"Tiros em Columbine" chega para polemizar

Dublê de ativista político e showman, Michael Moore já era um documentarista com dez filmes no currículo - um deles, Roger e Eu, considerado obra-prima -, quando o 11.º, Tiros em Columbine, fez dele a sensação do Festival de Cannes do ano passado. Moore passou pela Croisette disparando petardos contra o presidente George W. Bush, personagem central de seu livro Stupid White Men, lançado agora no Brasil com o subtítulo de Uma Nação de Idiotas. Tiros em Columbine estréia hoje no Brasil. Há um ano esse é o documentário mais falado em todo o mundo. Ganhou o prêmio do júri em Cannes, foi o preferido do público na Mostra BR de Cinema - Mostra Internacional de São Paulo do ano passado e, em março, ganhou o Oscar da categoria. A performance de Moore no Kodak Theatre fez dele uma personalidade planetária.Todos querem ver Tiros em Columbine. As sessões de pré-estréia lotaram. Todo mundo que se preze quer opinar sobre a questão que Moore levanta em seu documentário: os EUA são uma nação de loucos por armas ou só loucos? Tomando por base uma daquelas tragédias que, volta e meia, sacodem a América - estudantes mataram várias pessoas a tiros na Columbine High School -, Moore descobriu que eles saíram diretamente de um boliche para cometer seus atos de violência. Daí o título original, Bowling for Columbine.Entre Cannes, no ano passado, e a estréia brasileira, Moore virou estrela, usando a audiência do Oscar - 1 bilhão de pessoas - para atacar de novo o presidente Bush, a quem chamou de presidente "fictício", que levava uma guerra "de mentira" (contra o Iraque). Virou o mais provocativo opositor do todo-poderoso presidente dos EUA. E promete radicalizar ainda mais: seu novo filme, Fahrenheit 9/11, sobre o ataque às torres gêmeas, será usado por ele como ferramenta em sua campanha contra a reeleição de Bush, em 2004.Tiros em Columbine provoca forte impacto sobre os espectadores e, se você é contra Bush e tudo o que ele representa - cultura guerreira, consumismo, globalização -, esse é o programa certo para exercer sua militância. Mas o filme está longe de ser uma unanimidade. A menor das críticas que Moore vem recebendo é a de ser um manipulador, o que ele é, evidentemente. Para discutir o culto das armas como a base da sociedade americana - que só consegue resolver seus conflitos por meio da violência -, o diretor armou-se de uma câmera e, às vezes, sai ele próprio dando tiros, munido do rifle que foi incorporado ao seu equipamento. E Moore é o rei das perguntas constrangedoras e embaraçosas. Costuma fazê-las com cara de bobo alegre ou então de inocente. O boné, a barriga saliente, os óculos de fundo de garrafa, tudo nele ajuda a esculpir uma persona que desafia padrões de comportamento e estética para afirmar-se como uma personalidade 100% midiática.É muito divertido ver Moore entrar no banco que oferece um rifle para quem abrir uma conta e conversar banalidades com a gerente até perguntar o que interessa: "Não é meio louco entregar armas a usuários dentro de um banco?" Crianças, até animais, todos se armam em Tiros em Columbine. Executivos de fábricas de armamentos são colocados contra a parede e Moore chega a transpor a fronteira para ir perguntar aos canadenses o que eles pensam sobre os americanos e sua obsessão pelas armas de fogo. A cruzada é sincera, apaixonada, justa. Mas, já que o assunto são as armas, Moore não é uma unanimidade justamente pelas armas que usa para fazer sua denúncia.Pergunte a Albert Maysles, um dos papas do cinema direto, a João Moreira Salles e a Jean-Pierre Rehm, diretor do festival de documentários de Marseille. São contra Michael Moore e invocam exatamente a mesma cena do filme. É aquela que envolve a participação de Charlton Heston. O salvador da humanidade nos épicos dos anos 1950 e 60 (Os Dez Mandamentos, Ben-Hur, El Cid, 55 Dias em Pequim, O Senhor da Guerra, O Planeta dos Macacos e A Última Esperança da Terra) virou o porta-voz da Associação Americana do Rifle.Heston, na vida, teve a insensibilidade de visitar a cidade enlutada pelos tiros em Columbine, para fazer proselitismo da associação, tentando neutralizar críticas ao uso indiscriminado das armas de fogo. Heston não quer falar, no filme, mas Moore consegue entrar em sua casa, submete-o ao ridículo com suas perguntas e, no fim, o filma como um patético velho artrítico que se arrasta, com dificuldade para caminhar, diante da câmera. Maysles, Salles e Rehm acham que os fins não justificam os meios. Moore, ao investir contra Heston, é desrespeitoso e tão fascista quanto o fascismo que denuncia em seu filme. A polêmica é importante. Refere-se à ética do documentário. Moore fere a ética em nome de uma boa causa. É válido? É justo? A partir de hoje, você também está sendo chamado para opinar.

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