Tema de "Cold Mountain" é o amor que constrói

Cold Mountain é o filme mais caroproduzido pela Miramax. Inicialmente, deveria ser co-produzidopela empresa dos irmãos Weinstein, mas quase no início dafilmagem, faltando uma semana para o primeiro take, a Metroanunciou que estava caindo fora. Como a Miramax já haviainvestido uma quantia razoável, Harvey Weinstein resolveu seguirem frente e arcar sozinho com os US$ 80 milhões da produção.Anthony Minghella conta esses detalhes numa suíte do Hotel FourSeasons, aqui em Berlim, onde Cold Mountain abriu o 54.ºfestival na última quinta-feira e deve estrear no Brasil nasexta-feira. Minghella lembra que está acostumado a apagar incêndiose a administrar problemas de produção, mas jura: "Só para variar gostaria de fazer meu próximo filme sem me preocupar com ascontas." Ele ainda não sabe qual será esse novo projeto. Temdois ou três engatilhados, mas ainda não conseguiu se distanciarda adaptação do romance de Charles Frazier. Cold Mountain é amenina de seus olhos. Quando leu o romance, cujo autor foi considerado uma dasnovas vozes mais importantes da literatura americana, Minghellaimediatamente ficou seduzido pela forma como Frazier recriagrandes temas de Homero. "O livro narra a odisséia de um homemque quer voltar para casa e da mulher que o espera." Ele sabeque esse tema da volta para casa é fundamental no cinema deHollywood, mas não acredita estar servindo um prato requentadoao espectador. "Muita gente aqui em Berlim acha que, pelaestrutura romanesca, Cold Mountain meio que repete O PacienteInglês. Há muita coisa que parece comum: a guerra, a amorimpossível, o triângulo, que não precisa ser necessariamenteamoroso. Mas há uma diferença essencial, que eu acho que essaspessoas não perceberam: O Paciente Inglês é um filme sobre oamor que destrói, Cold Mountain trata do amor que constrói." Até certo ponto, a história de amor é epistolar. Quandoo protagonista, Inman, vai para a Guerra Civil, Ada escreve umacentena de cartas, das quais ele recebe três. Conheceram-sebrevemente. O amor é idealizado e fica intenso por meio dapalavra escrita. Isso lembra um pouco certos filmes de FrançoisTruffaut. "Sei de quem se trata, mas nunca ninguém me falou issoe eu também nunca pensei dessa maneira. Mas a palavra conscienteé uma ferramenta com a qual me agrada trabalhar." Não se senteespecialmente atraído pelas guerras, mas O Paciente Inglês,que lhe deu o Oscar, e agora Cold Mountain tratam da guerra -a 2.ª Guerra Mundial no primeiro, a Guerra Civil dos EUA, nosegundo. "A guerra não me atrai por si mesma, mas pelo que vemdepois. A guerra não pode ser considerada um momento normal nahistória do homem. Seria o caos e o caos é o quadro em que sepassa a história de Cold Mountain. Como uma sociedade lançadaao caos resolve seus problemas e como as pessoas vivem oprocesso que leva à construção da paz." A cena inicial, da batalha de Petersburg, éimpressionante. Minghella contou o tempo todo, no set, com aassessoria de Dan Troiani, um dos mais famosos especialistassobre este período traumático, durante o qual os EUA passarampor transformações que estão na base da sociedade atual. "Dannos ajudou a recriar a época com todo realismo." O preciosismodo diretor de arte Dante Ferretti chegou ao ponto de fazer teceras roupas que os soldados usam no filme em tecelagens dacomunidade amish, que ainda usam um tecido e maquinárioprimitivos. Minghella queria filmar na Carolina do Norte, onde sepassa a trama, mas a área foi descaracterizada e ele terminouachando a montanha que queria e a floresta ao redor na Romênia."Dante (Ferretti) reconstruiu tudo na Romênia, com uma precisão que seria impossível encontrarnos EUA." A mesma precisão ele admite haver encontrado, após muitaprocura, no elenco. "Nunca demorei tanto para compor o elenco deum filme. Jude Law não cessa de mesurpreender. Gostei de trabalhar com ele em O Paciente InglêsO Talentoso Ripley e acho que, aqui, ele é ainda melhor. Para Ada e Ruby, queria atrizes intensas, que pudessem interpretar os dois papéis.Nicole Kidman é a minha Ada perfeita. Ela começa o filme frágil,uma filhinha de papai, mas adquire força e maturidade na lutapela sobrevivência. Renée Zellweger tornou a dinâmica de Rubyconvincente na tela. Sem os atores certos, esse filme não iriafuncionar. Só tenho de agradecer a eles."Veja galeria de fotos da Berlinale

Agencia Estado,

10 de fevereiro de 2004 | 15h04

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