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Todas as caras do espião Jack Ryan

Caixa de DVDs reúne os quatro filmes baseados no personagem criado pelo escritor Tom Clancy

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

22 de dezembro de 2013 | 03h30

Onde andará John McTiernan? Não anda. O diretor que reformulou o cinema de aventuras de Hollywood nos anos 1980, com dois clássicos - os primeiros O Predador e Duro de Matar -, anda em guerra com a Justiça dos EUA. Acusado de falso testemunho por um grande júri em 2006, ele não consegue se livrar da acusação de que contratou o ex-policial Anthony Pellicano para investigar (e ameaçar) atores de Hollywood. McTiernan, inclusive, já foi preso em regime fechado e não apenas intimado a prestar serviço comunitário.

Com sua carreira interrompida, o espectador poderá conferir agora como McTiernan era bom na Coleção Jack Ryan, com quatro filmes que contam histórias do agente secreto criado pelo escritor Tom Clancy. Além de Caçada ao Outubro Vermelho, de McTiernan, com Alec Baldwin e Sean Connery, a caixa traz mais três filmes - Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato, de Phillip Noyce, e A Soma de Todos os Medos, de Phil Alden Robinson. Uma quinta aventura de Jack Ryan chegará aos cinemas brasileiros em 2014. Depois de ser interpretado por Alec Baldwin, Harrison Ford (nos filmes de Noyce) e Ben Affleck no de Alden Robinson), Jack Ryan ressurge agora na pele de Chris Pine, o jovem capitão Kirk de JJ Abrams em Star Trek e Além da Escuridão - Star Trek.

Pine e Zachary Quinto, que faz o dr. Spock, colaram tão bem aos personagens que causou estranhamento uma declaração do primeiro. Pine disse com toda franqueza que Star Trek não fazia parte do seu universo, e que se identificou muito mais com Jack Ryan. Ele com certeza não era o único a se projetar no personagem de ficção. Clancy, que morreu em outubro, aos 66 anos, tinha 37 em 1984, quando concretizou o sonho de escrever um livro. Foi justamente Caçada ao Outubro Vermelho, sobre capitão de um submarino russo que deserta para os EUA. O governo norte-americano duvida de suas intenções e o agente da CIA Jack Ryan é chamado para investigar o caso.

Foi a primeira vez que Jack Ryan apareceu - em livro e cinema. Clancy propõe uma intrigante viagem na mente humana. Ryan sabe tudo sobre o oficial russo. A tensão nasce menos de um embate real que da sua tentativa de antecipar o que se passa na cabeça do outro. Outubro Vermelho inaugurou o gênero chamado de techno thriller, com tramas políticas enriquecidas por detalhes de novas tecnologias militares. A crítica gostou, mas Clancy teve uma ajudazinha. Assim como John Kennedy foi responsável pela explosão de James Bond, ao dizer que adorava as aventuras de 007, o então presidente Ronald Reagan foi o grande responsável pelo sucesso do herói de Clancy. Depois que ele disse que Jack Ryan era o melhor agente da literatura, as vendas dispararam e o livro instalou-se na lista de best sellers do The New York Times.

Daí para Hollywood foi um pulo. Alec Baldwin faz um bom Jack Ryan, mas a força do filme está no carisma do ex-007, Sean Connery, com seus cabelos prateados. Consagrado - e convertido em escritor profissional -, Clancy, um antigo professor de inglês de Baltimore (e, depois, corretor de seguros), fez de seu personagem um viajante nas mudanças da geopolítica mundial. Em 1988, com Jogos Patrióticos, confrontou Jack Ryan com o terrorismo internacional. No ano seguinte, com Perigo Real e Imediato, foi a vez do tráfico de drogas. Ambos os filmes foram realizados pelo australiano Phillip Noyce, que, em São Paulo, homenageado pela Mostra, disse que havia sido um bom soldado de Hollywood, na batalha pela ocupação dos corações e mentes de espectadores de todo o mundo. Sem renegar seu passado - e elogiando a integridade artística e ética de seu ator, Harrison Ford -, Noyce fez saber que não estava mais interessado neste tipo de cinema. Na época, 2006, ele estava na cidade para apresentar Em Nome da Honra, sobre as cicatrizes do apartheid.

Em 1991, Jack Ryan envolveu-se em nova intriga internacional ao tentar solucionar uma crise política entre EUA e Rússia, no período pós-Guerra Fria. O livro, A Soma de Todos os Medos, só virou filme dez anos depois. Surgiu em 2002 e foi visto com desconfiança pelos críticos, que o viram como reação ao 11 de Setembro que havia destroçado a ‘América’, no ano anterior. Jack Ryan, agora interpretado por Ben Affleck, usa seu conhecimento da antiga URSS para saber o que está se passando no antigo império soviético. Um fascista usa o presidente eleito para provocar uma crise com os EUA. Seu objetivo é levar os dois países ao confronto nuclear, estabelecendo a Europa como o novo centro do poder mundial.

Na verdade, e a despeito das diferentes circunstâncias de cada livro (e filme), Jack Ryan move-se sempre no terreno sinuoso da paranoia que tradicionalmente aflige o povo norte-americano, com reflexos em Hollywood (e numa certa maneira de enfocar o cinema como soma de todos esses medos). Embora desiguais - e Caçada ao Outubro Vermelho é o melhor dos filmes, seguido por Jogos Patrióticos, que também é bom -, os filmes com Jack Ryan propõem sempre uma base realista, com o pé nas políticas praticadas pela Casa Branca. A novidade do próximo - Operação Sombra: Jack Ryan - é que o diretor Kenneth Branagh pega o personagem na fase pré-CIA, cooptado para ser agente secreto. Chris Pine está se especializando nessas viagens ao passado. Seu capitão Kirk que o diga.

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