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'Tão Forte e Tão Perto' comprova a habilidade de diretor com as palavras

Filme de Stephen Daldry foi um dos destaques do Festival de Berlim nesta sexta

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo,

10 de fevereiro de 2012 | 21h30

BERLIM - Quatro filmes franceses, ou pelo menos francófonos, integram a competição aqui em Berlim. O festival os apresenta em sequência, engatando um no outro, como se quisesse se desvencilhar logo de um entulho. Na trilha de O Adeus à Rainha, de Benoît Jacquot, já vieram A Moi Seule, de Frédéric Videau, e o franco-senegalês Aujourd’hui, Hoje, de Alain Gomis.

A Moi Seule é sobre uma mulher que foi sequestrada e tenta abrir um diálogo com seu sequestrador. Depois, o filme a acompanha de volta à liberdade, mas ninguém nem ela própria sabe como conviver neste novo mundo. Afinal, viveu confinada quase dez anos de sua vida. Aujourd’hui bebe longinquamente na fonte de Ingmar Bergman. Hoje é o último dia na vida de um homem, que viveu nos EUA e voltou para o Senegal.

Como o professor Isak Borg de Morangos Silvestres, ele atravessa os planos da realidade e da memória, evocada sem flash-back, não propriamente para tentar resolver o enigma de sua vida, como em Bergman. Esse enigma já está resolvido de cara, quando, num estranho ritual de corpo presente, todo mundo, dos pais aos amigos e conhecidos, se despedem do homem que vai morrer, dizendo o que sabem dele. Gomis constrói uma metáfora do tempo.

Bem perto do fim, o homem faz sexo com a mulher. Os dois sentam para conversar e a câmera, pudicamente, toma suas distâncias. Cai a noite. Os filhos adolescentes saem (para a vida?). O homem sorri placidamente, com serenidade. O tema do diretor é essa serenidade adquirida, o mistério da vida - se há algum - finalmente decifrado. Numa cena, logo no começo, o herói sai para a rua, levado por um cortejo. Chega a porta e vacila. Abrem-se as portas e as janelas.

O menino de Tão Forte e Tão Perto, de Stephen Daldry, possui uma chave. Foi o legado do pai, que morreu no 11 de Setembro. Nem ele sabe direito o que procura abrir com essa chave, mas inicia uma busca para chegar... a quê? A um cofre? Como um McGuffin num filme de Alfred Hitchcock, mas sem suspense, a chave é o que menos importa. Não há descoberta final, mas ela abre as portas da mente e do coração do pequeno protagonista.

Numa conversa com o repórter do Estado, que lhe perguntava sobre sua atração pelas palavras, Daldry confessou que gosta de terminar seus filmes com longas cenas de diálogos. Lembram-se do de Ralph Fiennes e Lena Olin no admirável desfecho de O Leitor? Há outro diálogo aqui, e você vai ver o filme em seguida, pois ele estreia dia 24. Daldry, mais uma vez, como em Billy Elliott, dirige admiravelmente a criança, Thomas Horn. Tom Hanks é o pai, Sandra Bullock, a mãe, com quem Oskar, o garoto, mantém uma relação (um diálogo) complicado. Max von Sydow está indicado para o Oscar de coadjuvante. Acompanha Oskar na sua peregrinação. Não fala, comunica-se, ocasionalmente, por bilhetes.

Max von Sydow também conversou com o repórter. E o que se pode conversar com o mítico ator sueco? Sobre Ingmar Bergman, claro. Um festival, como Berlim ou qualquer outro, não é feito só de filmes, mas também de encontros. Há que saber aproveitar os dois. E existem os filmes que não estão em concurso. Na quinta, anteontem, foi possível emendar In the Land of Blood and Honey, Terra de Sangue e Mel, de Angelina Jolie, em Berlinale Special, com Kuma, de Umut Dag, na abertura do Panorama. Uma história de amor impossível, a de um sérvio por uma muçulmana, durante a Guerra da Bósnia, e a de uma garota turca que vai morar na Alemanha, após um casamento arranjado.

Ela se casa com um jovem, mas o marido é um velho e o casamento foi arranjado pela mulher dele, que está morrendo de câncer e quer arranjar alguém para cuidar da família. No papel, o casamento é com o filho mais velho, a quem ela ama, mas ele é gay. Amores impossíveis - a garota torna-se amante do dono do mercado no qual vai trabalhar, provocando a ira da matriarca. A família ameaça esfacelar-se, mas o gay toma uma atitude.

La Jolie. Kuma foi um bom começo para o Panorama. E Angelina Jolie? Ela é uma top star, a maior de Hollywood, e é claro que muito jornalista já havia torcido o nariz antes de ver o filme, convencido de que, por ser quem é, ela não poderia acertar a mão. Se Terra de Sangue e Mel tem algum defeito, é o de querer dar conta de tudo - do horror da Guerra da Bósnia, da violência contra as mulheres, da geopolítica que se lixa para os dramas humanos e o papel da arte (a protagonista é pintora). Muita coisa para uma diretora estreante. Mas Angelina tem pulso e, em mais de um momento, sua direção de cena é viril (como a de Kathryn Bigelow). Poderosa, a mulher de Brad Pitt.

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