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'The Lady In The Van' adapta livro do escritor Alan Bennett

Filme conta história de mulher que morou em frente a sua casa por 15 anos

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

15 de junho de 2015 | 15h57

CANCÚN - As casas do bairro de Camden Town, bairro ao norte de Londres, naquele fim dos anos 1960, eram povoadas por liberais entupidos de tendências esquerdistas, diretores de teatro, artistas, músicos. Nicholas Hyter era apenas adolescente quando viu, pela primeira vez, a van estacionada em frente a casa que, anos depois, ele descobriria pertencer ao escritor britânico Alan Bennett, localizada a poucos metros de onde morava. 

Alan Bennett conviveu com a senhora Mary Sheperd ao longo de 15 anos e, dessas experiência curiosa, diante da excentricidade de Miss Sheperd, nasceu o livro The Lady In The Van, publicado em 1989. Depois de ser transformado em programa de rádio e peça teatral, a adaptação da obra chegará aos cinemas em 2015, sob a direção de, acredite, Nicholas Hyter - hoje, premiado diretor de teatro e, como ele mesmo gosta de frisar, ocasionalmente de cinema. No Reino Unido, o filme estreia em novembro e, no mês seguinte, o longa chega aos Estados Unidos. A data de estreia no Brasil ainda não foi revelada.

Pequenos trechos do novo filme de Hyter (cujo currículo na telona inclui As Loucuras do Rei George, As Bruxas de Salém e Fazendo História) foram exibidos à imprensa internacional reunida em Cancún para o Summer of Sony, evento organizado pela Sony Pictures para divulgar os principais lançamentos futuros. O tom cômico das imagens contrasta com a fabulosa interpretação de Maggie Smith com Miss Sheperd. A personagem, contudo, não é novidade para a atriz duas vezes ganhadora do Oscar. Maggie deu vida a mulher que morou em frente a casa de Bennett em duas ocasiões: na peça teatral homônima em 1999 e em uma adaptação para rádio.

O diretor do longa participou de um bate-papo com os jornalistas diretamente de Londres, por vídeo-conferência, e destacou o importante trabalho realizado por Maggie neste papel, desta vez diante das câmeras. Até lamentou, naquele tom de humor britânico que pode ser confundido com excesso de franqueza (ou o inverso: excesso de franqueza que pode ser confundido com humor britânico), o fato de a atriz desfrutar do maior momento de popularidade diante do grande público somente agora, com a personagem dela na série de TV Downtown Abbey, mesmo guardando, na estante, duas estatuetas do Oscar, com os filmes California Suite (1978) e A Primavera de Uma Solteirona (ou The Prime of Miss Jean Brodi, no original, de 1969). "Com a série, ela agora é mais famosa do que nunca", disse o diretor. "Mas é assim que funciona o mercado. Embora a TV é apenas uma pequena parte daquilo que Maggie é capaz de fazer. Ela é uma grande atriz desde, sei lá, o fim dos anos 1950." 

Hyter conta que grande parte do humor da drama foi uma adição da atriz veterana que completou 80 anos em 2014. E, embora conhecesse Miss Sheperd pessoalmente, nunca chegou a entendê-la, de fato. "Ela tinha uma mente independente, totalmente determinada a viver de acordo com os seus próprios termos. Maggie tem um senso de humor que a personagem verdadeira não tinha", conta ele. "O próprio Alan (Bennett) não a conhecia assim. Depois que ela morreu, ele conheceu o irmão dela e soube que ela esteve por Paris por vários anos, estudando para ser pianista clássica, no período anterior à Segunda Guerra Mundial. Só anos depois da morte de Miss Sheperd ele pode entender essa vida anterior ao dia que ela estacionou em frente a casa dele." 

Alan Bennett é interpretado, no cinema, por Alan Jennings (A Rainha e Babel), mas a presença do autor é quase sentida nas cenas exibidas do filme. Isso porque uma das condições do diretor, para concordar em levar essa história à telona, era que o longa fosse filmado exatamente na casa onde viveu Bennett naquele período da vida - e, por sorte, ainda é de propriedade do escritor.

"Não lembro se pensamos em fazer o filme quando montamos a peça, mas voltar a isso, 15 anos depois, foi bom para começar tudo do zero. Foi Alex Jennings, ao interpretar Alan em outra peça, que nos vez voltar ao The Lady in The Van", conta o diretor. "E conseguimos voltar ao início, à casa onde tudo aconteceu, aquela rua no norte de Londres." A experiência de estar no lugar no qual a história nasceu foi fundamental para o filme, explica o diretor. "A grande diferença do filme é poder olhar para aquele lugar onde ela viveu, ver toda a história acontecendo pela janela do quarto de Alan, naquela mesa onde ele escrevia e olhava o mundo. É fascinante perceber como o escritor encontrou o material ali, bem na porta da casa dele. E transformou aquilo em arte." 

Para Hyter voltar ao mesmo local, hoje conhecendo a história de Miss Sheperd, também aciona um gatilho emotivo dentro dele. "Eu só a conhecia como vizinha. Morei ali, na esquina, por uns 30 anos. Ela era uma pessoa conhecida em Camden. Fui saber que Alan Bennett morava naquela casa, mas não entendia o que a mulher na van fazia ali. Pensava: 'Alan Bennett colocou a mãe para viver do lado de fora da casa dele?' Quando cheguei em casa uma vez e a van tinha ido embora, eu não percebi que nunca tinha perguntado quem ela era e o que havia acontecido com ela", conta ele."Todos tinham uma versão diferente dela. Mas ela era magnificamente ingrata. Não achava que as pessoas haviam lhe feito um favor. Mas aquele bairro era o epicentro de liberais esquerdistas, pessoas cheias de consciência, com mais dinheiro do que achavam que mereciam. Ela não teria conseguido ter se dado tão bem se tivesse ido para outro lugar. Uma coisa que todos concordavam era o cheiro dela", termina, aos risos. 

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