REUTERS/Nacho Doce/File Photo
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Terry Jones e Monty Phyton são exemplo de como a cultura e o humor podem se dar as mãos

Especial de Natal do Porta dos Fundos parece ter grande inspiração em 'A Vida de Brian', também à sua época considerado sacrílego

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2020 | 15h07

Não deixa de ser uma coincidência a morte de Terry Jones, do grupo Monty Python, no exato momento em que a polêmica com A Primeira Tentação de Cristo, do grupo Porta dos Fundos, ainda polariza liberais e conservadores no Brasil.

A comédia do grupo brasileiro parece inspirada diretamente no filme mais famoso de Jones, A Vida de Brian, de 1979, também à sua época considerado sacrílego. Tanto A Vida de Brian como A Primeira Tentação de Cristo estão disponíveis na Netflix. 

Terry Jones, integrante e fundador do grupo cômico britânico Monty Python, morreu aos 77 anos de uma forma rara de demência, segundo divulgaram seus familiares. Foi um talento notável, alma do irreverente grupo cômico, e seguiu carreira solo quando o Monty Python se dissolveu. 

Em seu filme mais famoso como diretor, Brian (Graham Chapman) é uma espécie de êmulo de Jesus Cristo e segue uma carreira paralela e com muitos pontos em comum ao messias. Em tom de sátira, Brian profere discursos insensatos e, para sua surpresa, arrebanha uma multidão fanática que o segue por toda parte. O paralelo cômico com várias situações bíblicas fez com que o filme fosse considerado “blasfemo” por muitos fieis. É apenas uma sátira à religião e aos alienados que seguem, sem refletir, a pregação de novos profetas. O filme é divertidíssimo. 

Enquadra-se no “projeto” anárquico do Monty Python, segundo o qual não existe nada de tão sagrado que não possa ser desconstruído e ironizado. Religião, cultura, saber, o poder, heróis da História - tudo pode ser tratado com humor e mesmo com sarcasmo. Trata-se de um exercício de liberdade, difícil de entender por mentalidades autoritárias. O riso é subversivo e o humor, ou é livre ou simplesmente não existe. Nada é sagrado; apenas a liberdade o é. 

Mas não se deve lembrar de Jones apenas por A Vida de Brian. Dirigiu também outros filmes do grupo, Monty Python e o Cálice Sagrado (1975) e O Sentido da Vida (1983). Nos programas do Monty Python, Jones  interpretava tipos diversos, os mais famosos sendo mulheres de meia idade, em esquetes cômicos escritos por ele em parceria com Michael Palin.

Dando provas de versatilidade, em sua fase pós-Monty Python Jones tornou-se aclamado autor de livros infantis. Mas não apenas. Historiador de formação, escreveu livros sobre História, com foco na Idade Média. Realizou documentários para a BBC sobre o período medieval, pelo qual era fascinado. Escrevia artigos para jornais como The Guardian e The Observer. 

Era exemplo de como a cultura e o humor podem se dar as mãos. 

 

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