Tempo Glauber pode virar centro cultural

Na Rua Sorocaba, há dois belos casarões separados por um muro baixo. De um vê-se tudo que se passa no quintal e jardim do outro. O de número 190 abriga o Tempo Glauber. O outro, o Museu Villa-Lobos.O museu do autor das Bachianas Brasileiras chegou primeiro. O Tempo Glauber, por uma destas coincidências do destino, foi encostar-se ali na vizinhança. "O Waldir Pires" -- relembra Lúcia Rocha -- "quando ministro da Previdência, nos cedeu a casa". Pois não é que a memória de Glauber (guardada em 50 mil documentos: livros, filmes, discos, cartazes, poemas, cartas, fotos, roteiros, desenhos, etc) foi parar do lado de Villa-Lobos. Villa, nunca é demais lembrar, era uma das obsessões artísticas do cineasta. A Bachiana no. 5 embalou Deus e o Diabo. Também em Terra em Transe, os sons villalobianos ecoam em toda a sua grandeza.Arnaldo Carrilho, presidente da Riofilme, empresa da Prefeitura do Rio de Janeiro, anuncia o desejo de integrar os dois museus, transformando-os num conjunto cultural. "Cada um preservará sua autonomia. O Tempo Glauber será a base de um templo do Cinema Novo. Lá o visitante encontrará tudo sobre o movimento que teve em Glauber seu nome mais relevante".Enquanto os "novos tempos" não chegam, Lúcia Rocha conversa amenidades com o violonista Turíbio Santos, diretor do Museu Villa-Lobos, da varanda do Tempo Glauber. E recebe, do mundo inteiro, cartazes, livros, fotos, cartas e pedidos de informação sobre Glauber. A matriarca do clã Andrade Rocha é, ela mesma, uma rocha. No coração de 83 anos há várias pontes de safena. Perdeu a filha Ana Marcelina, ainda menina. Depois, morreu a atriz Anecy Rocha (1942-1977) e o patriarca, Seu Adamastor (em 1980). Nem tinha se recuperado, quando foi ao Rio enterrar o filho, de apenas 42 anos (em agosto de 1981).Hoje, Lúcia convive com netos e bisnetos. A mais presente é Paloma Rocha, diretora-assistente da série Os Normais, da Rede Globo, filha de Glauber e de Helena Ignês, A Mulher de Todos. Os netos de Lúcia são Pedro Paulo, de 24 anos (filho de Cuca Braga), Erik Aruak, 24, e Ava Pátria, 22 (filhos de Paula Gáitan). Glauber criou o jovem cineasta Daniel Rocha como filho. "Mas" -- esclarece Lúcia - "exame de DNA provou que ele é filho de Rogério Duarte". O tropicalista Rogério é autor do magnífico cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol, reeditado recentemente pelo Instituto Takano.Lúcia está entusiasmada com o projeto de Neville D´Almeida. Ela, que foi a personagem central do curta A Mãe (Fernando Beléns/ José Umbelino/Bahia/1999), explica que o projeto de Neville é totalmente diferente. "Agora, em Meu Filho Glauber, vou relembrar a trajetória de meu filho, e mostrar como funciona o Tempo Glauber, com seus 50 mil documentos e objetos. Aqui estão a máquina de escrever do Glauber, as medalhas que ele ganhou mundo afora, os desenhos que ele rabiscava, amassava, jogava fora, eu recolhia e passava a ferro. Aqui estão poemas, roteiros e cartas que Glauber me mandou de Cuba, dos EUA e da Europa, pois ele tinha plena confiança em mim. Sabia que eu guardaria cada papel com zelo único".Lúcia ainda não viu A Rocha que Voa, do neto Erik Aruak. De saída, acha o título "meio esquisito". Não recebeu, também, exemplar do romance italiano que tem o filho como personagem. Está curiosa. O filme de Sílvio Tendler ela não quer assistir. "Não sei se agüento ver meu filho morto. Não agüento", assegura.João Rocha, que Lúcia tem na conta de neto, é seu braço direito no Tempo Glauber. Ele é filho de Ana Lúcia, sua "filha adotiva". As duas são grandes amigas e moram juntas no Rio. Mas, na verdade, Ana é fruto de caso extraconjugal do Senhor Adamastor. Lúcia aceitou a menina em sua casa e criou-a como se sua fosse.O "neto" João cuidou, nos últimos meses, da criação do Café Barravento, que atenderá aos visitantes do Tempo Glauber. Cuidou, também, da preparação das matrizes do livro Revisión Critica del Cine Brasileño e Riverão Sussuarana. Em breve, os dois sairão em CD-ROM.A edição original (em português) de Revisão Crítica do Cinema Brasileiro saiu pela Civilização Brasileira, em 1963. Hoje, o livro é uma raridade. Em O Cinema Brasileiro Moderno, Ismail Xavier lembra que "Glauber, em Revisão Crítica, faz uma avaliação do passado para legitimar o Cinema Novo no presente, esclarecer seus princípios". Como acontece "com os líderes de rupturas, ele age como um inventor de tradições. O novo movimento teria seus antecedentes, responde a uma história. Há Humberto Mauro, à distância, com seu cinema de poucos recursos feito em Cataguazes, nos anos 20; há Nelson Pereira dos Santos, que inicia, nos anos 50, o cinema moderno no Brasil".No acervo do Tempo Glauber exemplar amarelado de Revisión Critica del Cine Brasileño (em papel jornal, editado em Cuba, pelo ICAIC -- Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica) desafia a fúria do tempo. O volume foi enviado ao memorial glauberiano por Alfredo Guevara, amigo do cineasta desde o começo dos anos 60, quando trocaram farta correspondência, planos e idéias."Vamos salvar o livro em CD-ROM" -- promete João Rocha - "antes que ele seja destruído pelo tempo". As matrizes foram feitas gratuitamente pelo Instituto Takano.O disco com a trilha de Deus e o Diabo na Terra do Sol, que soma parcerias de Glauber (letra) e Sérgio Ricardo (música), também esgotadíssimo, será lançado em CD pela gravadora Universal (proprietária do acervo da extinta Forma). Finalmente as novas gerações poderão ouvir, os mobilizadores versos O Sertão Vai Virar Mar (Tá contada a minha história/Verdade-imaginação/ Espero que o senhor/Tenha tirado uma lição/ que assim mal dividido/ Esse mundo anda errado/ Que a terra é do homem/ Não é de Deus nem do diabo").Ou então, os famosos versos de Perseguição: "-- Se entrega Corisco/-- Eu não me entrego, não!/ Eu não sou passarinho/ pra viver lá na prisão/ -- Se entrega Corisco!/ Eu não me entrego, não!/ Não me entrego ao tenente/ não me entrego ao capitão/ Eu me entrego só na morte/ de parabelo na mão".

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