Tom Hanks deixa papel de bom moço

Assim que leu a história em quadrinhos Estrada para Perdição, lançada em 1998 nos EUA, Steven Spielberg enviou um exemplar para Tom Hanks. Com um bilhete que dizia: Isso dá um filme. O ator com cachê na casa dos US$ 20 milhões concordou e pediu que Spielberg providenciasse o roteiro. Mesmo sabendo que o personagem destoava dos tipos heróicos, românticos e certinhos que ele costuma viver no cinema, o eterno queridinho de Hollywood identificou-se com o matador conhecido como Anjo da Morte. ?Qualquer ator sonha com a oportunidade de interpretar vilões como Iago, de Otelo, ou Ricardo III?, disse Hanks, entusiasmado por quebrar a imagem de bom moço que o consagrou na indústria. Michael Sullivan, seu personagem nesse épico ambientado em Chicago dos anos 30, é um assassino a serviço do chefão da máfia (Paul Newman). Nunca pensei que poderia amedrontar alguém. Mas bastou usar uma capa e um chapéu e trazer um revólver na mão, brincou o ator de 46 anos, duas vezes vencedor do Oscar (por Filadélfia e Forrest Gump).Ainda é cedo para pensar nas indicações ao prêmio em 2003, mas o papel promete colocar Hanks mais uma vez na briga pela estatueta. Não escolho os personagens pensando em como agradar a Academia. Só quero me exercitar como ator, despista. Com estréia no Brasil em 11 de outubro, Estrada para Perdição deveria chegar às telas dos EUA só nos últimos meses do ano ? para deixá-lo ainda mais fresquinho na memória dos membros da Academia que votam em seus favoritos em fevereiro. Só que a Dreamworks antecipou o lançamento para julho buscando evitar o seu confronto nas bilheterias com Catch Me If You Can, previsto para estrear em dezembro.Do contrário, Spielberg competiria com ele mesmo, já que Catch Me If You Can também é assinado pelo seu estúdio, a Dreamworks. E o mesmo aconteceria com Hanks, que encarna nessa produção o agente do FBI no encalço do ladrão mais jovem a figurar na lista de procurados do bureau, Frank Abagnale (Leonardo DiCaprio). Ainda que os dois títulos tenham o dedo de Spielberg, ele só assina a direção de Catch Me If You Can. A de Estrada para Perdição foi entregue a Sam Mendes (aclamado por Beleza Americana). Foi ótimo retomar a parceria com Spielberg, depois de O Resgate do Soldado Ryan. Ele continua sendo um dos diretores mais rápidos que conheço, contou Hanks. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que o ator concedeu à Agência Estado, em Veneza.Agência Estado - Por que demorou tanto a interpretar um bad guy nas telas. Tinha medo de decepcionar os seus fãs, acostumados a vê-lo na pele do bom moço?Hanks - Eu não costumo me preocupar com a imagem que o público tem de mim. Sei que a platéia entende que sou um ator encarnando um personagem, que o meu papel é justamente convencê-los de que sou outra pessoa. Ainda sou um gentleman (risos). Da minha parte, foi instigante exercitar algo novo. Não aceitei o personagem pensando em marketing pessoal, mas sim nos dilemas que teria de enfrentar nas telas.Mesmo sendo um gângster, Michael Sullivan é um bom pai. Seria uma maneira de humanizar o seu personagem?Não vejo diferença entre interpretar um bom pai e um bom gângster. Sullivan é as duas coisas, mesmo que à primeira vista pareçam coisas contraditórias. Dependendo do ponto de vista, ele é um homem honrado. Sullivan conhece o seu lugar e sabe o que é esperado dele. De certa forma, é um bom gângster porque é bom pai. E é bom pai graças à relação com Rooney (Paul Newman), que o criou como se Sullivan fosse seu filho.É a fidelidade cega a Rooney que o impede de sentir remorso pelos crimes que comete?Sullivan não se arrepende porque não tem opinião sobre as pessoas que mata. Não procura saber. Ele parece ter a falsa esperança de que seus atos não trarão conseqüências. Tanto que acredita mesmo que Deus o deixou na mão quando a tragédia bate à porta de sua casa.Teria interpretado o personagem se não tivesse filhos?Não. Sei que o trabalho do ator é basicamente fingir, mas confesso que não teria entendido o personagem se não fosse pai. O filme obviamente não reflete a minha relação com os meus filhos. Tenho quatro (Colin, de 25 anos, e Elizabeth, 20, do primeiro casamento, com Samantha Lewes, e Chester, de 12 anos, e Truman, de 7, da união atual, com a produtora Rita Wilson). Mas os dilemas dos pais continuam lá. Qualquer pai consciente vai para a cama se perguntando: Será que hoje eu fiz alguma coisa para estragar a cabeça dos meus filhos? Algo que os deixará com cicatrizes para sempre?Sentiu-se intimidado ao trabalhar com figura lendária como Paul Newman?Mal pude acreditar quando soube que Sam Mendes estava tentando convencê-lo a aceitar o papel. Qualquer ator da minha idade cresceu querendo ser Paul Newman, assistindo-o em títulos como Hombre, O Indomado e Desafio à Corrupção. No primeiro dia da filmagem, confesso que pensei: Deus! Aqui estou contracenando com Newman. Como será que isso aconteceu?. Quanto maior o reconhecimento em Hollywood, maior a pressão por parte dos estúdios?Quanto maior o orçamento do filme, maior a responsabilidade e, consequentemente, a expectativa. A pressão do estúdio é maior no sentido de promover os filmes. Mas eu não reclamo. Desde o início da carreira sabia que, de vez em quando, teria de sentar e discutir os meus filmes. A divulgação faz parte do negócio, mesmo não substituindo o boca-a-boca. Se os espectadores não gostam da produção, será um fracasso ? ão importando o quanto você a promova.Já que a promoção não faz milagres, como explica personagens inesquecíveis como Forrest Gump?Todos os personagens são míticos a partir do momento em que ganham as telas. Tornam-se fortes graças ao poder do cinema. Ainda que a tendência seja ver os personagens como heróis, endeusá-los, os espectadores têm consciência de que cinema procura espelhar a vida real. O meu trabalho é traduzir esses mitos, deixando-os acessíveis a todos. Assim, a platéia se reconhece na tela.

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