo ator e, durante uma conversa telefônica recente de sua casa, em Londres, Hiddleston vacilou um único instante para em seguida prosseguir, com todo o charme e educação, reconhecendo e ao mesmo tempo negando o fato. 

"Sem dúvida, ainda tenho que batalhar pelos papéis que me interessam, mas seria, no mínimo, bobagem acreditar que me encontro na mesma posição de seis, sete anos atrás. Há muito mais opções. Acho que agora o que eu busco mais é o diretor. Sou das antigas, amo o cinema clássico, fico de queixo caído e me sinto privilegiado de poder trabalhar em parceria com cineastas visionários. Nesse aspecto, a coisa anda segundo os meus padrões, pois sempre quis atuar com os grandes nomes, ter experiências que me desafiem e sentir que estou me aprimorando enquanto artista. Quando soube que Guillermo Del Toro estava interessado em mim, fiz de tudo para trabalhar com ele porque sou seu fã", conta o ator. 

Del Toro é o mexicano responsável por A Espinha do Diabo (2001), Hellboy (2004), O Labirinto do Fauno (2006) e Círculo de Fogo (2013). E convidou Hiddleston a estrelar seu novo filme, A Colina Escarlate, um drama gótico, em cartaz na cidade. A história sombria sobre uma mansão assombrada na Inglaterra do século 19 é contada através dos fantasmas do passado que ainda moram na casa.

Hiddleston é Sir Thomas Sharpe, um inventor que mora com a irmã, a frígida e amarga Lady Lucille (Jessica Chastain), na propriedade isolada e caindo aos pedaços da família, Allerdale Hall. E é aí que entra Edith Cushing (Mia Wasikowska), candidata a escritora que viu fantasmas a vida toda. Ela se apaixona por Sir Thomas e se muda para o casarão, onde tem que lidar com a relação assustadora entre Thomas/Lucille, as preocupações financeiras cada vez maiores do amado, canos por onde escoa água vermelha e os espíritos que lotam os corredores. Charlie Hunnam encarna o médico que ama Edith e percebe que há algo de muito errado em Allerdale Hall.

Segundo Hiddleston, os fantasmas são, acima de tudo, metáforas para a repressão emocional, psicológica e sexual. Além disso, Edith é uma moça cuja força, juventude e feminilidade se veem desafiadas pela soturnez e o mistério por trás de Sir Thomas e Lady Lucille.

"De certa forma é uma obra voltada principalmente para o personagem; mostra a perda da inocência, a sobrevivência e o conflito que pode ser a definição de amor. Cada personagem quer um tipo de paixão que o outro não pode retribuir e o filme define quem é que sai ganhando."

"Mostra as coisas de que somos capazes em nome do amor e o fato de que ele nos enlouquece. A certa altura, Lucille diz: 'O amor nos transforma em monstros.' O elemento mais monstruoso do filme é o ser humano." Hiddleston usa a palavra "fascinante" para descrever Sir Thomas porque o personagem, embora decidido a se refugiar no futuro, está irremediavelmente ligado ao passado. A redenção está ao seu alcance, mas pode acabar iludindo-o.

"Sempre acho fantástico interpretar aquele momento em que o personagem tem que enfrentar uma decisão que pode mudar sua vida. Para mim, os grandes dramas trabalham com protagonistas que realmente passam por esse tipo de tensão. Se pensar nos seus livros, filmes ou peças favoritos, vai perceber que o mais interessante são essas situações cataclísmicas, que acabam sendo liberadoras ou ligadas a uma outra coisa", explica. 

Hiddleston prosseguiu com altos elogios às atrizes com quem dividiu a tela e também para afirmar que, no fim, trabalhar com Del Toro provou ser tudo o que esperava que fosse. 

"Uma dos detalhes mais legais de A Colina Escarlate é que é uma superprodução cujo grande destaque são as mulheres fortes. Não há muitos filmes por aí atualmente em que as personagens femininas são tão ou mais marcantes que os masculinos. Foi um prazer trabalhar com as duas. Mia e Jessica são inacreditavelmente legais, engraçadas e gentis. Foi alegria pura. O Guillermo... bom, sou fã do trabalho dele, mas, talvez mais que isso, acho que é um líder que inspira. Dirigir um filme não é tarefa fácil. Já trabalhei com cineastas brilhantes como artistas, mas nem tanto no aspecto prático da coisa; ele, por outro lado, é o mais gente boa, cheio das sacadas, gentil, uma das pessoas mais motivadoras com quem já trabalhei."

Pouco antes da estreia de Thor, Hiddleston disse que trabalhar em um filme tão badalado poderia mudar sua vida para sempre. Não sabia bem o que esperar. Agora, passados alguns anos, qual foi o impacto de participar de tamanha superprodução e de estar tão associado a um papel?

"Para ser sincero - e isso vale para a indústria como um todo, eu acho - o sucesso desses filmes me deu oportunidades extraordinárias de fazer outros trabalhos dos quais tenho o maior orgulho. No setor, às vezes a coisa funciona como um jogo de números, e se você participar de um longa de sucesso comercial, tem grandes chances de poder fazer algo diferente porque, de uma forma ou de outra, faz parte da máquina. É bem essa coisa de se ver nessa posição, é sobre isso que estávamos falando. Nesse aspecto, então, mudou minha vida, sim."

Apesar disso, se alguém for ao Google e digitar o nome do ator, a primeira coisa que aparece é 'A Lista Completa de Namoradas de Tom Hiddlesto'n, ou seja, chegou a um nível de estrelato em que o público o conhece e se preocupa com suas atividades tanto na tela quanto fora dela - o que ele admite ser um pouco desconcertante.

"O negócio é rir, senão você parte para outras coisas. Para falar a verdade, atuar para mim tem a ver com a curiosidade e a imaginação e com isso quero dizer que a minha energia está canalizada para fora. Eu me interesso pela vida, pela forma como as pessoas vivem e crescem, mudam e superam as dificuldades e exploro isso encarnando diferentes personagens. Não estou acostumado a ter essa energia voltada para mim, mas entendo que o mundo se interessa pelos atores. Eu só acho que o trabalho, a interpretação, são mais interessantes que as pessoas em si."

Além de A Colina Escarlate, Hiddleston será visto na tela em nada menos que cinco projetos de cinema e TV nos próximos anos: está escalado para estrelar a prequela de King Kong, chamada Skull Island e repetir o papel de Loki em Thor: Ragnarok. Já produzidos estão The Night Manager, I Saw The Light e High Rise.

Hiddleston descreve este último como "uma exploração maliciosa, sombria e anárquica de uma London distópica" que tem tudo a ver com o trabalho de J.G. Ballard e Ben Wheatley. Já o primeiro é uma minissérie da BBC/AMC baseada em um livro de mesmo nome de John le Carré.

"É um suspense em que um ex-soldado britânico se torna o gerente noturno de um hotel cinco estrelas e é convidado pelo MI6 para se tornar um agente e pegar um traficante de armas. Foi rodado no Marrocos, Nova York e na Suíça. Hugh Laurie é o criminoso e Susanne Bier, a diretora dinamarquesa, foi quem amarrou o trabalho", comenta o ator. 

I Saw the Light é uma cinebiografia no qual Hiddleston interpreta o famoso cantor de música country Hank Williams e tem estreia marcada nos EUA para o fim de novembro, ou seja, na época da temporada do Oscar. Para o astro, o filme analisa a forma como a pressão de ser artista afetou um jovem e explora as nuances do casamento de Hank e Audrey Williams (Elizabeth Olsen). "Eles tiveram um relacionamento difícil e turbulento, ainda mais pelo fato de ele ter sucesso como cantor e compositor. Extraordinário também o fato de que suas maiores composições surgiram no século 20 e influenciaram muita gente boa: Chuck Berry, Bob Dylan, Bruce Springsteen, Johnny Cash. Teve quem regravou seus sucessos - como Ray Charles com Your Cheating Heart. Tony Bennett foi outro. Foi um compositor real, autêntico, mas isso lhe custou caro, pois morreu aos 29 anos."

"Tive que sair totalmente da minha zona de conforto. Imagine, interpretar um norte-americano que viveu no Alabama dos anos 40; o cara era músico, tocava, cantava. Era alcoólatra, sofria de espinha bífida... foi muita coisa para assimilar. Mas, como eu disse antes, o meu interesse reside na exploração além de mim mesmo. É por isso que acho que, às vezes, quanto mais distante o personagem estiver da minha vivência, mais rica será a experiência", conclui.

 

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