Tem de tudo, mas quem ousa aproveita melhor

Uma maratona como essa presta-se bem a quem procura consagrados, porém o que vale é garimpar títulos

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

22 de outubro de 2009 | 15h41

São mais de 400 filmes, projetados ao longo de duas semanas. Todo ano cria-se o mesmo dilema para o cinéfilo que encara a verdadeira maratona da Mostra Internacional de Cinema - o que privilegiar, entre tantos programas disponíveis? O criador do evento, Leon Cakoff, gosta de dizer que todo programa da Mostra é imperdível e seu maior orgulho é quando lhe dizem que um filme miúra, pelo qual ninguém dava nada, foi uma grande surpresa.

 

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Durante estes mais de 30 anos, a Mostra revelou grandes talentos para o público brasileiro. Seria injusto citar apenas alguns deles e a lista completa ocuparia, quem sabe?, todo o espaço do texto. Mas, só para ficar nas homenagens deste ano, vale lembrar que o grego Theo Angelopoulos ‘nasceu’ para os brasileiros por meio da Mostra. Este ano, a retrospectiva de Angelopoulos traz a São Paulo o novo filme do grande diretor, Dust of Time (Poeira do Tempo). Ele mais uma vez esculpe o tempo por meio de elaborados planos sequências, buscando inspiração nos mitos da cultura grega. Depois de Orestes (Paisagem na Neblina) e Ulisses (A Eternidade e Um Dia), Eleni, ou Helena, é agora a alma dessa viagem que o diretor do filme dentro do filme, interpretado por Willem Dafoe, realiza pela história da Grécia.

 

A ênfase desta 33ª edição talvez esteja nos novos diretores, e eles são numerosos, concorrendo ao troféu Bandeira Paulista, que se destina a autores até o segundo filme. Este ano, quase cem filmes (98) concorrem ao troféu da Mostra, que será atribuído por um júri integrado, entre outros, pelo crítico Jean-Michel Frodon e pelo cineasta Marco Bechis, de Garagem Olimpo e Terra Vermelha. Única brasileira no júri, a diretora Suzana Amaral apresenta seu novo filme, Hotel Atlântico, inspirado no livro de João Gilberto Noll.

 

Outra brasileira, Simone Spoladore, poderá ser a musa da Mostra deste ano e não apenas por seu acachapante nu frontal em Natimorto, que Paulo Machline adaptou do livro de Lourenço Mutarelli. Simone está totalmente à altura da intensidade da adaptação. Outra candidata a musa poderá ser a francesa Fanny Ardant, que foi mulher de François Truffaut, brilhou em filmes de outros diretores e agora assina o próprio filme, Cinzas e Sangue. O cinema sueco ganha direito a uma programação especial, com filmes de Hasse Ekman e Jan Troell. Os mais velhos vão se lembrar do segundo como autor do díptico Os Emigrantes e O Novo Mundo. O novo Troell, Momentos Eternos, foi indicado pela Suécia para concorrer ao Oscar, em março. É um filme delicado, que resgata o trabalho da fotógrafa Maria Larssons, contando a história dessa mulher extraordinária que viveu oprimida num casamento repressor, encontrando no visor da câmera uma forma de libertação.

 

Como é tradição, tem gente que não resiste e vai logo correndo ver os filmes de autores consagrados, aqueles que vão estrear em seguida. Nada contra. Faz parte do fascínio da Mostra. Se o filme já está aqui, por que esperar para conferir Abraços Partidos, de Pedro Almodóvar, ou A Fita Branca, de Michael Haneke? Mas existem as apostas, e não apenas aquelas dez que o Estado faz nestas páginas. Arrisque ver um filme como Fish Tank, de Andrea Arnold, sobre as mudanças na vida de uma garota inglesa quando sua mãe traz para casa o novo namorado. Ou o provocativo Morrer como Um Homem, de João Pedro Rodrigues, sobre um travesti velho. Quem ousa sempre ganha na Mostra.

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