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'Tantas Almas' mostra o drama de buscar um filho em uma zona de guerra

Filme do colombiano Rincón Gille, que estreia nesta quinta, fala de masculinidade e opressões em área de paramilitares

Matheus Mans, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2022 | 05h00

Em uma cena de Tantas Almas, que tem tudo para se tornar uma das mais emblemáticas do cinema de 2022, o personagem José está tomando sopa. No entanto, ao seu redor, não há uma casa ou restaurante aconchegante: estão homens armados, obrigando esse senhor em busca dos corpos de seus dois filhos assassinados a comer dois, cinco, dez pratos de sopa. Eles riem, José resiste. Afinal, precisa resgatar os corpos. 

“Os paramilitares tinham muitos sistemas de violência, inclusive simbólicos. Podiam torturar as pessoas das mais diferentes maneiras”, diz Nicolás Rincón Gille, diretor do filme, que estreia nesta quinta, 26. “A sopa começa como algo cômico ou banal, mas aos poucos vamos vendo o que há por trás disso. O espectador percebe que é uma violência baseada no poder. O paramilitar faz o que quiser com você, até mesmo em coisas banais. A cena fala ainda sobre a capacidade de resistir.”

Tantas Almas, aliás, é sobre isso: violência e resistência. O longa-metragem se passa em uma Colômbia dividida, em que grupos paramilitares de extrema direita estão em conflito com outras organizações políticas do país. No meio disso está o povo, sofrido e oprimido, lidando com a morte de amigos, parentes, vizinhos. José, interpretado por José Arley de Jesús Carvallido Lobo, é um entre tantos.

Não foi à toa que a ideia de Tantas Almas nasceu de conversas do cineasta com pessoas de seu país, enquanto rodava o documentário Los Abrazos del Río. “Escutei muitos relatos de mulheres que sofreram sob os exércitos paramilitares da Colômbia. Uma delas me contou a história de seu pai, que perdeu os filhos e saiu a buscá-los [os corpos]em uma canoa. A partir daí, comecei a imaginar como contar e construir a história de Tantas Almas”, explica o diretor do filme, em entrevista ao Estadão.

Ao longo da jornada desse homem, Rincón Gille encontra espaço para falar de muitas coisas além da violência, resistência e luto. Fala também de masculinidade, por exemplo, com personagens absolutamente díspares. José é um homem calmo, sereno e que, mesmo em situação tão adversa, nunca entra em confronto físico.

Rincón Gille acredita que Tantas Almas chega aos cinemas brasileiros em um momento necessário para se discutir sobre a masculinidade. “O filme conversa com muitas coisas no Brasil. Religiões, a presença afro e a de indígenas, por exemplo”, diz o cineasta. “O brasileiro tem muito a ver conosco. Também é muito afetado pelas presenças masculinas de poder. E estamos sempre resistindo, mesmo nas lutas cotidianas.

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