"Terra dos Sonhos", de Jim Sheridan, estréia em SP

Quem conhece os filmes de Jim Sheridan, O Pé Esquerdo e Em Nome do Pai, sabe da leve vocação melodramática do diretor irlandês. São bonitos, tratados na chave da emoção, e evitam derrapagens maiores justamente porque se baseiam em dramaturgia sólida. É também essa a característica de Terra dos Sonhos, em cartaz em São Paulo. O título original é mais seco, In America, e recupera um relato com traços autobiográficos. A cena inicial se passa na fronteira, um automóvel com marido e mulher, mais duas crianças, cruzando o limite entre Canadá e Estados Unidos. O policial pergunta quantos filhos o casal tem. Johnny (Paddy Considine) responde que são três. A mãe, Sarah (Samantha Morton) corrige. São apenas duas. O ato falho de Johnny se justifica: há entre eles a sombra de uma criança morta. E onde há criança morta há culpa, motivada ou não. De modo que essa família se muda para outro país, em busca de vida melhor, e carrega consigo um trauma. A Nova York registrada por Sheridan está de acordo com esse estado de espírito e fica distante do cartão-postal. Vão morar num prédio caindo aos pedaços, frio no inverno, escaldante no verão. O elevador não funciona, as escadas rangem sob os pés, a vizinhança é mais do que suspeita. Mas lá eles também conhecem um artista, Mateo (Djimon Hounsou), excêntrico, ameaçador, mas que fará amizade com as crianças e, sobretudo, fará enorme diferença para a família. Seria um tanto abusivo dizer que esse filme cheio de boas intenções significa apenas uma rendição ao politicamente correto. Claro, há também disso nele, um, digamos, apelo à tolerância, à boa convivência entre desiguais, etc. Algum mal nessas atitudes? Sheridan propõe uma espécie de fábula, na qual o tema da segunda chance se oferece a seres aparentemente derrotados como Johnny, ou atormentados, como Sarah. Se há traços melodramáticos (sobretudo no uso da música) que poderiam ser evitados, não se pode negar a impressão de sinceridade que fica do filme. Sheridan não é exatamente um diretor minimalista e portanto não economiza certas ênfases, o que pode desagradar aos mais exigentes quanto à estética cinematográfica. Mas esse bonito filme possui uma honestidade básica, que supera e passa por cima de certos escorregões maneiristas. É madeira de lei, mal talhada às vezes.

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