"Tartarugas Podem Voar" revê curdos antes da guerra

É quase documental este Tartarugas Podem Voar, do iraniano Bahman Ghobadi. Isso porque se interessa menos por uma história ficcional do que pelo registro de como vivem os curdos na fronteira entre o Irã e o Iraque, pouco antes da invasão americana. Não é um documentário puro, porque não há depoimentos no sentido convencional, por exemplo. As pessoas que estão na tela representam. Mas representam exatamente a vida delas próprias. Um menino esperto, apelidado de Satélite, porque ganha uns trocados instalando antenas parabólicas nos vilarejos... esse é um ponto interessante, com a população assistindo aos canais ocidentais ("menos os proibidos") para ter notícias da guerra. Como não entendem inglês, é Satélite quem traduz para eles. Só que também o menino não entende o idioma de Bush. Então faz "traduções" criativas. No filme, os horrores da guerra, narrados sob o ponto de vista dos que vencem a guerra. A câmera vê pelos olhos da população civil - esta que é sempre derrotada em todos os conflitos da história da humanidade. E então, o que se vê no filme é uma certa "naturalização" da tragédia, já que são comuns os meninos com uma perna a menos ou sem os braços. E, mesmo assim, vão vivendo naquela região cheia de minas. Aliás, uma das modalidades mais difundidas de sobrevivência é a desativação de minas, usadas como moeda de troca pois a ONU paga por elas. Bem, é o horror elevado à enésima potência, já que expõe a população ao risco da desativação dos explosivos. Assim, corpos mutilados são a regra e não a exceção naquele local. É um tipo de filme que desperta no espectador aquela pergunta clássica: "Como chegamos a isso?" Tartarugas Podem Voar (Lakposhtha Hâm Parvaz Mikonad, Irã-Iraque/2004, 95 min.). Drama. Dir. Bahman Ghobadi. 14 anos. Reserva Cultural 2 - 13h20, 15h20, 17h20, 19h20, 21h20. Cotação: Bom

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