WALPER RUAS
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Tabajara Ruas ilumina passado e presente em 'A Cabeça de Gumercindo Saraiva'

Dublê de escritor e cineasta apresenta seu longa no Projeta às 7, da rede Cinemark

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2018 | 06h00

Já faz algum tempo que a rede Cinemark e a Elo Company abriram essa janela para o cinema brasileiro. Um espaço exclusivo, com hora e local certo. De segunda a sexta, às 19 horas, o Projeta às 7 tem servido de vitrine para a exibição de longas nacionais de ficção e/ou documentários. O da vez é a produção gaúcha da Walper/Ruas, A Cabeça de Gumercindo Saraiva, que ainda terá mais três sessões nesta semana e outras três na próxima. Tabajara, dublê de escritor e cineasta, faz aquilo que, no Rio Grande, os críticos definem pejorativamente como ‘cinema de bombacha’.

Ele tem filmado episódios da história gaúcha – e brasileira. Netto Perde Sua Alma foi um bom exemplo. Os Senhores da Guerra, outro. E agora Gumercindo Saraiva. O primeiro abordava a Revolução Farroupilha, quando o Rio Grande pegou em armas contra o Império, sonhando com a República. Os outros dois abordam a Revolução Federalista, a guerra entre maragatos e pica-paus que deixou sequelas no imaginário dos gaúchos. Guerras fratricidas, e numa sessão especial para convidados Tabajara Ruas disse que gostaria muito que Gumercindo Saraiva fosse visto não apenas como uma história do Brasil de cento e tantos anos atrás, mas como uma tentativa de entender o presente – o convulsivo processo eleitoral que dividiu o País na eleição de domingo, 28.

Para entrar no universo do filme, talvez seja bom para o espectador saber que Tabajara Ruas escreve roteiros como romances, e romances (históricos, mas não exclusivamente) que viram filmes. Ele ama John Ford, os westerns e a grandeza dos derrotados. Ama Sam Peckinpah, o Oeste convulsivo, em processo de transformação e a derrocada das lendas. E quase todo o seu cinema tem algo de Luís Buñuel, um pezinho no surreal e uma pitada de humor para se conseguir sobreviver no absurdo que são as disputas de poder nessa América Latina. O começo de A Cabeça de Gumercindo Saraiva é exemplar. Coxilhas, homens a cavalo. Enterram o corpo do caudilho Gumercindo e seu irmão, à beira da sepultura improvisada, promete resgatar o cadáver para lhe dar a definitiva morada em outro local. Os cavaleiros partem, chegam os soldados do inimigo. Desenterram o corpo e cortam a cabeça, para que, separada do corpo, Gumercindo seja condenado a vagar entre céu e inferno.

E não apenas – o Coronel Ramiro/Murilo Rosa é encarregado de levar a cabeça ao governador da província. Ele pondera – pelo que conhece do governador ele não apreciará o presente, mas o oficial no comando da operação faz valer sua autoridade e, invocando a cadeia de comando, impõe a Ramiro suas ordens. O coronel parte, perseguido pelo filho de Gumercindo, que à frente de um reduzido grupo de homens, tenta resgatar a cabeça decepada. Quem faz o papel é Leonardo Machado, ator gaúcho que, por muitos anos, apresentou o Festival de Gramado. ‘Leo’ morreu em 28 de setembro, aos 42 anos, de câncer. Graças a esse milagre do cinema, viverá eternizado no papel. Ramiro chega a Porto Alegre quando o governador assiste a uma representação da ópera Os Palhaços. A cabeça já está podre. São momentos intensos – Peckinpah, Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia, cruza com O Chefão 3, a ópera. Tudo isso pode parecer excessivo, todas essas referências clássicas. Tabajara tem um olho para a beleza. Filma bem cavalgadas, explosões de violência. O ponto crucial é uma frase, pinçada do diálogo – “Quem são os bárbaros?” Seu filme é forte.

 

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