Sebastien Nogier/EFE/EPA
Sebastien Nogier/EFE/EPA

Tom Cruise ressurge como uma estrela maior do cinema após o sucesso de 'Top Gun: Maverick'

Astro de Hollywood é protagonista da franquia, 35 anos depois da estreia do filme original

Calum Marsh, The New York Times

06 de julho de 2022 | 20h00

“Para fazer meu trabalho”, Ben Stiller, na pele de Tom Crooze, o dublê de Tom Cruise, reflete em um vídeo feito para o MTV Movie Awards de 2000, “tenho que me perguntar: quem é Tom Cruise? O que é Tom Cruise? Por que Tom está... Cruise?”. É uma linha de raciocínio complicada.

Na tela, Cruise é inconfundivelmente nossa maior estrela de cinema, como a repórter do New York Times Nicole Sperling explicou recentemente: o último verdadeiro expoente de um centenário sistema de estúdios que vem sendo corroído pelas forças crescentes do cinema de franquia e do streaming. Seu carisma poderoso e trabalho de dublê temerário se combinaram mais uma vez em seu mais recente sucesso, Top Gun: Maverick, ultrapassando a marca de US $ 1 bilhão em bilheteria.

Fora das telas, Cruise é fugidio. Ele é o porta-voz frequente de uma religião enigmática e controversa que parece mais difícil de entender quanto mais ele fala sobre ela. É intensamente reservado sobre os detalhes de sua vida privada. Mesmo quando faz um esforço ocasional para parecer um cara comum, ele acaba soando como robô com inteligência artificial. Quando a revista Moviebill pediu para ele descrever sua experiência cinematográfica mais memorável, Cruise não conseguiu se lembrar de nenhuma. (“Adoro filmes”, disse ele, sem mais). Quando lhe perguntaram para qual time ele estava torcendo em um jogo dos Giants contra os Dodgers a que ele assistiu no outono passado, Cruise respondeu: “Sou fã de beisebol”.

Às vezes é difícil conciliar essas faces díspares. Por isso, vale a pena pensar na pergunta: quem é Tom Cruise? Muito de seu sucesso inicial ainda nos anos 80 e 90 se baseou em um certo charme trivial. O jovem e encrenqueiro Cruise de Negócio arriscado, o meigo e ingênuo Cruise de Cocktail, o tenaz e moralmente correto Cruise de ‘Jerry Maguire’ – cada um confiava na sua capacidade de encarnar de forma convincente o homem comum americano, o galã simpático que o público pode desejar ou por quem pode torcer.

Por volta da virada do século, ele complicou essa imagem aparecendo em filmes mais desafiadores e menos acessíveis, como De Olhos Bem Fechados e Magnolia. Autores como Stanley Kubrick e Paul Thomas Anderson ajudaram a mostrar Cruise como um ator sério, capaz de entregar performances sutis e matizadas.

Depois ele se afastou do romance, do drama e dos filmes de arte independentes. Ao longo da última década, Cruise se enraizou de maneira ainda mais firme no gênero de ação e aventura, aperfeiçoando gênero dos blockbusters de verão. Suas performances tendem a enfatizar seu carisma fácil e sua fisicalidade poderosa, mas Cruise ainda traz a esses papéis um toque daquele mesmo charme delicado de sua carreira dramática. Dá para ver tudo isso na química alegre e naturalista que ele compartilha com Jennifer Connelly em Maverick e na intensidade exaustiva que ele carregou nas últimas duas sequências de Missão: Impossível.

Você não vai ver Cruise fazendo corpo mole. A sensação é de que ele trata cada filme que faz hoje em dia como se fosse o mais importante que já fez. Os resultados desse compromisso parecem quase milagrosos. Como alguém poderia imaginar que Top Gun: Maverick, sequência de um filme de ação de 35 anos atrás com uma reputação crítica bem indiferente, fosse não apenas muito superior ao filme original, mas também um dos melhores filmes de ação em muitos anos?

Mas aí você lê sobre a insistência obstinada de Cruise em manter tudo o mais real possível – exigindo um mínimo de efeitos gerados por computador, forçando-se a um árduo treinamento de voo, incentivando seus colegas a suportar a força da gravidade até que literalmente vomitassem. Algumas das estrelas que contracenaram com Cruise ao longo dos anos caracterizaram sua obsessão como extrema ao ponto de soar como despotismo cinematográfico – e é verdade que provavelmente seria muito mais fácil e mais barato fazer tudo na frente de um fundo verde. Mas isso não é Cruise. Quando se trata dessas coisas, ele vai até o limite.

Mas a devoção de Cruise aos filmes é mais profunda – se é que isso é possível. É uma devoção aos Filmes com F maiúsculo. Enquanto os maiores talentos migram para streamers de bolsos fundos com ambições de fazer sucesso, Cruise continua inflexível em não fazer filmes para empresas como Netflix ou Amazon Prime Video, recusando-se a negociar a possibilidade de uma estreia em vídeo sob demanda para Maverick no início da pandemia. (“Faço filmes para a tela grande”, explicou ele).

Seu interesse em preservar a experiência cinematográfica tradicional brilha na escala colossal das próprias produções, de modo que, quando Cruise está pairando sobre você nas imensas dimensões do Imax, ele parece tão grande quanto a imagem. É um lembrete de que muito do que assistimos é adaptado para a era do streaming – uma massa de “conteúdo” projetada para ser reproduzida tão bem no celular quanto na tela grande. Para aqueles de nós que ainda se interessam profundamente pelo cinema e temem por seu futuro, os esforços de Cruise parecem inestimáveis.

Cruise tem todas as qualidades que você quer em uma estrela de cinema e nenhuma das qualidades que você espera de um ser humano. Como presença na tela, é singular; como pessoa, é inescrutável. Mas foi sua inescrutabilidade que lhe permitiu alcançar uma espécie de superestrelato esclarecido e imaculado, que existe quase inteiramente nos filmes, não contaminado por preocupações mundanas.

A estrela Cruise brilha tanto quanto qualquer um de seus contemporâneos e muito mais do que qualquer um que tenha surgido desde então, em parte porque ele continua se dedicando cada vez mais ao trabalho e mostrando cada vez menos de si em todos os outros lugares. Quem é ele? Você tem que ver os filmes para descobrir. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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