UNIVERSAL PICTURES
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'The Post' é defesa da liberdade, da ética e do poder feminino

O filme, realizado à maneira de thriller, ao feitio clássico de Spielberg, toca em questões fundamentais

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

22 Janeiro 2018 | 06h00

Há uma cena – não importa qual – em que Katharine Graham (Meryl Streep), em seu momento de glória, se mistura a um grupo de mulheres. Esta imagem de protagonismo feminino sintetiza um dos sentidos possíveis de The Post – A Guerra Secreta e o articula aos tempos presentes. O novo filme de Steven Spielberg fala de um momento crucial da história recente norte-americana, o vazamento para a imprensa, em 1971, de documentos secretos do Pentágono referentes à Guerra do Vietnã. 

Divulgados primeiro pelo New York Times e, depois, pelo Washington Post, os documentos eram nitroglicerina pura. Mostravam como a participação americana na guerra aumentara, ao contrário do que fora dito à população. E que não havia perspectivas de vitória. Ou seja, o governo mandava jovens para a morte inútil. 

O foco é no Washington Post, jornal até então provinciano. A proprietária, viúva, é Katharine (Meryl), dondoca bem relacionada no primeiro escalão do governo. O editor é o ousado Ben Bradlee (Tom Hanks). O dilema do jornal é se divulga os “Papéis do Pentágono” e entra em rota de colisão com o governo, ou se os omite e conforma-se com sua posição subalterna. 

O filme, realizado à maneira de thriller, ao feitio clássico de Spielberg, toca em questões fundamentais – a democracia, a liberdade de imprensa, a responsabilidade ética da mídia. Uma frase, pronunciada por um personagem, diz tudo sobre o assunto: “Um jornal é feito para os governados e não para os governantes”. Deveria ser norma padrão para todo veículo de imprensa digno deste nome. 

+ Meryl Streep e Tom Hanks falam sobre ‘The Post – A Guerra Secreta’

The Post surge num momento em que os EUA são governados por um presidente despreparado e em confronto permanente com a liberdade de imprensa. No passado foi Nixon; hoje é Trump. A liberdade é uma bela palavra, nem sempre respeitada pelos que detêm o poder. A democracia está sempre por ser construída e defendida, mesmo em países de formação política sólida. E o protagonismo feminino, além de justo e historicamente inevitável, representa um avanço civilizacional e barreira contra retrocessos. Inútil dizer que The Post – A História Secreta fala da história americana, mas, por contraste, tem muito a ensinar sobre a nossa. 

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