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Thomas Lilti, diretor do filme ‘Hipócrates’, relata as horas de terror em Paris

Diretor do filme que estreou na quinta-feira, 12, comenta obra e do ataque na capital francesa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2015 | 04h00

Seria uma sexta-feira como tantas em Paris, apesar da data, 13. Havia o amistoso entre França e Alemanha no Stade de France, um concerto de rock no Bataclan e outro concerto, do The Do, no Olympia. Thomas Lilti quase foi cooptado por amigos para ir com eles ao futebol. Mas, fã do The Do, preferiu o Olympia. No meio do concerto, deu para ver que algo estava se passando. Uma correria nos bastidores, uma agitação entre os seguranças. O concerto foi interrompido. Lilti saiu para uma Paris em choque com o ataque do terror.

Tudo isso ele conta numa entrevista por telefone, que havia sido acordada para sábado à tarde, horário da França. Thomas Lilti cumpriu o acordo, mas ainda estava em choque. “Como todos os franceses, estou com a TV ligada, acompanhando os desdobramentos dessa verdadeira tragédia.” Cento e tantos mortos, e uma declaração de guerra do Estado Islâmico à França. O EI proclamou a França alvo prioritário e exortou os muçulmanos do país a atacarem o Estado francês de todas as formas. Lilti é o diretor de Hipócrates, que entrou em cartaz na quinta-feira, 12, nos cinemas brasileiros.

Sucesso de público e crítica na França – fez mais de 1 milhão de espectadores no país, teve ótimas críticas, foi indicado para vários prêmios César, o Oscar francês –, Hipócrates valeu a Reda Kateb o César de coadjuvante. Ketab é argelino, faz um médico da mesma nacionalidade que tenta validar seu diploma para poder exercer a profissão na França. O filme é sobre o sistema de saúde na França, visto pelos olhos de um jovem médico, que trabalha como interno. Seu nome é Benjamin, e é interpretado por Vincent Lacoste. Benjamin é filho de um médico conceituado, mas o pai não facilita sua vida. E ele termina tendo muito apoio de Abdel, o personagem de Kateb.

Lilti sabe que a França vive hoje uma relação conflituosa com seus imigrantes. Há uma rejeição muito grande a africanos e islâmicos, a direita, o Front National de Marine Le Pen, tem avançado nas legislativas. Um ataque como o de sexta-feira acirra a insegurança e o medo. Mas ele não crê que a questão do personagem de Kateb tenha algo a ver com a problemática da imigração na atualidade. “Abdel não é nenhum clandestino. A questão da validação de seu diploma não tem nada a ver com o islamismo.” E Lilti faz uma revelação curiosa – “Antes de fazer minha opção pelo cinema, formei-me em medicina. Fui interno num grande hospital, e não faz muito tempo, no começo dos anos 2000. O filme é autobiográfico, inspira-se em experiências que vivi.” E, sim, ele informa, “a situação precária da saúde que pinto na França somente se agravou com o tempo. As condições pioraram desde que fui interno”.

Assim como Benjamin é inspirado nele mesmo, em situações que viveu, Abdel também é uma síntese de médicos que Lilti conheceu e que eram estrangeiros nas França, lutando pela validação de seus diplomas. “Abdel é a síntese perfeita de dois médicos que conheci, um argelino como Reda (Kateb) e outro albanês. Se não carrego na questão da migração no filme, é porque a origem de Abdel não interfere muito no tamanho de seu problema. Se fosse um médico brasileiro tentando validar seu diploma, seria a mesma coisa.” Lilti admite que sua atividade como cineasta se nutre, e muito, da origem como médico. “Meu próximo filme, que já terminei e estreia em março, é sobre um médico de campanha. Estou muito interessado em discutir as condições da saúde no interior da França, onde a situação tende a ser muito mais precária do que nos grandes centros, como Paris.”

O diretor conta que não foi fácil levar Hipócrates adiante. “Para todo o mundo que falava, vinha sempre uma expressão de desânimo. Hollywood e a TV norte-americana já exploraram tanto os plantões médicos que muita gente até acha que não há mais muito o que dizer sobre o assunto. Eu discordo.” Na fase de preparação, Lilti admite que viu muitos filmes, incluindo franceses, sobre médicos e hospitais. O repórter arrisca. Pergunta se ele viu Docteur Françoise Gaillard, de Jean-Louis Bertucceli, de 1975? “Bien sur, sem dúvida. É um filme que tem uma ótima reputação. Mas qual é seu interesse nele?, pergunta Lilti. É a atriz que faz o papel. Annie Girardot ganhou o César. E o repórter conta que Annie é a atriz do filme de sua vida, Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti. “Ah, sim, e ela é formidável no filme de Visconti. Annie, Alain (Delon). Revi o filme outro dia e posso lhe dizer que continua grande”, observa Lilti.

O repórter diz que também viu Rocco, na Mostra de São Paulo, na versão restaurada. “É a que reestreou nos cinemas de Paris. Visconti era um grande senhor do cinema”, avalia Lilti. O assunto volta a Hipócrates, ao elenco do filme. “Reda (Kateb) foi premiado e fiquei muito contente por ele. O filme teve outras indicações para o César, até a de diretor. Gostaria de ter ganho, claro, mas se era para ser só uma estatueta, fico feliz que tenha sido a dele.” E Vincent Lacoste, que faz Benjamin? “É um jovem ator muito conhecido na França. Aos 16 anos, fez uma comédia que estourou nas bilheterias, Les Beaux Gosses. Desde então, virou queridinho do público. Aos 22 (anos), já é um nome consagrado na França.”

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