"Todas as Mulheres do Mundo", em vídeo

Nos anos 60, a vocação do melhor cinema brasileiro era ser revolucionário. No apogeu do Cinema Novo, os diretores faziam filmes para mudar a linguagem e o mundo. Nesse quadro, um filme como Todas as Mulheres do Mundo pode ter cativado o público - foi um dos maiores, senão o maior sucesso da época -, mas com certeza foi visto com certa reserva pelos críticos, que consideraram "pequeno-burguesas" as preocupações do diretor Domingos Oliveira.A geração do Cinema Novo não mudou o mundo, mas, como disse Walter Lima Jr. em entrevista ao Estado, na segunda-feira passada, "alguns de nós conseguimos mudar". Oliveira fez muita televisão, muito teatro, mas nunca abandonou o cinema. Continuou fazendo filmes sobre um certo meio de classe média alta, gente sofisticada, intelectual, mas com grandes problemas afetivos e sexuais. Todas as Mulheres permanece o grande clássico do autor. Era inédito em vídeo. Está sendo lançado pela Versátil. É um verdadeiro resgate.Oliveira pode não ter mudado o mundo e talvez nem fosse seu objetivo, pois ele não era Gláuber, mas com certeza deixou uma marca. Na verdade, todas as mulheres é uma - Leila Diniz, que tem aqui, como Maria Alice, o papel de sua vida. Impossível falar do filme sem falar dessa atriz que, no dizer do poeta Carlos Drummond de Andrade, libertou as mulheres de sua geração. Leila é mito. Sua histórica entrevista ao Pasquim, permeada de palavrões, a foto de biquíni, grávida, tudo nela ajudou a esculpir o mito. Era linda, era livre, era Leila. Queria que ninguém fosse cobrado por ser careta ou revolucionário. Leila não acreditava muito em bandeiras, exceto a do Flamengo. Mas ergueu uma, inalienável - a que defende o direito das pessoas à felicidade.Emancipação feminina - Há quem diga que seu mito foi construído a posteriori. Ela mesma, Leila, só queria ser autêntica. Foi. E a história da mulher brasileira nunca mais foi a mesma. Leila virou sinônimo de emancipação feminina, uma emancipação que não era raivosa, que não incluía queima de sutiãs nem impedia as mulheres de gostarem dos homens, de quererem ter filhos. Há - quantas vezes será preciso repeti-lo? - um mistério da mulher no cinema. Oliveira havia sido casado com Leila. Fez Todas as Mulheres do Mundo para ter, na ficção, o final feliz que sua love story não teve na realidade. Paulo José é Paulo, um carioca e um brasileiro dos anos 60, os anos que mudaram tudo. Galinhão, com o perdão da expressão, porque nenhuma outra define melhor quem é ou como é esse homem. Paulo troca de mulheres como quem troca de roupa, vive de amores fugazes, insatisfeito sem se dar conta. É quando Maria Alice entra, como um raio de luz, em sua vida.Maria Alice é Leila e isso faz toda a diferença. Foi Jean-Luc Godard, no auge da nouvelle vague - e se não foi ele, não faz mal, porque Godard usou o recurso melhor do que ninguém -, quem inventou essa maneira de fazer do filme de ficção uma espécie de documentário sobre o ator. Anna Karina olha para a câmera, que parece apaixonada por ela, em muitos filmes de Godard. Leila olha para a câmera de Oliveira e ele, é claro, é apaixonado por ela. E há a música no filme. Você nunca mais poderá ouvir Gabriel Fauré sem ligá-lo a Leila. Talvez não tenha sido uma escolha acidental de Oliveira, apenas algo que ele achasse bonito e sonoro. O músico que viveu o alto romantismo, o impressionismo e assistiu às explosões modernistas do começo do século acreditou sempre no equilíbrio tranqüilo do bom gosto, na emoção controlada, no lirismo sem grandiloqüência. Dele, os críticos gostam de dizer que suas audácias comedidas e discretas não o impediram de tocar as profundezas do ser. Não será essa uma boa definição para o próprio Oliveira?Um filme sobre amores, sobre relações. Paulo ama Maria Alice, mulher solar, mas, machão empedernido, comete a falseta - e vai parar na cama da portenha, para uma relação que não se concretiza, pois ele não consegue, o que é um golpe para o próprio protagonista. Maria Alice o flagra e está instalada a crise. Amores, separações, retornos. E muitos diálogos, pois o cinema de Oliveira celebra a palavra. Há certas falas, a de Isabel Ribeiro, discutindo se a mulher, afinal de contas, será mesmo a fêmea natural do homem, a de Fauzi Arap, quando ele diz a Maria Alice que a vida é momento e esse momento deve ser a celebração do amor, todas essas falas, que podem até soar um pouco pretensiosas, no seu filosofês, são preciosos documentos de época. Quem viveu os míticos anos 60 sabe que eles foram assim. Vendo o filme, é até o caso de perguntar-se - será que foram mesmo assim ou foram fabricados pela posteridade? Os sinais liberadores estão lá, de qualquer maneira. O mundo estava mudando, o comportamento estava mudando e o filme de Oliveira, mesmo que a intenção do diretor não fosse fazer um documento de época, capta esse processo e o imprime, indelevelmente, no celulóide, agora no vídeo.Influências do coração - Cinéfilos podem identificar, aqui e ali, referências a Acossado e O Desprezo, mas Godard, se é a influência intelectual sobre o cinema de Oliveira, não é a influência afetiva. O diretor talvez esteja mais próximo de François Truffaut, o homem que amava as mulheres e o amor, o romântico que desconfiava do romantismo. Oliveira, mais próximo de Truffaut, difere dele porque é um romântico que quer acreditar no romantismo. Numa das cenas mais famosas, o poema para Maria Alice, a câmera passeia pelo corpo de Leila. Na época a cena foi muito discutida. No alvorecer do amor livre pós-pílula, no pré-feminismo, Oliveira foi acusado de objetalizar a mulher. O mito de Leila talvez não fosse tão forte sem essas imagens do seu corpo feito para o amor. Elas fazem parte da história do cinema brasileiro.

Agencia Estado,

22 de outubro de 2000 | 21h09

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