Tizuka exibe em Londrina prévia do épico "Gaijin 2"

A estréia nacional está marcada para 4 de março de 2005. Não por acaso. Além de fugir da concorrência dos blockbusters americanos que vão com certeza preencher a faixa nobre do mercado interno até a entrega do Oscar, em fins de fevereiro, Gaijin 2 deve chegar ao circuito nacional em cerca de cem salas, exatamente na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher. Tizuka Yamazaki aposta numa espécie de lançamento temático desse seu filme que poderá fertilizar o habitual debate daquele período. Há uma razão para isso. O filme, ainda inacabado, que ela exibiu em Londrina apenas para um pequeno grupo de pessoas que de uma forma ou de outra deram suporte à longa etapa local de produção, em 2002, é um forte, generoso, emocionado tributo às mulheres. O argumento de Gaijin 2 parte da descendência dos primeiros imigrantes japoneses que chegaram ao Brasil em 1908 no Kassato Maru e estende a narrativa através de quatro gerações de mulheres ao longo do século passado, da valente pioneira Titoe de Gaijin - Caminhos da Liberdade à mestiça e dekassegui Yoko, passando por Shinobu e Maria. Embora faltando ainda alguns complementos no processo de dublagem e retoques no som e na imagem, Gaijin 2 está praticamente pronto. É uma superprodução para os padrões brasileiros, um épico de R$ 9,9 milhões que coloca na tela cem anos de história, dezenas de personagens, elenco internacional, locações no Brasil e no Japão. "Não poderia fazer o filme de outro jeito, tive de assumir que era um drama histórico de grandes proporções, com os desafios naturais de riscos e custos acima dos padrões habituais", afirma Tizuka sobre o reencontro com seu projeto mais pessoal e confessadamente autobiográfico, em que a cineasta projetou seu sangue, suas memórias, seu legado - ela é neta de imigrantes, e a ´batyan´ (avó) retratada no filme foi criada a partir de lembranças de sua infância. Se a estréia com o premiado Gaijin - cinco Kikitos no Festival de Gramado, 1980, inclusive de melhor filme, e outros 38 prêmios em festivais nacionais e internacionais - era há um quarto de século o atestado de comprometimento e primeira bandeira autoral, então Gaijin 2 é a retomada de sua melhor forma como cineasta depois que, neste meio tempo, seus filmes foram ficando menos interessantes. "Os primeiros imigrantes japoneses que aqui chegaram estão desaparecendo, enquanto 250 mil descendentes continuam voltando para trabalhar no Japão, provocando uma verdadeira revolução cultural", analisa Tizuka. E foi a partir dessa constatação que surgiu uma primeira sinopse do roteiro de Gaijin 2. Nessa história-resgate, nessa ficção temperada pelo documento - seria injusto e reducionista rotular o filme de docudrama -, Tizuka construiu com emoção, perspicácia e inteligência a ponte entre o ontem e o hoje, entre as dificuldades daquele começo áspero e as aflições desse recomeço dekassegui. Percorrendo o caminho inverso dos primeiros imigrantes, Gaijin 2 articula suas tramas familiares sem nunca perder de vista o contexto social e político das diversas épocas que a narrativa atravessa. Cidadania e identidade étnica e cultural são perseguidas como valores indispensáveis à plena realização individual e coletiva. As locações em cidades do norte do Paraná como Londrina, Cambará e Maringá, além de historicamente justificáveis no processo da participação japonesa na colonização regional, têm para Tizuka um outro significado: "Esta é a primeira vez que uma produção cinematográfica mostra o interior do país como um lugar rico, economicamente viável e tão ou mais interessante como qualquer outra região. É um filme que alimenta a auto-estima do interior", explica Tizuka. No processo de minuciosa recriação cenográfica retratando os primeiros anos de Londrina, nas décadas de 1930 e 1940 - a cidade está fazendo 70 anos em 2004 -, Tizuka contou com o precioso concurso de colaboradores ainda dos tempos de Gaijin, a irmã e diretora de arte Yurika Yamazaki e o iluminador Edgar Moura. À frente do elenco, as nipo-americanas Tamlyn Tomita, a canadense Nobu McCarthy - que morreu em Londrina durante as filmagens -, o cubano Jorge Perugorria e os japoneses Kyoko Tsukamoto (retomando o papel de Titoe do primeiro Gaijin), Kissey Kuwamoto e Riugo Sugimoto. Entre os brasileiros, os destaques são Zezé Polessa, Mariana Ximenes, Louise Cardoso e Luis Mello. E uma agradável surpresa: a estreante Haya Ono, de 74 anos, imigrante e londrinense por adoção descoberta por Tizuka para interpretar a ´batyan´. Com desenvoltura de veterana e jovial espontaneidade, ela repete na tela, com graça e simplicidade, o papel de matriarca que desempenhou na vida real, a lutadora que se apegou ao novo chão. Muito festejada após a exibição prévia em Londrina, dona Iaiá, como ficou conhecida no set, depois das filmagens voltou à atividade de sempre: "Ir para a horta, plantar almeirão e cebolinha, né?"

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