Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Taís Araújo revela a origem de sua mulata incorreta em 'O Roubo da Taça'

Longa remete aos anos 1980, quando a Taça Jules Rimet foi roubada da sede da CBF

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2016 | 04h00

Num filme institucional de Gramado, que passava todas as noites antes da programação do festival, o crítico Rubens Ewald Filho, responsável pela seleção, brincava que o Brasil não tem Oscar, mas tem Kikito. Quatro Kikitos - melhor roteiro, fotografia, direção de arte e, cereja do bolo, melhor ator para Paulo Tiefenthaler. É uma pena que o Kikito não seja o Oscar, porque com quatro Oscars qualquer filme estoura na bilheteria e já se poderia antecipar O Roubo da Taça como um dos sucessos do ano. O filme estreia nesta quinta, 8, nos cinemas brasileiros. A curadoria de Gramado fez uma aposta na comédia, gênero em geral menosprezado nos festivais, e o júri avalizou.

O Roubo da Taça remete aos anos 1980, quando a Taça Jules Rimet foi roubada da sede da CBF, a Confederação Brasileira de Futebol. Para se apossar em definitivo do troféu, o Brasil ganhara três vezes a Copa do Mundo - em 1958, 62 e 70. Ganhou mais duas vezes depois, mas aí a taça era outra. Fora-se a lendária Jules Rimet, presumivelmente fundida e transformada em barra de ouro na Argentina. Há controvérsia sobre o roubo e o destino da taça. De cara, um letreiro informa que uma parte da história de O Roubo da Taça é real. O restante, e é quase tudo, é a versão do diretor e corroteirista Caíto Ortiz sobre o que pode ter ocorrido.

Um conceituado diretor brasileiro estranhou que Caíto tivesse feito uma comédia. Achava que o assunto poderia render um drama. O diretor arregala os olhos. Sua formação como cinéfilo fez-se por meio da comédia italiana, pelo simples fato de que a melhor amiga de sua mãe era italiana e adorava cinema. Garoto, Caíto via aqueles filmes de Mario Monicelli. Os Eternos Desconhecidos ficou gravado em sua lembrança. Um golpe à italiana. Ladrões fajutos, “gente torta”, como define o diretor. Foi assim que nasceram os golpistas de O Roubo da Taça. Atrapalhados, ineptos. A solução final vem por meio de um twist, uma reviravolta inesperada.

Os caras se acham espertos - a mulher é que é esperta. Paulo Tiefenthaler ganhou o Kikito, mas Taís Araújo, sem Kikito, arromba a festa. Faz a ‘gostosa’, e faz muito bem, com a exuberância que Deus lhe deu. Seus trejeitos em cena evocam a mítica Adele Fátima. Caíto diz que não se inspirou em Os Eternos Desconhecidos, mas reconhece que Monicelli estava no seu inconsciente. Taís, sim, inspirou-se em Adele, a mulata nota 100, cujas curvas inspiraram Oscar Niemeyer no desenho do Sambódromo, do Rio. “Totalmente”, ela diz. O filme só ganha com isso.

Caíto Ortiz diz que a melhor coisa que poderia ter-lhe acontecido foi fazer O Roubo da Taça sem nenhuma grande produtora ou distribuidora atrás. “Iam querer me empurrar um nomão para vender ingresso. Pude fazer o filme com o Paulo (Tiefenthaler).” Mas o filme tem um nomão, sim. Quando o nome de Taís Araújo surgiu na própria equipe, Caíto vacilou. Será? Bastaram cinco minutos de conversa. “Ela é engraçada, não tem medo de ser incorreta, faz um bullying legal. E é essa deusa.” E a ‘deusa’, como chegou ao filme?

“A gente recebe muito roteiro, vem um monte para o Lázaro (seu marido, o ator Lázaro Ramos). Leio todos, opino. O de O Roubo da Taça é como eu gosto. Li inteiro, de cabo a rabo. Roteiro bom é assim.” Ela gostou da história, da personagem. Como uma atriz que virou ícone da negritude no País - o marido e ela têm sido guerreiros na luta por direitos - embarcou nessa personagem de mulher-objeto? “Mas justamente por isso. Foi gostoso de fazer.”

Taís, de 37 anos, não tinha idade para conhecer a mítica Adele Fátima, mas a irmã mais velha e, principalmente, a mãe falavam naquela mulher linda. “Quando fomos buscar os ícones dos anos 1980 para construir a época, Adele se impôs.” Não só a ‘gostosa’. A incorreção permeia todo o filme. “Era uma época de excesso. As pessoas podem não se dar conta, mas o filme é cheio de detalhes. O batom é 24 horas, uma marca da época que parecia tintura. Toda mulher que vê o filme se liga. Numa cena, a torneira está ligada e eu tenho de me movimentar no quadro. Automaticamente, fechei (a torneira). Caíto gritou - ‘Deixa!’ Era assim. Nenhuma consciência."

A personagem não só é esperta, como tem sorte. O desfecho - olha o spoiler - é dela. E na vida? “Recomeçamos a gravar Mister Brau neste mês, mas a terceira temporada vai ao ar só no ano que vem.” Mudanças? “Muitas, vamos ter as crianças (adotadas pelo casal) e outras que não posso falar.” A série funciona para o público negro? “Muito, e é legal que seja criação de um branco (Jorge Furtado), que entendeu o que Lázaro e eu queríamos fazer.” O casal segue com a peça O Topo da Montanha. Um ano de estrada. Martin Luther King! “Em toda parte a resposta do público é muito boa. As pessoas discutem.” A classe média negra, a periferia em Mister Brau (“Eles são muito de Madureira”), a cidadania no Topo. Taís diz que Lázaro e ela trabalham feito loucos. E ainda têm os filhos. Mas está feliz. Tudo vale a pena. Olhe a foto. Essa mulher é luminosa.

ENTREVISTA - Paulo Tiefenthaler - ATOR - A delícia de ser protagonista premiado

Cult na TV com seu programa de culinária no Canal Brasil, o Larica Total, Paulo Tiefenthaler veio, como se diz, comendo nas bordas no cinema. Fez papéis de coadjuvante. O Roubo da Taça é seu primeiro protagonista.

Qual a sensação de ser melhor ator em Gramado?

Estava achando ótimo o filme estar no festival e aí começou o falatório. Fica que você pode ganhar. Estou na novela (Haja Coração). Voltei para o Rio, para gravar, e retornei a Gramado. Vi o filme do Domingos (Oliveira), Barata Ribeiro. Achei que o Caio Blat ia ganhar. Desencanei. E aí ganhei. Foi ótimo.

Houve muita improvisação?

Eu improvisava muito no Larica. Caíto (Ortiz, o diretor) escreveu um roteiro sólido, a gente ensaiou, coloquei minhas rubricas. Então, improvisar mesmo, não improvisei muito. Algumas cenas. Aquela fala ‘Dissolve (a taça) com carinho’ é minha. Caíto adorou. A liberdade estava na encenação. Tínhamos um grande steadycam, um francês que Caíto importou. A gente fazia um balé no set. Achei bacana. Está no filme.

Você é protagonista, ganhou prêmio e tudo, mas Taís (Araújo) é poderosa. Como se estabeleceu a química entre vocês?

Foi muito rápido, Taís é sensacional. Ela queria muito fazer o filme. Vestiu a Dolores (personagem). Já chegou com aquele poder nos ensaios. E eu fui junto. Foi muito gostoso.

Coadjuvante, nunca mais?

Cara, tô adorando essa história toda, mas nunca pensei que meus papéis de coadjuvante fossem menores. No Trinta, por exemplo. Cada personagem tem sua história, é ótimo ser protagonista, mas se o papel é pequeno e bom, que mal tem?

Saudades do Larica?

Foi muito legal. Eu fazia loucuras naquela cozinha. Já foi. Tenho outros projetos no canal (Brasil). Espero que deem certo.

 

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