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Tolstoi e Sofia, uma relação de amor e ódio

'A Última Estação' reconstitui o último ano da vida do autor de 'Guerra e Paz'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

01 Abril 2011 | 06h12

Lev Nikolaievitch Tolstoi, 1824- 1910. A distribuidora Sony perdeu a oportunidade de homenagear o escritor no centenário de sua morte, lançando no ano passado A Última Estação. O filme de Michael Hoffman reconstitui o último ano da vida do autor de Guerra e Paz e Ana Karenina. Baseia-se no livro de Jay Parini. Christopher Plummer foi indicado para o Oscar por seu papel por Lev Nikolaievitch. Lev ou Leon. O personagem foi tão grandioso quanto rico em contradições. Não cabe numa narrativa convencional. O livro é mais complexo e multifacetado - mas é raro ouvir-se outra afirmação que não esta, quando o assunto é adaptação. O que faz a diferença no filme é o elenco.

Não apenas Plummer. Os atores que interpretam o círculo próximo do escritor são igualmente notáveis. Helen Mirren faz a mulher, Sofia, James McAvoy e Paul Giamatti são os discípulos. Discute-se o artista, com certeza, o místico em que Tolstoi se transformou, no fim da vida, mas tudo isso é mais ou menos reduzido ou sintetizado em duas cartelas que, digamos assim, introduzem os personagens. A ênfase está na relação do escritor com a mulher. Tolstoi quer abrir sua obra ao domínio público. Sofia resiste. Ela quer se assegurar dos direitos, até como forma de garantir o estilo de vida da numerosa descendência. Em 48 anos de união, Tolstoi e ela tiveram 13 (13!) filhos.

Assim como o marido caminha para a morte, Sofia ruma para a insanidade. O filme minimiza um dos aspectos controvertidos do livro. Sofia era uma garota quando se casou com Tolstoi, já um homem maduro (e rico e famoso). Ele era priápico, ou quase. Possuía um apetite sexual inesgotável e assim permaneceu até o fim da vida, mesmo quando tentava harmonizar a espiritualidade com a urgência do sexo, que nunca o aliviou. Dame Helen Mirren já era uma das maiores atrizes do mundo antes do reconhecimento que A Rainha, de Stephen Frears, lhe proporcionou. Ela continua cada vez mais rainha. Boa nas longas falas, é melhor ainda quando secreta suas emoções ou as revela minimamente, em suspiros de enfado e pequenos gestos. Um crispar de mãos, morder os lábios. Nas entrelinhas, fica claro que a atividade sexual intensa do artista nunca teve o mesmo efeito prazeroso na mulher.

Embora o livro de Parini tenha uma narrativa multifacetada - os capítulos ostentam como títulos os nomes dos personagens que fornecem suas visões de Tolstoi -, o livro privilegia a visão de Valentin Bulgakov, o personagem de McAvoy. Parini teve a ideia do livro ao encontrar o diário de Bulgakov num sebo. No filme, ele é um observador cauteloso de tudo o que está ocorrendo na dacha (a casa) de Tolstoi. Bulgakov, num certo sentido, somos nós, o público. Seguidor das doutrinas de Tolstoi, ele não toma o partido de ninguém (nem do seu mentor). Bulgakov olha, não emite juízo de valores, até porque o objetivo do filme, como do livro, não é colocar as coisas "preto no branco". Os personagens não são simplesmente bons e maus. Tudo é mais nuançado, mesmo quando as exigências dramáticas do roteiro levam a soluções mais simplificadas do que no livro.

Diretor norte-americano nascido no Havaí, Michael Hoffman instalou-se na Inglaterra, onde cursou a universidade Oxford. É significativo que tenha chamado sua empresa produtora de Oxford Films. Hoffman fez dois filmes de recortes diversos com Michelle Pfeiffer - uma comédia romântica, não desprezível, com George Clooney (Um Dia Especial) e uma adaptação de Shakespeare (Sonho de Uma Noite de Verão). Vale prestar atenção aos títulos de seus outros filmes - Segredos de Uma Novela, O Outro Lado da Nobreza. O que lhe interessa não é a historiografia oficial, mas a visão de bastidores. Isso vale para sua investigação da etapa final de Tolstoi.

Como narrativa de uma relação de amor e ódio, A Última Estação é bom, benfeito. Mas justamente o fato de ser uma produção de Hollywood, formatada para astros e estrelas, impõe seus limites. A Rússia de Lev Nikolaievitch Tolstoi era muito mais bárbara do que a Inglaterra do começo do século 20 (mesmo que o século, na verdade, só tenha começado após a guerra de 1914/18). Os personagens falam inglês e as convenções sociais são muito mais da corte inglesa. Por tudo isso, A Última Estação poderia ser melhor, mas é válido lançar um olhar sobre o gênio dilacerado por questões mesquinhas. Christopher Plummer e Helen Mirren são a alma do filme de Michael Hoffman.

Um escritor sempre na mira dos cineastas

Dos grandes russos, ele talvez seja o mais visitado pelo cinema. Lev Nikolaievitch Tolstoi bate, em número de adaptações, seus compatriotas Dostoievski, Turgueniev, Gogol ou Chekhov. Suas criações supremas, Guerra e Paz e Ana Karenina, deram origem a numerosos filmes.

Nos anos 1960, Sergei Bondartchuk ganhou recursos superlativos do regime comunista para fazer o seu Guerra e Paz. A versão de King Vidor, quase uma década antes, é melhor. Nenhuma edulcoração. O épico de Vidor contempla os principais movimentos do livro - o romance aristocrático e a epopeia nacional russa. O diferencial é que Vidor filtra o autor por outro gênio das letras - Stendhal. Quando Pedro atravessa o campo de batalha, ele reconstitui a experiência de Fabrizio Del Dongo em A Cartuxa de Parma. Nada menos surpreendente - Tolstoi compartilha com Stendhal a convicção de que a guerra é, por natureza, caótica.

Mas é Ana Karenina que seduz os cineastas. Houve várias - Greta Garbo, Vivien Leigh, Tatiana Samoilova. Vem aí mais uma. A nova versão terá Keira Knightley e Jude Law.

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