Tom Hanks é o herói de "Náufrago"

A intenção de Náufrago é evidente: garantir a Tom Hanks mais um Oscar. Ao longo de quase duas horas e meia de projeção, a aventura a la Robinson Crusoé faz tudo para impressionar a platéia com a performance do ator. Hanks carrega a produção nas costas ao atuar sozinho durante 75 minutos, o que o obriga a revelar seus pensamentos e emoções com o mínimo de palavras. Por conta da transformação física, imprescindível para quem passa quatro anos em uma ilha deserta, o ator ainda emagreceu quase 20 quilos - ganhando muitos pontos aos olhos dos membros da Academia. Tudo indica que esse retrato contundente da solidão vai mesmo resultar no terceiro Oscar da carreira do astro - premiado com Filadélfia (1993) e Forrest Gump - O Contador de Histórias (1994). Pelo menos, o Globo de Ouro de melhor ator dramático, ele já arrebatou no último domingo, derrotando Russell Crowe (por Gladiador), Michael Douglas (Garotos Incríveis), Geoffrey Rush (Contos Proibidos do Marquês de Sade) e Javier Bardem (Antes do Anoitecer). Merchandising - Náufrago, a partir de hoje nos cinemas brasileiros, Hanks leva ao extremo a fórmula que o consagrou nas telas: a do homem comum sempre lançado em situações extraordinárias. Desta vez, ele encarna um gerente da Federal Express, agência internacional de courrier, que vai parar em uma ilha do Pacífico como único sobrevivente de um desastre aéreo. A FedEx, aliás, deve ter desembolsado uma boa quantia pelo merchandising. Até um executivo da empresa faz uma ponta no filme. Chuck Noland, personagem de Hanks, dá duro para sobreviver. Apanha para quebrar o coco (sua única fonte de água), para aprender a pescar e principalmente para obter fogo, recorrendo à antiga técnica dos pauzinhos. Além de uma foto da namorada (Helen Hunt, desperdiçada no filme), sua única companhia é uma bola de basquete, que ele carinhosamente apelida de Wilson. O objeto, que chega à praia em um dos vários pacotes da FedEx trazidos pelo mar, é uma desculpa para Hanks falar durante o isolamento forçado. Sob a direção de Robert Zemeckis, retomando a parceria de Forrest Gump, Hanks se esforça para envolver o espectador nessa jornada de redescoberta - até porque o personagem é obrigado a reavaliar todos os seus valores ao se distanciar da civilização. Mas, exceto pela mudança física - obtida durante um intervalo de 16 meses nas filmagens -, seu desempenho não traz nada de excepcional. A situação apresentada é tão pouco provável que o público não compra o drama com a mesma facilidade com que se deixou emocionar pelo personagem de Hanks em Filadélfia, por exemplo - no qual ele interpretou um soropositivo com forte densidade dramática. Resumindo, Náufrago é um filme realizado com competência, mas não chega a empolgar. Hanks dá o que o papel pede, a locação é convincente e o diretor faz opções acertadas. Principalmente ao dispensar trilha sonora durante o isolamento, deixando prevalecer os sons da natureza, e ao retratar o acidente de avião com realismo. Só que a produção não consegue escapar de uma certa monotonia, imposta pelo próprio tema. O melhor de Náufrago reside nas sutilezas irônicas do roteiro. Quem acaba confinado em ilha, onde as horas parecem demorar muito mais para passar, é justamente um sujeito escravo do relógio. Quando Chuck aparece pela primeira vez, ele está dando palestra sobre a eficiência dos serviços FedEx. "O tempo nos governa sem piedade´´, diz ele, sem imaginar que em breve terá todo o tempo do mundo.

Agencia Estado,

24 de janeiro de 2001 | 19h03

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