Tetralogia do alemão Fassbinder agora em DVD

A história da Alemanha, da ascensão do nazismo ao cinismo da era Adenauer, contada por meio da tragédia pessoal de quatro mulheres. Essa é a proposta da tetralogia em DVD do diretor Rainer Werner Fassbinder (1946-1982) que a Versátil Home Video coloca nas lojas a partir deste mês. Num pacote de quatro filmes, a distribuidora reuniu algumas das mais conhecidas obras do cineasta, restauradas e remasterizadas pela fundação que leva seu nome em Munique: Lili Marlene (em abril), O Desespero de Veronika Voss (em maio), Martha (em junho) e Lola (em julho). Para completar o quadro faltou o indispensável O Casamento de Maria Braun, cujos direitos ainda estão em negociação.Embora concebidos como obras autônomas, esses filmes acabaram formando um painel do trauma alemão provocado pelo nazismo. Fassbinder é da primeira geração do pós-guerra. Nasceu em 1946 e viveu 37 anos. Fez 41 filmes em 16 anos de carreira, a maioria um acerto de contas com o passado de seu país. Sua obra-prima é o épico Berlin Alexanderplatz (15 horas de duração), que a Fundação Fassbinder recupera para relançar no próximo Festival de Cannes.A tetralogia oferece uma análise acurada do panorama social da Alemanha por intermédio de parábolas políticas em que Fassbinder troca líderes por mulheres que representam, de uma maneira ou de outra, a natureza de um país marcado pela tragédia. Assim, Lili Marlene seria a representante da alienada burguesia alemã que levou Hitler ao poder , servindo ao nazismo sem questionar seus métodos. Lili Marlene, composta em 1938 por Norbert Schultze, foi uma canção muito popular na época da guerra e, apesar de detestada pela alta cúpula hitlerista (Goebbels, em particular), foi adotada pelo Terceiro Reich para estimular os soldados nos campos de batalha, que a ouviam todos os dias, pontualmente às 21h55, como um hino nostálgico.Fassbinder não tem interesse especial no paralelo histórico entre a tragédia social alemã e a tragédia privada de Willie (Hanna Schygulla), cantora de cabaré que se apaixona por um músico judeu e membro da Resistência. Como as outras heroínas da tetralogia, ela está condenada - pelo regime, que a usou como arma, e, paradoxalmente, pelo amor que perseguiu loucamente. Fassbinder relaciona fascismo à mútua dependência. Para ele, essa forma autoritária de governo só tem fim quando nasce o indivíduo e morre o alienado induzido à cegueira pela tirania (pessoal e estatal).Lola, que conta a história de uma outra cantora de cabaré (Barbara Sukowa), poderia perfeitamente ser uma seqüência para concluir essa parábola. Aqui, trata-se da perda da inocência de um "anjo azul", disposto a encontrar seu lugar numa Alemanha sucateada e entregue à obsessão de um milagre econômico. Terminada a guerra, a reconstrução do país exigiu concessões humilhantes. Lola, a cantora-prostituta envolvida com um anarquista, é obrigada a escolher entre o amor e o dinheiro. Vence o último, ao entrar no circuito um corrupto construtor (Mario Adorf).Apesar das referências a Sternberg, Lola mergulha mesmo no universo do melodrama americano, colorindo o vampirismo emocional da cantora com cores primárias de desenho animado, ironia que ele poupa a uma outra figura feminina perdida no círculo do vício e da exploração da sociedade alemã do pós-guerra. O Desespero de Veronika Voss é livremente inspirado na história da atriz alemã Sybille Schmitz e o mais fortemente calcado no modelo melodramático de Douglas Sirk, o cineasta alemão que fez muito sucesso em Hollywood com filmes como Palavras ao Vento e Imitação da Vida.Veronika Voss acabou sendo um macabra autobiografia (é a última aparição de Fassbinder como ator, antes de ser encontrado morto em seu apartamento por overdose, exatamente como a personagem do filme). Seu grande tema é a dor da memória do cinema - e, como observou um crítico italiano, do cinema como instrumento de memória. O filme começa com Veronika assistindo a um antigo filme dos anos 1940, quando era uma grande atriz da UFA, e termina com a mesma nas garras de uma perversa psiquiatra que explora sua dependência de morfina. Veronika (Rosel Zech) está condenada à autodestruição, como tantos outros personagens fassbinderianos.Martha, um filme mais antigo, pretende ser a crítica definitiva ao patriarca ariano, representado no filme por um déspota e sádico burguês que se casa com a bibliotecária que dá título ao filme (Margit Christensen). É um casamento fadado ao fiasco. Num país que queimou livros (e gente) durante o nazismo, essa união quase incestuosa só pode terminar em tragédia. E termina mesmo.

Agencia Estado,

23 de abril de 2006 | 17h45

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