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'The Boys in the Band' usa linguagem amarga e ofensiva para retratar o preconceito

Versão da Netflix para a peça de Mart Crowley oferece a reconstituição das lutas iniciais da comunidade gay

John Carucci ASSOCIATED PRESS / NOVA YORK , O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2020 | 05h00

A nova versão cinematográfica da Netflix da influente peça de Mart Crowley, The Boys in the Band, de 1968, oferece a um público especial a reconstituição das lutas iniciais da comunidade gay e sua linguagem amarga e ofensiva da época. 

Embora alguns daqueles insultos gays e raciais fossem difíceis de pronunciar, Jim Parsons e o elenco acreditam que era necessário usar termos a fim de honrar o diálogo de Crowley e fazer com que o público sinta o mal-estar experimentado pela marginalização da comunidade gay naquela época.

A história acompanha um grupo de homens um ano antes dos históricos tumultos de Stonewall no bairro nova-iorquino de Greenwich Village, que consolidaram o movimento de libertação gay. Parsons, cujo personagem, Michael, utiliza boa parte dos insultos raciais, gays e antissemitas, admite que não se sentiu à vontade. “É feio. Eu mesmo jamais pronunciei algumas daquelas palavras sem uma profunda preocupação e uma sensação de náusea no estômago que a acompanha”, disse Parsons.

Embora desconfortável, Parsons se convenceu de que era mais importante adotá-la do que ignorá-la. “A parte triste, acho, é que por causa do que estamos falando, o objetivo é exatamente este. E a gente precisa chegar lá para compreender como pôde acontecer um momento como aquele e onde – por que este personagem decide falar dessa maneira e perceber o incômodo que provoca”, afirmou.

O diretor Joe Mantello, que também dirigiu a peça, concorda que preservar a linguagem ofensiva ajuda a compreender a história e a condição dos personagens. “Não acredito que apagar as coisas que nos fizeram sentir mal-estar seja um progresso”, acrescentou. A linguagem ofensiva não foi mantida para causar sofrimento. 

O diretor acredita que existe a responsabilidade de refletir sobre a história original e o tempo em que ocorreu. “Minha responsabilidade é com a história. E a história mostra: como este é o custo da opressão, ele nos permite agir de uma maneira impiedosa”, afirma.

Matt Bomer, que faz o papel do amigo de Michael, Donald, diz que ficou muito chocado durante os ensaios quando as palavras foram pronunciadas, mas o peso delas foi perfeito quando ele entrou no palco. “Ouvi um ruído gutural na primeira vez em que um destes insultos foi usado, e então lembrei e me dei conta de como estas palavras são poderosas. Acho que serviu para nos lembrar sempre que o fizermos viver. O público nos lembrou de como estas palavras eram e são poderosas.”

No papel de Bernard, único negro integrante do grupo, Michael Benjamin Washington acredita que a linguagem, embora muito forte, é necessária para ser fiel e autêntica. Se uma peça é ambientada em 1968 e você é um personagem preto e as pessoas fazem de conta de que não é preto, ela não está dizendo a verdade. Como se eu escrevesse uma peça sobre 2020, e não introduzisse o movimento Vidas Negras Importam”, ele disse. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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