Fotos Vitrine Filmes
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'Todos os Paulos do Mundo' revê a trajetória de Paulo José no teatro, na TV e no cinema

Documentário celebra o dom do ator revisitando sua carreira de seis décadas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2018 | 06h00

Na Première Brasil do Festival do Rio, há alguns anos, o repórter do Estado já teve o privilégio de flagrar alguns momentos muito especiais. O cineasta Cacá Diegues, na plateia, assistindo ao belo documentário de Beto Brant e Camila Pitanga sobre o ator Antônio Pitanga. Com aquela exuberância que lhe é característica - até hoje, um corpo um movimento -, Pitanga lembrava como, migrante, foi acolhido na casa de Cacá, em seu começo no Rio. Dividindo-se entre a tela e a plateia, o olhar do repórter percebia a emoção do cineasta quando o ator contava, com graça, aquelas velhas histórias. No ano passado, o ator na tela era Paulo José e o diretor, na plateia, Domingos Oliveira. O filme, Todos os Paulos do Mundo, de Rodrigo de Oliveira e Gustavo Ribeiro, que estreia nesta quinta-feira, 10.

Vários atores dão voz a Paulo, que, aos 81 anos - nasceu em Lavras do Sul, no Rio Grande do Sul, em 20 de março de 1937 -, sofre de Parkinson e tem muitas vezes dificuldade de se expressar. Domingos é outro que sofre de Parkinson. Continuam, na terceira idade, se frequentando como quando jovens. E são capazes de ficar horas numa conversa só deles. Era evidente o prazer de Domingos vendo seu intérprete mítico (estrelou, ao lado de Leila Diniz, Todas as Mulheres do Mundo, que Oliveira rodou em 1967) retratado na tela. 

Todos os Paulos do Mundo estreia em salas de todo o Brasil, integrando o programa Petrobrás Cultural. A distribuição é da Vitrine. Por que Paulo José? Por que um filme sobre ele? Gustavo Ribeiro está agora ocupado, filmando. Participa de uma série biográfica de escritoras para a HBO. Realiza filmes sobre a poeta Adélia Prado e a romancista Rachel de Queiroz, por exemplo. Quem conversa com o repórter, pelo telefone, é Rodrigo de Oliveira. Conta que, antes de ser cineasta, nos tempos da faculdade de cinema - na UFF -, era monitor no curso de cinema brasileiro.

Nessa época, começou a (re)ver os filmes de Paulo José. Depois, houve uma grande retrospectiva dedicada ao ator e diretor, que Paulo também é. Rodrigo viu tudo. Descobriu como esse Paulo, mais que parte da história do cinema no País, era parte da sua vida. A partir daí, um filme tornou-se necessário, inevitável. Está chegando - Todos os Paulos do Mundo. São muitos, que configuram um só. Com a cara do Brasil.

Pode não ter nada a ver, mas o documentário de Rodrigo de Oliveira e Gustavo Ribeiro sobre o ator Paulo José - Todos os Paulos do Mundo -, chega aos cinemas no momento em que também acaba de estrear, em São Paulo (já houve, antes, uma temporada carioca), o musical de Tadeu Aguiar sobre Bibi Ferreira. Estrela maior dos musicais, de My Fair Lady à Dulcineia de O Homem de la Mancha, Bibi está no centro de um espetáculo cantado, dançado e montado com capricho. Paulo José, homem de cinema, TV e teatro, ganha um filme que revisita sua carreira imensa.

A ideia, explica Rodrigo, “sempre foi fazer um filme e usar a ficção para a iluminar um pouco o que significa a realidade do Paulo, da infância até hoje. O homem, pelo artista. A gente (Gustavo e ele) confiava que havia ali nas coisas que ele fez, ao longo da vida, um trajeto de refundação da própria origem. É possível mostrar o que significa ser um homem brasileiro em cada uma dessas fases dele e também como o Paulo foi, e continua sendo, múltiplo”.

Rodrigo já contou, na capa, como mostrava os filmes de Paulo José quando era monitor no curso de cinema brasileiro na UFF, a Universidade Federal Fluminense. Depois, assistiu a uma retrospectiva bem completa. “Tem coisas que aprendi com o Paulo, vendo os filmes dele. E não era uma coisa 100% consciente. Quando comecei a fazer meus filmes, dei-me conta de que pedia aos atores coisas que eu vira no Paulo. Não sei de muitos atores, no Brasil e até fora, que tenham essa grandeza. O Paulo talvez seja uma raridade, uma exceção. Possui uma obra - a body of work, como se diz. E ele reflete sobre isso. Na Babel que é o mundo, Paulo, como ator, usa seu instrumento - o corpo -, para que a gente entenda o homem brasileiro. Filmes como O Padre e a Moça, Vida Provisória e Macunaíma são definitivos.”

Rodrigo está citando filmes de Joaquim Pedro de Andrade, de Maurício Gomes Leite e Joaquim Pedro, de novo. Nem está citando Domingos Oliveira - Todas as Mulheres do Mundo, Edu Coração de Ouro, A Culpa. Não são muitos filmes, mas mostram como os dois se completaram. O diretor e seu alter ego. Domingos sempre foi um romântico, para quem uma mulher será sempre uma mulher. Uma? Todas as Mulheres - Leila, Leila, Leila Diniz. Pode-se citar todas as demais atrizes míticas com quem Paulo contracenou (e estão no filme). Anecy Rocha, Helena Ignez, Dina Sfat. Com essa Paulo também se casou. O ator José foi sempre um fascinante objeto de estudo para Rodrigo. Um dia ele discutiu isso com a produtora Vânia Catani e descobriu que, se havia um culto a Paulo, ela era sacerdotisa. A ideia de um filme começou a nascer. Gustavo Ribeiro foi incorporado. “A gente só se conheceu no dia em que assinou o contrato, mas nunca houve problema, divergência. Sabíamos o Paulo que cada um amava - era o mesmo! Antes mesmo de nascer o filme, a gente já tinha o título como um conceito - Todos os Paulos do Mundo. Foi a nossa bússola.”

E Rodrigo faz uma reflexão importante. “O mais incrível do Paulo é essa consciência que ele tem de estar sendo filmado. Ele é a própria encarnação de uma coisa que me fascina muito, que é a fronteira entre o que é natural e o que é artifício. Acho que é uma coisa que está nos meus filmes - As Horas Vulgares, Teobaldo Morto, Romeu Exilado e está na própria persona do Paulo. Só espero que revendo essas cenas que estão no meu, no nosso imaginário, as pessoas se deem conta de quanto Paulo é necessário. Do galã ao herói pícaro, ele tem diversos rostos que representam o Brasil inteiro.”

Todos os Paulos do Brasil, do mundo. “Adoro a frase dele - o Brasil faz o melhor cinema brasileiro do mundo”, diz o codiretor. “Espero que ajude a resgatar filmes que ainda estão à espera de reconhecimento, como o do Gomes Leite. Vida Provisória é um grande filme.” O repórter concorda. Está em seu panteão. Há uma frase do Paulo que, no filme, é dita por Helena Ignez. “O ator precisa estar habitado por dentro.” É a sensação que Paulo passa - a de alguém que dá uma alma a seus personagens. Num momento de tanta divisão da história do Brasil, talvez seja bom voltar a esse homem que nos une. Paulo é nós.

 

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