Telecine relembra Tony Richardson

É mera coincidência, claro, mas não deixa de ser curioso que o Telecine Classic, da Net/Sky, inicie hoje uma programação dedicada ao diretor Tony Richardson, apenas alguns dias após a morte, na semana passada, de outro cineasta inglês, Karel Reisz. Ambos estiveram juntos na deflagração do free cinema, o movimento de renovação do cinema da Inglaterra, por volta de 1960, que ocupou, naquele país, o lugar da nouvelle vague na França. Richardson e Reisz, de origem checa, chegaram a co-assinar um dos filmes que assinalaram que algo de novo estava para passar-se no cinema britânico - Mamma Don´t Allow, de 1955. Só quatro anos mais tarde, com Odeio Essa Mulher, Richardson inicia verdadeiramente sua carreira no cinema. Pela mesma época, Reisz assina Tudo Começou num Sábado e, desta maneira, ambos dão ao free cinema seus impactos iniciais, embora seja necessário esperar até 1963, quando Lindsay Anderson lança a provocação de This Sporting Life (com Richard Harris), para que o movimento cumpra integralmente o ideário estabelecido no manifesto por um cinema livre (free cinema). Anderson e, antes dele, Reisz colocaram na tela a vida suburbana (a vida de uma pequena cidade do interior em This Sporting Life), personagens de operários em choque com os tabus e o conformismo, a vida cotidiana da plebe. A origem de Richardson foi um pouco diferente. Tendo começado no teatro, ele revelou no palco John Osborne e outros autores da corrente chamada dos ´angry men´. Odeio Essa Mulher (Look Back in Anger) baseia-se justamente em Osborne, que também fornece a inspiração para The Entertainer, feito a seguir. Cooptado por Hollywood, Richardson pisa em falso na sua adaptação de William Faulkner (Santuário), mas logo vem outra adaptação (de Shelagh Delaney), Um Gosto de Mel. O sucesso chega com As Aventuras de Tom Jones, adaptação do romance picaresco de Henry Fielding que ganhou o Oscar. E começa a fase errática de Richardson. Há nesse diretor uma vontade de ser agressivo e truculento que ele nem sempre, ou só raramente, conseguiu concretizar com eficácia. Richardson adapta Evelyn Waugh e faz de O Ente Querido, um marco do humor negro. Perde-se em adaptações de Jean Genet (Chamas de Verão e Mademoiselle) e Marguerite Duras (O Marinheiro de Gibraltar). Reapruma-se com A Carga da Brigada Ligeira, que denuncia o heroísmo na Guerra da Criméia, e A Forca Será Tua Recompensa, com o rolling stone Mick Jagger no papel do bandido australiano Ned Kelly. Novos tropeços (um Hamlet com Nicol Williamson, e Fronteiras da Violência, com Jack Nicholson como policial do Novo México), mais humor negro (Um Hotel Muito Louco) e, finalmente, uma despedida gloriosa, num filme muito bonito, Céu Azul, que teve percalços até o lançamento (por causa da falência da empresa produtora Orion), mas deu o Oscar a Jessica Lange. Richardson morreu de aids, em 1991. Foi casado com Vanessa Redgrave e teve com ela as filhas Natasha e Joely. A Galeria Tony Richardson começa hoje, às 22 horas, com Odeio Essa Mulher, com Richard Burton e Claire Bloom. Prossegue, sempre neste horário, com Vida de Artista (The Entertainer), com Laurence Olivier, amanhã; Um Gosto de Mel, com Rita Tushingham, na quarta; Chamas de Verão, com Jeanne Moreau, na quinta; e termina com O Marinheiro de Gibraltar, de novo com Jeanne Moreau, na sexta.

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