Tizuka começa a rodar "Gaijin 2"

Quando dirigiu Gaijin - Caminhos da Liberdade (1980), Tizuka Yamazaki tinha a ambição de homenagear os imigrantes japoneses contando a história de uma mulher que se estabelecia no Brasil transitoriamente, com o objetivo de ganhar dinheiro e voltar para a sua terra natal. Em Gaijin 2, que começou a ser rodado em março, em Londrina, no norte do Paraná, o que era um fragmento transformou-se em uma saga familiar de quase cem anos. As rodagens estão previstas para terminar em 5 de maio. O lançamento está sendo estudado para o início de 2003. São dois filmes independentes. A principal ligação entre ambos é Titoe, inspirada na quase centenária avó de Tizuka. "Gaijin é apenas um momento da personagem, quando se dá conta de que não pode mais voltar." Em Gaijin 2, ela sobrevive a quatro gerações e será interpretada ao longo de sua vida na tela por quatro atrizes diferentes. Na fase adulta, a japonesa Kyoko Tsukamoto, a Titoe do primeiro Gaijin, retoma a personagem. Quando ela se torna uma batyan, uma vovozinha, ganhará os contornos de Aya Ono, uma imigrante japonesa de 74 anos - radicada no País desde os 5 - que ainda hoje mal fala o português. Dona Iaiá, apelido carinhoso pelo qual é conhecida, tornou-se o xodó de Tizuka e da equipe de produção. Observadora e muito sorridente, ela foi selecionada para o papel enquanto estava fazendo testes para participar do filme como figurante. "A história de vida dela é muito parecida com a de minha avó", justificou a diretora. "Além do mais, elas são parecidas fisicamente também." O elenco traz também nomes internacionais. A nipo-americana Tamlyn Tomita, atriz de Karatê Kid 2, O Clube da Felicidade e da Sorte e Grande Hotel, entre outros filmes, fará o papel de Maria, neta de Titoe. É o primeiro filme que faz fora dos Estados Unidos. Está aprendendo português para poder dizer os diálogos com mais desenvoltura, mas não foi durante a apresentação do elenco que arriscou algumas frases. Preferiu deixar isso a cargo de sua tradutora, que se encarregou até mesmo de responder às perguntas dos repórteres pela atriz sem ao menos consultá-la. O cubano Jorge Perugorría, que atuou em Estorvo, de Ruy Guerra, e Navalha na Carne, de Neville d´Almeida, sucedeu ao americano John Turturro e ao espanhol Javier Bardem na escala de preferências da diretora. Ele vai interpretar Gabriel. Filho de imigrantes espanhóis, o personagem se casa com Maria e, quando perde tudo, decide ir para Kobe trabalhar como dekassegui - palavra japonesa de conotação pejorativa para designar os nisseis que voltam ao país para trabalhar e ganhar dinheiro. "Fico feliz de poder trabalhar novamente aqui", diz Perugorría, cuja participação no filme é pequena. "Quero ampliar cada vez mais meus laços com o cinema latino-americano." O elenco estrangeiro traz ainda mais seis atores genuinamente japoneses. E uma infinidade de isseis, nisseis e sanseis da colônia nipônica do Paraná. Entre os ocidentais, estão escalados Luís Mello, Louise Cardoso, Zezeh Polessa e Mariana Ximenes fazendo papéis de alemães, espanhóis e italianos - nacionalidades cujas colônias são grandes na região. Serão, ao todo, 70 atores com algo para dizer, nem que seja um bom-dia. E um exército de 2,6 mil figurantes, que não abrirão a boca nem para dar bom-dia. Gaijin 2 demorou mais de 20 anos para sair do papel. Inicialmente, o projeto de Tizuka era fazer uma trilogia da saga de Titoe. Mas acabou indo para o ralo logo após o seqüestro da poupança promovido pelo governo Collor. A diretora o retomou recentemente, depois de uma carreira autoral nunca mais igualada à sua estréia, de se tornar campeã de renda à frente de filmes comerciais como Xuxa Popstar (em parceria com Paulo Sérgio Almeida) e O Noviço Trapalhão e de conhecer a história da imigração japonesa no Paraná. "Fiquei impressionada", disse ela. "Não sabia, mas aqui é a segunda maior colônia japonesa no Brasil. Só perde para São Paulo." Orçado em R$ 9 milhões, dos quais R$ 6 milhões estão captados pelas leis de incentivo e isenção fiscal, Gaijin 2 terá cenas rodadas no Brasil (Cambará, Curitiba, Foz do Iguaçu, Guaeracá, Ibiporã, Jacarezinho, Maringá e Paranaguá) e no Japão (Kobe, Korume, Nara e Osaka). A estrutura comporta ainda uma cidade cenográfica construída em uma área de 22 alqueires na fazenda Santa Helena, em Londrina, onde estão reproduzidas as vilas que receberam os imigrantes japoneses no início do século passado e outros cenários importantes do filme. A fotografia ficará a cargo de Edgar Moura, colaborador de Tizuka desde o primeiro Gaijin até Patriamada. E a direção de arte está nas mãos de Yurika Yamazaki, irmã da diretora e sua habitual colaboradora. "Nas comemorações dos 500 anos, fiquei mordida com a falta de consideração com a imigração japonesa", disse Tizuka. "Tem espaço para falar de italianos, alemães e tudo mais. Se eu não contar a história dos japoneses, quem é que vai contar? Outra coisa: queria mostrar para as novas gerações que a comida que a gente põe na mesa tem um valor. Quase fui da roça, acho importante falar sobre o que é plantar a própria comida. O que tem de mais valor nesse país, além da nossa gente, é a comida."

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