Terra Fria traz Charlize Theron novamente feia

Logo no início de Terra Fria, Josey Aimes volta para a casa dos pais após brigar com o marido. Com dois filhos a tiracolo e a caçamba da caminhonete cheia de bagagem, Josey é recebida com resignação pela mãe e total desconfiança pelo pai. "Ele te pegou com outro homem?", ouve do pai, que examina as marcas roxas em volta do olho e da boca da filha. "Por isso, bateu em você?" Surpresa com o questionamento seco e direto, ela desfaz o meio sorriso que tentava sustentar. "Você tem de me fazer esse tipo de pergunta?" Essa seqüência diz muito a respeito do segundo filme de Nick Caro (Encantadora de Baleias). Estamos nos anos 1980, em uma cidadezinha do Minnesota que vive e respira em função de uma empresa mineradora de ferro. Uma sociedade pequena, provinciana e machista. Uma mulher solteira, com dois filhos e contas a pagar tem duas soluções. Conseguir um emprego como cabeleireira no salão local ou encontrar rapidamente um marido. Josey escolhe a primeira opção, mas o que ganha não dá para pagar as contas. Então, decide procurar trabalho na mina, apesar da resistência dos colegas operários, que vêem a contratação das mulheres como absurdo e ameaça. Interpretada por Charlize Theron, Josey foi livremente inspirada em Lois Jensen, principal reclamante da primeira ação coletiva por assédio sexual nos EUA, movida em 1984 e encerrada com acordo em 1995. Pelo papel, a ex-modelo e atriz sul-africana recebeu outra indicação para o Oscar de melhor atriz. Com uma estatueta na estante pela atuação em Monster - Desejo Assassino (2004), Charlize tem poucas chances (e estatura, até) de se tornar uma nova Meryl Streep. Se receber o Oscar por Terra Fria, ela será reconhecida no futuro por uma interpretação equivocada, enquanto a atuação mais feliz de sua carreira, em Monster, poderá ficar relegada ao limbo. Atriz poderosaUma das atrizes mais poderosas de Hollywood, Charlize pode transformar um projeto. Quando ficou sabendo que Nick Caro estava cotada para dirigir Terra Fria, leu o roteiro e esperou até que o nome da diretora neozelandesa fosse confirmado. "Quando assisti a Encantadora de Baleias, fiquei fascinada e soube naquele momento que queria trabalhar com ela", contou a atriz em entrevista por telefone ao Estado, dos escritórios da Warner em Los Angeles. "Eles me mandaram o roteiro que havia sido oferecido a ela alguns meses antes. Quando li, fiquei chocada ao saber como tudo aquilo tudo era recente. É o tipo de assunto que me interessa, mas que pode virar algo muito simplório se não for bem conduzido. Por isso, só aceitei quando tive a segurança de que seria ela no comando." Nick Caro tem uma queda por histórias sentimentais e sabe como tirar delas o ranço sentimentalóide. Como em Terra Fria. Ela levanta questões que transcendem o drama pessoal e falam para todos que buscam esses mesmos objetivos. Charlize soube identificar essa qualidade na cineasta e a química entre ambas se materializou muito bem na tela. "Foi uma relação muito boa", relembra a atriz. "Desde a primeira conversa, nos entendemos bem. E, no set, ela sabia manter um clima muito tranqüilo, apesar de todas as adversidades - o frio extremo, por exemplo. Isso porque sabia o que queria e como comunicar essas coisas para o elenco e a equipe." Em certo sentido, personagens como Aileen Wuornos, Josey Aimes e outros da carreira de Charlize têm algo em comum. A princípio, ela rejeita a tese, dizendo que são completamente diferentes. Mas, com um pouco de insistência, ela encontrou um ponto em comum. "Se é que têm alguma coisa a ver uma com a outra, são duas pessoas que tentavam, cada uma à sua maneira, continuar de pé, lutando para sobreviver", disse ela, um pouco contrariada. "Mas, sinceramente, acho que são histórias de vida completamente diferentes." Terra Fria (North Country, USA/2005, 126 min.). Drama. Dir. Niki Caro. 14 anos. Em grande circuito. Cotação: Regular

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