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MG Production
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'The Crying Steep' revive a dor da devastadora fome provocada no Casaquistão pelos bolcheviques

Longa 'The Crying Steep' espera o Oscar de melhor filme estrangeiro

Redação, EFE

01 de fevereiro de 2021 | 10h28

O cinema do Casaquistão sonha em ganhar um Oscar com o drama histórico The Crying Steppe, que revive a dor da devastadora fome provocada no país pelos bolcheviques há um século.

O aumento de 10 para 15 no número de semifinalistas que concorrem neste ano ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deu nova esperança aos idealizadores da produção, que conta uma parte da história do Casaquistão que vem sendo silenciada há anos.

"Tornará possível mostrar a verdadeira história do povo casaque ao mundo inteiro", disse o produtor do longa, Ernar Malikov, à Agência Efe.

"O tema do filme foi censurado por muito tempo em nosso país desde a época da União Soviética", acrescentou.

O filme mostra a "sovietização" da então jovem República Soviética do Casaquistão nos anos 20 e 30, quando foram impostas políticas bolcheviques para derrubar as tradições nômades do povo casaque e forçá-lo a "coletivizá-las" em kolkhozes.

O resultado foi a aniquilação virtual dos nômades casaques devido a uma fome que reduziu a população nativa a menos da metade, à repressão stalinista e à migração massiva para o exterior.

"Apesar de terem se passado 100 anos desde o início da grande fome, gerações de casaques após a tragédia ainda abrigam em seu subconsciente o medo da aniquilação física", disse a diretora e roteirista Marina Kunarova à Efe.

De acordo com a cineasta, as maiores provações que um ser humano pode experimentar são "a fome e a sede".

"É uma morte lenta. As pessoas estavam em condições extremas, tinham que sobreviver de qualquer forma, se humilhar e escolher, esquecendo o espírito livre e corajoso dos nômades", disse.

Em uma das cenas do filme, vários aldeões se alimentam de carne humana, e um menino pequeno diz ao pai: "não conseguiria comê-lo".

Kunarova contou quanta dor lhe causava mergulhar nos acontecimentos narrados no filme e entender que os soviéticos "procuraram fazer meu povo esquecer sua língua, sua identidade nacional única".

"Viemos para construir o comunismo e o faremos aconteça o que acontecer", grita um comissário soviético no filme, enquanto soldados do Exército Vermelho massacram os nômades, manchando de sangue a neve sobre a vasta estepe casaque.

O processo de realização do filme foi árduo: mais de cinco anos se passaram entre a pesquisa de arquivos e a filmagem.

"Ao estudar os arquivos e conversar com as poucas testemunhas da grande fome, percebemos que era nosso dever profissional e civil fazer tal filme para nossos ancestrais e para as futuras gerações de casaques, que precisam conhecer essas tristes passagens da história", explicou o produtor Ernar Malikov.

Um dos principais nomes da tragédia é bolchevique Filipp Goloschokin, conhecido por ser um dos organizadores das execuções do último czar russo, Nicolas II, e de sua família em 1918.

Goloschokin, que é retratado no filme, foi responsável pela implementação das políticas dos soviéticos para o Casaquistão a partir de meados da década de 1920.

Essas políticas autoritárias também dizimaram outros povos do antigo império russo, como o ucraniano, o tártaro, o bashkir e o russo, lembrou Malikov.

Segundo estimativas, mais de 1,5 milhão de casaques morreram durante as duas grandes fomes de 1919-1922 e 1929-1932, embora alguns historiadores acreditem que entre 2 milhões e 2,3 milhões de pessoas tenham morrido.

Outros milhões foram forçados a emigrar para Rússia, China, Afeganistão e Irã. No final, a população casaque se tornou uma minoria étnica em seu próprio país. 

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