Tizuka Yamasaki faz sessão especial do novo filme, ‘Encantados’, em Soure, no Pará

Tizuka Yamasaki faz sessão especial do novo filme, ‘Encantados’, em Soure, no Pará

Em sessão lotada, público se emocionou com história inspirada na pajé Zeneida Lima, que nasceu e vive no município paraense onde ocorreu a pré-estreia, no sábado, 18

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2017 | 18h07

SOURE (PARÁ) - Noite do último sábado, 18. Praça Independência, em Soure, na Ilha do Marajó, lotada. Pouco a pouco, o público local se ajeitava nas cadeiras de plástico distribuídas em fileiras na frente de um telão montado ali na tarde daquele mesmo dia. Quem não conseguiu lugar na plateia conseguiu cadeiras de amigos ou trouxe de casa e posicionava nos espaços vagos. Adultos, adolescentes, crianças. Todos estavam ali para assistir a uma história de sua terra, de uma personagem de sua terra, a pajé Zeneida Lima, hoje com 83 anos. Estima-se que 2 mil pessoas assistiram à sessão. 

Inspirado no livro de Zeneida, O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó, o filme Encantados, dirigido por Tizuka Yamasaki, conta a história de Zeneida (Carol Oliveira), então menina, que sai de Belém, com a mãe Zezé (Letícia Sabatella), os sete irmãos e a empregada Cotinha (Dira Paes), e vai para Ilha do Marajó, por determinação do advogado Angelino (José Mayer), pai ilegítimo dos oito filhos que teve com Zezé. 

É na ilha que Zeneida passa por seu rito de passagem: seu dom de pajé, que era sufocado pela família na capital paraense, se aflora quando Zeneida entra em contato direto com a natureza. É ali também que ela descobre o amor (proibido) por Antonio (Thiago Martins), um encantado, como são chamados os seres da natureza (daí o título do filme).

O filme traz ainda no elenco Ângelo Antônio e Anderson Müller, além da participação especial de Laura Cardoso e Cássia Kis. 

Com os olhos grudados no telão, a plateia permaneceu no mais absoluto silêncio do começo ao fim. Talvez pela emoção que muitos ali experimentaram de assistir a uma sessão de cinema pela primeira vez, ou por se sentirem devidamente retratados num filme, ou mesmo por torcerem para que a menina Zeneida conseguisse superar todos os conflitos – inclusive com o pai – e todas as barreiras que encontrava pelo caminho. Houve quem torcesse abertamente, houve quem chorasse baixinho.

Do elenco, apenas Ângelo Antônio pôde participar dessa sessão especial na cidade, e Dira, que é paraense, foi representada pela mãe, D. Florzinha, como é carinhosamente chamada. 

“O cineasta sempre quer fazer a estreia no lugar onde filmou, para devolver à comunidade aquilo que a comunidade deu, mas nunca dá para a gente fazer porque é muito caro”, afirma Tizuka, em entrevista ao Estado. Mas, segundo a diretora, ela batalhou para que isso acontecesse, e contou com o apoio do governo local. “Eles estão querendo mostrar o Pará para o Brasil, ainda mais agora que está havendo esse burburinho sobre o Pará, com a novela ('A Força do Querer', de Gloria Perez).” 

Ângelo Antônio, que vive o pajé Mundico na trama - e figura importante na vida de Zeneida -, assistiu ali ao longa pela primeira vez. “Foi emocionante, fiquei tão feliz com o resultado do filme, precioso, atual, e em termos de cinema, ele não cai. Ela (Tizuka) consegue manter uma tensão no filme o tempo inteiro”, diz o ator. “Acho que é importante essa atualidade do filme em relação à natureza, do meio ambiente, do que a gente está vivendo hoje, essa agressão com a natureza, da falta de compreensão de que a gente é parte dela, parece uma coisa dissociada, mas não é.”

Zeneida Lima também estava na plateia. E também ficou emocionada ao ver sua história retratada. “Ali senti como se fosse um grito da natureza, por tudo aquilo que eu lutei a vida inteira para preservar a memória caruana”, comenta Zeneida. “Tenho até hoje um amor desenfreado pela natureza. Da natureza, a gente tira tudo: o recurso para a cura se tira da natureza, e, com essa devastação que está acontecendo, nosso ar poluído, nossa mata se acabando, nossa terra envenenada, sinto que nosso planeta está morrendo, estamos chegando num fim muito triste, e temos de acordar para isso enquanto é tempo.” 

Finalizado em 2014, o novo longa de Tizuka, coprodução entre Globo Filmes e Scena Filmes, rodou os festivais no Brasil e no exterior – foi premiado na 38.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na categoria Festival da Juventude, em 2014, e abriu o Brazilian Film Festival of Miami, em 2016. Encontrou problemas para distribuição. Com a parceria com a Riofilme, no entanto, Encantados estreia 7 de dezembro em salas de cinema no Pará e o lançamento nacional está previsto para março, em 200 cópias.

 

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