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'Tolkien' narra anos de formação do autor de 'O Senhor dos Anéis'

Filme de Dome Karukoski se dedica a compreender como um pacato professor escreveu uma das mais épicas sagas da literatura universal

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2019 | 03h00

Dirigido pelo finlandês Dome Karukoski, Tolkien, que estreia nos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira, 23, não chega a ser uma cinebiografia do autor de O Senhor dos Anéis. O filme, na verdade, se propõe a especular sobre como um simples filólogo e professor, que levou uma vida majoritariamente pacata, pôde escrever uma das mais épicas sagas da literatura universal. Talvez por isso o roteiro assinado por David Gleeson e Stephen Beresford limita-se aos anos de formação do escritor, interpretado por Nicholas Hoult, especialmente entre 1900 e 1916. 

Em busca das raízes da Terra-média, o filme ignora a maior parte da vida do biografado, como os anos da infância no vilarejo de Sarehole – possível inspiração do condado dos hobbits –, tidos por ele como “os mais longos da minha vida” e “mais importantes na minha formação”; e seus anos de docência em Oxford, quando escreveu e publicou suas principais obras. 

De origem britânica, John Reuel Ronald Tolkien (1892-1973) nasceu na África do Sul, mas perdeu o pai, Arthur, ainda na infância e passou a viver na Inglaterra com a mãe, Mabel, que também morreria logo. Após algum tempo morando com uma tia, ele e seu irmão, Hilary, foram acolhidos na casa da sra. Faulkner, onde se estabeleceram até a idade adulta. Lá, Ronald conheceria outra órfã, Edith Bratt, com quem viria a se casar, mas não antes de partir para Oxford a fim de estudar filologia –, e para a França, convocado para a 1.ª Guerra Mundial.

A participação de Tolkien no conflito, bastante romantizada no filme, não foi tão direta. Ele era um sinalizador, encarregado das comunicações de seu batalhão. Chegou a participar de uma ofensiva fracassada em meados de julho de 1916, quando passou 48 horas sem dormir, mas não sofreu ferimentos e retornou à Inglaterra ao ser acometido pela “febre das trincheiras”. A guerra, no entanto, levou dois de seus melhores amigos, com quem Tolkien mantinha uma espécie de sociedade literária desde a adolescência, perda que o marcou profundamente.

Por meio de sobreposições imagéticas, o filme se esforça para construir paralelos entre vida e obra do escritor. Mabel lia romances de cavalaria para os filhos. Na guerra, Ronald enxerga uma entidade semelhante a Sauron, vilão de O Senhor dos Anéis, em meio ao campo de batalha do Rio Somme, em uma cena de tom onírico. Quando soldados alemães atacam as trincheiras aliadas com lança-chamas, o rapaz vê o dragão Smaug, de O Hobbit, expelindo fogo. Em dado momento, ele leva Edith para assistir à ópera de Richard Wagner O Anel dos Nibelungos, relação que, para o próprio Tolkien, era equivocada – tanto que ele chegou a afirmar que “ambos os anéis eram redondos, e é aí que a semelhança termina”. Em outra cena, Edith dança sob uma árvore, em uma clara alusão à descrição de uma cena do conto Beren e Lúthien, em que um mortal se apaixona por uma elfa – nas lápides de Tolkien e Edith estão inscritos os nomes desses personagens.

Edith, aliás, se mostra um dos maiores acertos do longa. Diferentemente do retrato dócil pintado pelo biógrafo Humphrey Carpenter, a personagem vivida por Lily Collins encarna o desejo de liberdade de uma garota confinada desde a mais tenra infância, com aspirações intelectuais e artísticas que, como sugere o filme, teriam sido desencorajadas pelo próprio Tolkien, que nunca a estimulou a seguir carreira com a música erudita que tanto admirava – embora dissesse a todos que ela tocava piano lindamente.

Embora o longa tente a todo momento indicar implicitamente a gênese do universo de Tolkien por meio do registro de sua juventude, o autor de O Silmarillion dificilmente aprovaria esse expediente. “Uma das minhas opiniões mais veementes”, escreveu Tolkien, “é de que a investigação da biografia de um autor é uma abordagem inteiramente vã e falsa de suas obras”. Talvez por isso seja tão difícil retratar em um filme, que depende de ação e elementos visuais, a rotina modesta de um acadêmico como Tolkien, cuja vida foi quase uma antítese de sua obra.

Legado em expansão

Às vésperas do lançamento do filme Tolkien, sua obra parece nunca sair dos holofotes. Desde que os Beatles quiseram estrelar um filme de O Senhor dos Anéis na década de 1960 – ideia vetada pelo autor, que desprezava o rock do quarteto de Liverpool e reclamava do barulho de uma banda de garagem de um vizinho –, foram realizadas diversas adaptações bem-sucedidas de seus livros, além de tentativas malfadadas. 

Em 1978, cinco anos após a morte de Tolkien, foi lançado um filme em rotoscopia (processo quase artesanal de animação) de O Senhor dos Anéis que até obteve algum sucesso comercial antes de cair no esquecimento e ser resgatado como objeto de culto na internet. Foi, no entanto, com a trilogia dirigida por Peter Jackson e lançada anualmente entre 2001 e 2003 que a obra de Tolkien deslanchou e se estabeleceu de vez no cinema, mantendo até hoje o recorde de Oscars numa saga (17 ao todo, sendo 11 apenas em O Retorno do Rei). A adaptação de O Hobbit por Jackson, lançada entre 2012 e 2014, não conquistou o mesmo reconhecimento de crítica (leia mais sobre as adaptações dos livros de Tolkien nesta página). 

Em 2017, a Amazon anunciou a produção de uma série para sua plataforma de streaming, o Amazon Prime Video, baseada no universo de Tolkien. Ainda não há confirmação a respeito da data de lançamento, mas sabe-se que a série abordará um período pouco explorado da mitologia, situada antes dos eventos narrados em O Senhor dos Anéis.

No Brasil, os livros de J.R.R. Tolkien vêm sendo reeditados pela HarperCollins, editora bicentenária que detém os direitos de publicação da obra no exterior desde 1990, quando os adquiriu da Allen & Unwin, que publicou os trabalhos do autor originalmente. Quem publicava os livros da saga até então no País era a WMF Martins Fontes, mas desde 2018 as obras vêm ganhando novas traduções de Ronald Kyrmse e Reinaldo José Lopes.

O projeto teve início com a publicação de Beren e Lúthien e A Queda de Gondolin, duas versões inéditas de contos presentes em O Silmarillion, editados por Christopher Tolkien (filho do autor), com um processo de curadoria e ensaios explicativos para situar o leitor entre as várias versões de cada história – Tolkien escrevia e reescrevia diversas vezes suas narrativas, às vezes com mudanças profundas, e seus manuscritos bagunçados refletiam o caos de seu processo criativo, o que torna essas edições importantes para a compreensão geral de seu universo fictício.

Além dessas obras, a biografia do autor Humphrey Carpenter ganhou cara nova e O Dom da Amizade, de Colin Duriez, que analisa a relação entre Tolkien e C.S. Lewis, foi publicado no Brasil. Em 2019, O Silmarillion ganhou uma nova tradução e O Hobbit deve chegar em julho às prateleiras. A reedição da obra máxima do autor, O Senhor dos Anéis, deve ser lançada só em novembro.

Vale lembrar que, em 2014, o videogame Middle-earth: Shadow of Mordor, que se passa na Terra-média, foi eleito jogo do ano, e a obra de Tolkien segue ganhando releituras e adaptações em diversas mídias. O filme biográfico de Dome Karukoski, portanto, soma-se a uma mitologia que não para de se expandir. 

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