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Tecnologia sugere fim das legendas e das dublagens imperfeitas no cinema

Software criado por startup consegue fazer Tom Hanks falar japonês e Jack Nicholson, francês - e com naturalidade ímpar

Sabrina Gabriela, Especial para o Estadão

13 de julho de 2021 | 20h00

“Quando você ultrapassar as barreiras de 2,5 centímetros das legendas, você será apresentado a muitos outros filmes incríveis.” Foi assim que o diretor sul-coreano Bong Joon-ho encerrou seu discurso de agradecimento pela vitória do filme Parasita na categoria de melhor filme no Oscar de 2020. Mais de um ano depois, uma nova tecnologia pode inutilizar as legendas e revolucionar o cinema, aproximando os filmes estrangeiros do público conforme o desejo de Bong Joon-ho.



Trata-se de um software de inteligência artificial criado pela startup Flawless capaz de manipular os lábios e as expressões de um ator em determinada cena para fazer com que o movimento da boca combine convincentemente com a fala sendo dita em outra língua que não a original. A tecnologia é baseada em uma pesquisa realizada pelo alemão Instituto de Informática Max Planck, publicada em 2019.

Funciona assim: primeiro, capturam-se as imagens do ator em questão, com foco em suas expressões faciais e movimentos. Posteriormente, filma-se uma outra pessoa reproduzindo as mesmas falas em outra língua. Então, combinam-se as duas imagens para criar um modelo tridimensional que junta o rosto do ator com a movimentação dos lábios do dublador. O resultado é extremamente convincente.



Por meio do uso dessa tecnologia, a Flawless conseguiu, por exemplo, fazer Tom Hanks falar espanhol e japonês fluente no clássico Forrest Gump, além de permitir que Jack Nicholson e Tom Cruise conversem em francês no filme Questão de Honra. A ideia é aperfeiçoar o software até que, em breve, o público não consiga distinguir entre um filme gravado em inglês e gravado em outro idioma, tamanha a naturalidade com que a tecnologia funcionará.

“Acreditamos que, ao destruir essa barreira das linguagens, permitimos que o mundo experimente uma gama mais ampla de histórias, da forma como o cineasta originalmente pretendeu”, afirma Nick Lynes, co-CEO e cofundador da Flawless. “Somos uma tecnologia do bem.” Para Lynes, levará cerca de dois anos para que softwares como o da Flawless sejam comuns no cinema.

A importância do avanço é significativa. Frequentemente, ao se assistir a um filme dublado, as palavras do dublador não combinam com as expressões ou movimentos do ator, o que pode prejudicar o ritmo da narrativa ou a forma como o espectador recebe o personagem. Com o software, isso seria anulado. 

 

Flawless Demo - www.flawlessai.com from Flawless on Vimeo.


Por outro lado, filmes legendados também têm um lado negativo. “A nossa tradicional experiência de lermos a legenda prejudica em torno de 20% na imersão na imagem e consequentemente na narrativa do filme, pois temos que baixar o olhar para ler as legendas”, explica Humberto Neiva, coordenador do curso de cinema da FAAP. “A nova tecnologia acabará com esse problema.”

Ainda de acordo com o especialista, um fator que deve ser levado em consideração é o custo do software. Nos países onde a indústria cinematográfica não está consolidada e a economia é frágil, os filmes legendados devem durar mais, opina Neiva.

De qualquer forma, a invenção da Flawless chega em um momento bastante propício. O interesse por filmes e séries estrangeiros está em alta nas telonas e nas plataformas de streaming, com programas como La Casa de Papel, Elite e Lupin. Além disso, cada vez mais consumidores de entretenimento estão situados fora dos Estados Unidos, incrementando a demanda por produções bem dubladas. 



É importante assinalar que tecnologias que interferem com a síntese de imagens e sons de forma realista por meio da inteligência artificial, conhecidas como deepfakes, podem ser bem polêmicas. Com base nelas, já foram produzidos vídeos que colocam palavras comprometedoras nas bocas de Jair Bolsonaro e Donald Trump, por exemplo.

Contudo, seu uso na indústria cinematográfica parece ser mais pacífico. Contanto que os atores consintam com o uso do software e que todos os envolvidos sejam compensados de acordo, não deve haver grandes problemas com a tecnologia criada pela Flawless. Ao que tudo indica, ficará cada vez mais difícil para que, nos filmes, algo se perca na tradução.

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