Tim Burton se fixa no livro para dirigir remake do filme

Ninguém mais adequado do que Tim Burton para fazer uma nova adaptação para o cinema de A Fantástica Fábrica de Chocolate, o clássico infantil do escritor galês Roald Dahl. O diretor americano, com seu visual dark, cabelos compridos, barba por fazer, inseparáveis óculos escuros e que hoje passa a maior parte do tempo em Londres, escalou os parceiros habituais, como o ator Johnny Depp e o compositor Danny Elfman, para o projeto, do qual fala com grande dose de bom humor, começando por dizer que decidiu ser tão fiel quanto possível ao livro. Sempre que faz um filme, você pensa em Johnny Depp? Até para os papéis femininos. Até se for um filme de animais, eu penso nele. (Risos.) Sim, eu penso muito nele porque, desde Edward Mãos de Tesoura, ele é um ator que gosta de mudar, se transformar em diferentes personagens. Ele é mais parecido com o Lon Chaney do que com o astro principal: está sempre disposto a se transformar. É por isso que gosto de trabalhar com ele.Como se dá esse processo? É você que o indica? Essa foi a primeira vez que não tive que lembrar o nome de Johnny. O estúdio teve a idéia antes.Existem diferenças entre o livro e o filme? Qual era o seu objetivo e o que acrescentou? Nosso objetivo foi voltar atrás e ser mais fiel ao livro. As únicas coisas que acrescentamos foi um pouco da história passada de Wonka, que não estava no livro original. Realmente tentamos ser mais fiéis ao espírito do livro e ter a sala de nozes com os esquilos, não tirar o pai, manter o pai. Ser um pouco mais fiel ao que pensávamos ser o verdadeiro espírito do livro.Como foi dirigir esquilos? Bom, ter nozes no set ajuda. Foi difícil, porque eu fico assustado com esquilos. Até quando os vejo no parque eu pulo. Há algo neles que acho estranhamente assustador. Foi engraçado trabalhar com isso. Sempre lembro dessa seqüência do livro e sempre teve um grande impacto em mim. Foi engraçado fazer. Difícil, mas engraçado.É a 12.ª vez que você e o compositor Danny Elfman trabalham juntos. E este filme, em especial, tem um componente musical muito forte. Como foi trabalhar com ele nesta adaptação? Novamente, no livro, no final da eliminação de cada criança há uma espécie de poema que pode ser lido como se fosse música. Achamos que seria legal se os Oompa-loompas fossem uma espécie de povo musical. E, portanto, seria legal trabalhar com Dan. Eu ia muito aos shows da banda dele e seria quase como voltar para aquelas coisas do Oingo Boingo que ele fazia há muitos anos atrás. Foi divertido. Mais uma vez, o livro é a fundação. O que é legal sobre esse livro é que ele deixa muito espaço aberto para a interpretação. Não é como se nos sentíssemos restritos, como se as coisas precisassem ser iguais. Foi muito divertido experimentar. Então, conseguimos construir o set e isso foi muito legal também. Particularmente, trabalhar com crianças. Estar em um ambiente verdadeiro ao invés de ficar numa sala azul durante seis meses ajudou muito. Construímos quase todo o set e quando estávamos naquelas salas, eram ambientes completos.Vocês usaram chocolate de verdade nas cenas? Nossa equipe de efeitos especiais passou meses tentando encontrar a consistência correta de uma mistura que se parecia com chocolate. Construímos a cachoeira e o rio. Era importante que não se parecesse só com água marrom ou um rio lamacento. Trabalhamos muito na época para tentar encontrar a densidade certa, para tentar encontrar o agente que fizesse a mistura se parecer com chocolate derretido. Passamos muito tempo fazendo esse tipo de coisa estranha.Mas era chocolate de verdade? Era um agente químico que engrossava a mistura. É a mesma coisa que usam nas pastas de dentes e nas pastas de amendoim para manter a firmeza. É comestível, mas sinceramente não recomendaria a ninguém. De qualquer maneira, não era chocolate verdadeiro.Sempre que pode, você evita a computação gráfica, mas optou por multiplicar digitalmente o Oompa-loompa (Deep Roy). Por quê? Para mim, havia três opções: contratar um elenco de Oompa-loompas - diferentes pessoas - ou uma abordagem mais moderna seria fazer tudo com computação gráfica. Mas eu achava que o elemento humano era importante e, novamente, queria ter o máximo de elementos reais no set quanto fosse possível. Eu havia trabalhado com Deep antes e o acho uma pessoa convincente. Para mim, ele é um Oompa-loompa. Então, achei que seria estranho e interessante replicá-lo e fazer com que interpretasse todos os diferentes Oompa-loompas. Ele teve talvez o trabalho mais difícil de todo o filme, pois teve que fazer quase todas as coisas centenas de vezes.Fale um pouco sobre as crianças. Como as escolheu? Escalar crianças é mais difícil do que os adultos. Com Freedie (Highmore) eu tive muita sorte Eu não tinha visto Em Busca da Terra do Nunca, mas quando ele entrou no meu escritório, eu soube imediatamente. Outra coisa que é importante com esse personagem, é que não dá para dirigir uma pessoa para ter o tipo de gravidade que ele tem naturalmente. E era o que o personagem precisava. Com as outras crianças, é difícil porque alguns deles nunca fizeram cinema na vida. Mas de alguma forma eu soube quem eram cada vez que entravam na sala. Não que eles fossem malcriados como os do filme, mas tentei encontrar neles alguma coisa que fosse parecido com seus personagens.Poderia comentar a semelhança entre a caracterização de Johnny Depp para Willy Wonka e Michael Jackson? Foi algo intencional? (Risos). Isso me faz rir, porque para mim é como a diferença entre o dia e a noite. Michael Jackson gosta de crianças e Willy Wonka não as agüenta. Então, para mim não há ligação nenhuma entre as duas coisas, até onde minha cabeça se ocupa com isso. Quando viu Johnny Depp vestido como Willy Wonka pela primeira vez, não pensou, como todo mundo, que pudesse haver uma ligação? (Tira uma foto de Michael Jackson do bolso da camisa e a abana para o repórter.) Você realmente acha que Johnny Depp se parece com isso? (Risos.) Acha mesmo?Eu perguntei qual a sua primeira sensação ao vê-lo vestido?(Ainda com a foto na mão.) Então, você acha que ele se parece com isso.Vocês chegaram a conversar a respeito disso? Não, nunca conversamos a respeito. Não dá para controlar os eventos culturais no sentido das conexões que as pessoas fazem. Essa idéia está clara na minha cabeça, tanto simples quanto a noite e o dia: um gosta de crianças e o outro não. É isso que me faz rir.

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