Talento de Lewgoy marcou o cinema

"Estudei Arte Dramática em Yale,mas gastei todo o meu Shakespeare em filmes lamentáveis." Odesabafo, suavizado pela auto-ironia, representa apenasmeia-verdade. O culto José Lewgoy, de fato, desperdiçou não sóseu Shakespeare, mas também seu Molière e seu Ibsen em muitosfilmes abaixo da crítica. Mas fez também muita coisa boa. Mais:participou de uma obra-prima, Terra em Transe, de GlauberRocha, e de alguns belos filmes, como Faca de Dois Gumes, deMurilo Salles, e Tabu, de Julio Bressane. Ao lado deles, suafilmografia alinha títulos como Os Mansos, Ibrahim deSubúrbios, e outros do nível. Nesse ponto, o internacional Lewgoy era bem brasileiro -trabalhava no que podia, aos trancos e barrancos e iaemprestando seu talento com igual generosidade tanto ao joioquanto ao trigo. Hoje em dia, aliás, anda cada vez mais difícildistinguir um do outro, de modo que ele próprio, nos últimostempos, andava defendendo o cinema comercial contra o autoral,sinônimo (às vezes) de hermetismo e pouco diálogo com opúblico. Era uma forma, talvez, de atar duas pontas da vida efazer as pazes com o início de sua carreira. Todo mundo sabe queLewgoy é um dos mais famosos vilões do cinema nacional. Começoufazendo o personagem incumbido de bater no galã Anselmo Duarteem Carnaval de Fogo, produção da Atlântida de 1949.Beneficiava-se de um tipo físico adequado para um vilão. Magro(na época), bigode fino, como feito a lápis, olhar dissimulado.Era parecido com outro "bandido" contumaz das telas, WilsonGrey, que, como Lewgoy, ao morrer, ostentava filmografia de maisde cem títulos. Em seu último trabalho, o ainda inédito "ApolônioBrasil", de Hugo Carvana, Lewgoy mais uma vez entra na pele deum mau-caráter. Ele não se importava mais com o estereótipo.Achava graça nele, o desconstruía e chegou a afirmar que osvilões eram mesmo os melhores personagens. Mas, claro, ele fezmuito mais do que isso, embora tenha sido um dos poucos a intuirque a vilania é vizinha da farsa. O que explica o prazer quesentimos ao ver um vilão bem interpretado. No entanto, um atordo seu nível mereceria, em outras circunstâncias e latitudes,balanço de carreira melhor. Mal pago e muitas vezes escaladopara papéis inferiores ao seu talento, Lewgoy costumava dizer,com razão: "Não devo nada ao cinema nacional; devo por causadele."

Agencia Estado,

10 de fevereiro de 2003 | 20h54

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