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Terror chic antecipa exposição de David Bowie

Volta, após 30 anos, Fome de Viver, no qual o astro e as cenas de sexo de Deneuve e Sarandon deram o que falar

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2014 | 02h10

Na série de reedições de obras cultuadas, Fome de Viver, de Tony Scott, chega ao circuito na trilha aberta por Um Corpo Que Cai (Vertigo), de Alfred Hitchcock. Não são filmes da mesma grandeza - Vertigo foi escolhido, numa pesquisa em 2012, como o melhor de todos os tempos, desbancando clássicos que, há décadas, vinham se revezando no posto, como O Encouraçado Potemkin, de Sergei M. Eisenstein, e Cidadão Kane, de Orson Welles. Mas Fome de Viver, The Hunger, virou objeto de culto há 31 anos - a produção é de 1983 - por uma conjunção de fatores.

Marcava a estreia de Tony Scott na direção, e o irmão de Ridley também viera da publicidade. Antes mesmo de chegar aos cinemas, criou-se a aura do terror chic, embalado em belíssimas imagens. E havia mais - o elenco, com a bela da tarde Catherine Deneuve e o homem que caiu na terra, o popstar David Bowie, mais a jovem Susan Sarandon. Justamente Susan - Tony Scott pode não ter inventado, na tela, as vampiras lésbicas, mas a cena entre Deneuve e ela fez sensação.

Passado todo este tempo, a reputação de Fome de Viver tem oscilado, mas a de Tony Scott cresceu. Quando ele se matou, em agosto de 2012, até Cahiers du Cinéma, a Bíblia do cinema de autor, celebrou-o, em seu necrológio, como mestre do policial. Bastaria citar a pérola da sua parceria com Denzel Washington - Chamas da Vingança -, para confirmar como ficou bom. E, agora, nem é tanto Tony Scott nem a Deneuve que torna atraente a reprise. Fome de Viver volta restaurado, em projeção digital, a poucos dias da exposição dedicada a David Bowie, que começa semana que vem no MIS, Museu da Imagem e do Som.

Muitas vezes chamado de 'camaleão do rock' - por sua capacidade de se reinventar, mudando, inclusive, o look -, David Robert Jones, que se tornou conhecido como David Bowie, revelou extraordinária capacidade para incorporar ideias que estavam fora do mainstream - da arte, literatura, teatro e cinema. A consequência, segundo seu biógrafo, David Buckley, é que ninguém alterou tanto o pop quanto ele. Pode ser exagero de tiete, mas no cinema é a mais pura verdade. Ninguém subverteu tanto a própria imagem. David Bowie fez ficção científica (O Homem Que Caiu na Terra, de Nicolas Roeg), terror (Fome de Viver), desafinou cantando em filme de guerra que explorava sua ambivalência sexual (Furyo - Em Nome da Honra, de Nagisa Oshima), lavou as mãos como Pôncio Pilatos (A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese), encarnou Andy Warhol, de quem foi amigo (Basquiat, de Julian Schnabel), foi agente do FBI (Twin Peaks - Os Últimos Dias de Laura Palmer, de David Lynch). Fez até spaghetti western (Il Mio West, de Giovanni Veronesi).

Em Fome de Viver, ele faz vampiro amante de Deneuve há séculos. Seu corpo está se deteriorando e ela se aproxima de cientista (Susan), para tentar salvá-lo. Eventualmente, Susan e Deneuve tornam-se companheiras e Bowie vai para um ataúde no sótão, com os outros ex-amantes da insaciável vampira. Tudo muito, muito chic - até demais. A fama do filme vem daí. O desafio é a cena final, quando Bowie e todos os ex de Deneuve... Veja, mas saiba. Na época, o público mais ria que se assustava com o desfecho. Por via das dúvidas, Tony Scott nunca mais voltou ao terror.

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