Tilda Swinton conta sobre o filme "Impulsividade"

Colocar-se nas mãos de um cineasta estreante nunca incomodou Tilda Swinton. Pelo contrário. A atriz escocesa admite ter uma queda por diretores de primeira viagem. "Os principiantes são mais originais. É uma pena que eles acabem, mais cedo ou mais tarde, trocando a liberdade de expressão por um orçamento mais generoso", afirma Tilda, vista em Zona de Conflito (1999), estréia de Tim Roth na cadeira de diretor, O Jovem Adam (2003), primeiro filme de David Mackenzie, e Impulsividade, em que Mike Mills gritou "ação!" pela primeira vez num set de longa-metragem. Este último estréia nesta sexta-feira nas telas nacionais.Aos 45 anos, Tilda é dona de uma galeria de personagens pouco convencionais. Como a heroína que mudava de sexo ao longo de quatro séculos em Orlando (1992), a líder de uma comunidade isolada em cenário paradisíaco em A Praia (2000) e a bruxa que amaldiçoa um povo a amargar um inverno de 100 anos em Crônicas de Nárnia - O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, atualmente em cartaz. "Não saberia definir quais os papéis que mais me interessam. Não escolho pensando na minha personagem e sim na experiência que o filme poderá me proporcionar", conta a atriz, escalada para viver a enfermeira insatisfeita com a vida em Impulsividade. Com um casamento sem graça e um filho adolescente que ainda chupa o dedo, sua única esperança é ganhar um concurso para conhecer seu favorito astro de TV. "É uma mulher normal, lutando contra a solidão." Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida em Nova York.Sentiu-se atraída particularmente pelo caráter existencialista do filme? Sim. A existência humana é sempre dolorosa, ainda que o indivíduo tente disfarçar com momentos de alegria e satisfação. O filme me interessou justamente por abordar a solidão, a alienação e o amadurecimento.Mas os personagens não chegam necessariamente a amadurecer. Talvez os pais estejam no mesmo estágio do filho adolescente...Aí está a beleza do filme. Ele discute exatamente quando é o momento de crescer, se é que nós conseguimos atingir esse estágio em algum momento da vida. Sua personagem aqui, assim como grande parte das mulheres que já interpretou, vive uma inquietação sexual. Sempre me senti fascinada pela questão de identidade, seja sexual ou não. A idéia de uma mulher de 40 anos estar cansada da sua vida e fantasiar com ator de televisão me pareceu muito plausível. Essa sensação de insegurança é muitas vezes contraditória. Por um lado, sentimos que já passamos da idade. Mas isso não nos impede de ter vontade de ir a um concerto de rock na garupa de um motoqueiro.Outra característica comum na sua galeria é a vida interior rica da personagem, verbalizando pouco. Sempre gostei de explorar os monólogos que se passam na cabeça dos personagens. Muitos atores preferem contracenar com outros, acreditando que só assim conseguem atingir uma boa performance. Eu não. Gosto quando o meu personagem fica sozinho em cena, comunicando-se apenas com a câmera.Aborda os personagens mais intelectual que emocionalmente?Não consigo verbalizar o meu processo de criação. É sempre instintivo. Só posso dizer que prefiro uma interpretação mais natural. Talvez seja por pura preguiça (risos).

Agencia Estado,

13 de janeiro de 2006 | 21h33

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