"Tirésia" na fronteira entre França e Brasil

Bertrand Bonello, diretor de Tirésia, já é conhecido no Brasil como autor do interessante O Pornógrafo, que trouxe de novo à tela o ator emblemático da nouvelle vague, Jean-Pierre Léaud. Tirésia concorreu no Festival de Cannes do ano passado, em passagem apenas discreta. A pretensão de Bonello é reviver, no tempo moderno, o antigo mito grego. Tirésia, segundo a narrativa lendária, foi transformado em mulher e assim viveu durante muitos anos, até voltar a ser homem de novo. Amparado pela dupla militância, pôde afirmar que a mulher obtinha nove vezes mais prazer na relação sexual do que o homem. Não diz como chegou a cálculo tão preciso, mas o mito diz respeito a essa impossibilidade teórica de cada sexo conhecer o gozo do outro. Nesse terreno, tudo é apenas presumível. Na lenda, Tirésia é punido com a perda da visão pela revelação do segredo. Como consolo, ganha o dom da vidência. Bom, transportado para o presente, Tirésia vira um travesti do Bois de Boulogne, em Paris. O transexual é vivido por dois brasileiros, a atriz Clara Choveaux e Thiago Teles. Tirésia é seqüestrado por um admirador e fica preso no porão de uma casa. Sem acesso aos hormônios femininos, vai se masculinizando aos poucos. Essa "transformação" da personagem é responsável por alguns dos momentos mais grotescos do filme, com direito a barbas incipientes e falos de borracha. O clima, em si, é estranho - e isso não é exatamente um elogio, no caso. Bonello diz que quis encenar uma espécie de dialética entre o sagrado e o profano por meio desse personagem intermediário. Essa tentativa não aparece na tela e o filme se destaca mais por alguns momentos isolados que por seu conjunto. As referências ao Brasil estão presentes em toda a parte. O repórter do Estado perguntou ao diretor por que ele havia escolhido para personagem um transexual brasileiro. Bonello foi direto: porque a maioria dos travestis do Bois é brasileira mesmo. Ponto. A melhor cena, para mim, é aquela em que Tirésia, em sua forma feminina, entoa a cantiga Terezinha de Jesus e traduz os versos para o seu captor. Nesse momento, há doçura em meio à violência.

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