JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Tema de documentário, Vera Holtz não nega a origem

'As Quatro Irmãs' é um documentário de Evaldo Mocarzel

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

16 Outubro 2018 | 06h00

Para uma celebridade, que vive da imagem, Vera Holtz é muito ciosa da sua privacidade. Não gosta de dar entrevistas, muito menos de abrir sua casa para jornalistas – mas abre uma exceção para o Estado. Só pede ao fotógrafo que não mostre muito de sua casa. A entrevista é feita à tarde, no apartamento de Vera na região dos Jardins. Piso de epóxi, paredes revestidas de material bruto, parecendo concreto. Móveis de design arrojado. O arquiteto responsável pela reforma, Renato Santoro, acompanha a entrevista. Além de amigo, ele é um dos responsáveis pelo estouro da atriz no Instagram. Vera criou uma persona através de fotos que, de alguma forma, e prescindindo de texto, comentam temas atuais, do Brasil e do mundo.

Já tem mais de um milhão de seguidores, gente que não perde – e curte – essa outra persona da atriz. Embora seja um megassucesso nas redes sociais, Vera brinca – “Não sou muito boa nessa coisa de tecnologia. Sou incapaz de dar enter, para subir essas fotos. Felizmente tenho o Renato para me fotografar, o Evaldo para fazer o título. A coisa toda é muito profissa”, ri. Profissionalíssima. ‘Evaldo’ é o cineasta Evaldo Mocarzel, que dirige o documentário As Quatro Irmãs, que será atração na Mostra de Cinema de São Paulo – que abre nesta quarta, 17, para convidados, e na quinta para o público. Na sequência, As Quatro Irmãs entra em cartaz nos cinemas. E tem a televisão. Vera permanece no ar com a reprise da novela Belíssima, no Vale a Pena Ver de Novo.

Até há pouco podia ser vista também em Orgulho e Paixão, novela de Marcos Bernstein livremente adaptada da escritora Jane Austen. A novela também causou nas redes sociais, principalmente nos últimos capítulos, quando o par gay formado por Pedro Henrique Müller e Juliano Laham assumiu seu romance.

Você deve lembrar-se da polêmica que foi o beijo gay de Félix na novela Amor à Vida. Pode ter sido pelo horário – a faixa das 9. Mas a polêmica poderia ter sido muito maior, porque Orgulho e Paixão era a novela das 6. As crianças estavam voltando da escola, ou fazendo o dever de casa. Nenhum escândalo. “O Marcos (Bernstein) fez um trabalho lindo, muito bem escrito. E os meninos eram muito fofos. O carinho dos personagens era tão genuíno que cativou a audiência.” Vera só tem elogios para os atores. “Essa geração é muito bacana. Estamos vivendo esse risco de retrocesso, num mundo cada vez mais retrógrado em termos de costumes. Sei que tem gente que reage mal, mas nesse caso houve aceitação. Os meninos eram tão do bem, se apoiavam tanto que dava gosto ver as cenas.”

É uma pena que o papel não consiga reproduzir o sotaque caipira de Vera Holtz. Nascida em Tatuí, interior de São Paulo, em 7 de agosto de 1953 – tem 65 anos, portanto –, Vera alterna-se entre residências em São Paulo e no Rio (“Tenho meu apartamentinho lá”), entre TV, teatro e cinema (e agora as redes sociais). É uma mulher do mundo, mas o sotaque ela não perde. No caso de Orgulho e Paixão, a personagem era caipira, do Vale do Café. Mas se engana quem pensa que ela tirava de letra e era fácil fazer. “É difícil falar caipira. Posso falar assim, aqui com você, mas na hora de representar vira trabalho de composição. O Marcos (Bernstein) me estimulava a falar caipirês e, quando recebia as cenas, eu lia aquilo e pensava. Minha família é enorme. Somos 53 primos e sobrinhos. ‘Vou fazer essa cena imitando o primo tal, ou a prima, ou o tio, a tia.’ Dessa maneira virava composição, e era gostoso, mas também trabalhoso de fazer.”

O sotaque caipira identifica Vera Holtz como o cabelo branco – descolorido. Na novela, a personagem usava uns cachos, para caracterizar a época. Ela dá uma risada gostosa quando o repórter diz que achava graça – irada, a personagem sacudia os cachos – as tranças? Isso ocorria porque não era fácil ser mãe de todas aquelas garotas de comportamento avançado para a época. “O Marcos conseguiu o prodígio de fazer uma novela que era avançada para o horário sem agredir ninguém.

Virgindade, naquela época, e nem é preciso recuar tanto, era tabu, mas minhas filhas todas dormiam com os namorados antes do casamento.” Vera lembra a mãe. “Ela podia ter uma cabeça aberta para outras coisas, mas achava que as mulheres tinham de ser recatadas para impor distância. Dizia que a gente não devia se expor para não ser desrespeitada.”

O que mamãe pensaria de sua empresária em Belíssima, que tem aquele affair com o jovem michê interpretado por Cauã Reymond? “Ah, menino, não sei, mas a transgressão é própria da arte. Briguei muito com meu pai porque ele também era de impor limites ao comportamento das filhas. E não era retrógrado, não. Meu pai estava até adiante de sua época. Estimulava a gente, minhas irmãs e eu, a ter uma carreira. Dizia que devíamos ser autossuficientes e não depender de ninguém.” As irmãs Holtz. Eram quatro quando Evaldo Mocarzel fez seu filme – uma morreu. Há algo de Tchekhov nessas quatro irmãs cujas memórias ligam-se à da centenária casa da família, em Tatuí. Vera faz uma confissão. “Quando resolvi comprar meu apartamento em São Paulo, queria na Rua Tatuí, porque tem uma. Mas aí encontrei esse apartamento e fiquei com ele. Tatuí eu carrego na lembrança, e no coração.”

 

Entrevista 'Nosso filme é um afresco sobre o tempo da delicadeza', diz Evaldo Mocarzel

Evaldo Mocarzel já tinha alguns documentários no currículo, mas o grande divisor de águas de sua carreira é Do Luto à Luta, de 2005. Ele fala das influências sobre As Quatro Irmãs.

O título, obviamente, tem algo de Tchekhov, mas o que a gente vai encontrar de influência em As Quatro Irmãs?

Fiz doutorado na USP e durante o curso discutia muito um conceito com meu orientador e professores – a performatividade, que extrapola a questão das técnicas de interpretação. Uma influência muito forte foi (Ingmar) Bergman, Persona, a relação da atriz com a enfermeira, seu isolamento e a recuperação. Vera (Holtz) sofre de lapsos de memória quando tenta se lembrar da própria vida. Mas eu pensei em outro filme dos anos 1950 – Mônica e o Desejo, que fascinou Godard e Truffaut, ainda no tempo deles como críticos. Há uma cena emblemática em que Harriet Andersson olha para a câmera e fica encarando o espectador, e Bergman, que a dirigia. Minha ideia foi fazer com que Vera encarasse o buraco negro da câmera para superar o impasse e resgatar as próprias lembranças por meio da interatividade com as irmãs.

É, portanto, um filme de resgate da memória...

É isso e algo mais. Porque as irmãs, e a Vera, resgatam a memória transitando por esse casarão da família em Tatuí, que vai fazer 100 anos. Participas do processo fazzer pratos da família Fraletti Holtz, como o bacalhau do ‘pai Pedro’. A Vera, como atriz, como a truqueira que é, é ela mas também o pai, a mãe. Ela transita pela lembrança recriando seus afetos. E uma coisa que me parece essencial. O filme retrata uma época em que havia muito inocência e carinho entre as pessoas. Eu brincava com a Vera dizendo que a gente estava construindo um afresco civilizacional do tempo da delicadeza.

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