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Sylvester Stallone completa 70 anos de uma vida dedicada ao cinema

Ator adquiriu fama, ganhou rios de dinheiro, mas virou o cara de Hollywood que a crítica, principalmente de esquerda, mais adorava bater

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

06 Julho 2016 | 11h32

Nesta quarta, 6, Sylvester Gardenzio Stallone completa 70 anos. Ninguém achava que pudesse virar astro em Hollywood, mas milagres acontecem. Além de brucutu, Sly, como é chamado, sempre falou enrolado. Isso se deve a um acidente de nascença. Os médicos, ao usar o fórceps, cortaram um nervo do rosto e o bebe ficou com a face parcialmente paralisada. Fez inúmeros testes, nada dava certo para ele. Em 1970, aos 24 anos, ele dormia na rua em Nova York. Conta a lenda que viu um anúncio pedindo ‘modelos’ para filmes pornô. Ganhou seu primeiro papel em The Party at Kitty and Stud’s. Sim, ele fazia tudo o que você pode imaginar. Anos mais tarde, o filme foi relançado como Italian Stallion, para apelar a nova popularidade de Stallone em Rocky, Um Lutador, de 1976.

Mas é bom não adiantar. O sexo explícito matou-lhe a fome e lhe deu certa projeção. Stallone começou a ganhar pequenos papéis - foi um assaltante no metrô em Bananas, de Woody Allen; um dançarino na boate de Klute, o Passado Condena, de Alan J. Pakula; e o garoto que Jack Lemmon toma por batedor de carteiras e derruba em O Prisioneiro da Segunda Avenida. Em nenhum desses filmes ganhou crédito. Em meados dos anos 1970, ele estava na maior crise de identidade. Os EUA, também, após o escândalo de Watergate. Stallone teve um estalo, escreveu um roteiro sobre um aspirante a pugilista que enfrenta campeão.

A história de Rocky Balboa bateu com a nova era que pareceu se iniciar com a vitória de Jimmy Carter. A ‘América’ retomava a confiança. O roteiro de Sly, filmado, virou Rocky, Um Lutador, de John G. Avildsen, que ganhou o Oscar de 1976. O sucesso foi instantâneo. Foram surgindo as sequências, Rocky II, III. No começo dos anos 1980, Stallone estrelou Programado Para Matar, de Ted Kotcheff, sobre a história de um veterano do Vietnã que enfrenta xerife numa pequena cidade, usando técnicas de guerrilha que aprendeu no Sudeste Asiático. Enquanto isso, o episódio dos contras, no Irã - que Ben Affleck transformou em filme, ganhando o Oscar com Argo -, minou a popularidade de Carter. Uma nova era (mais uma) iniciou-se com Ronald Reagan na presidência dos EUA.

Reagan, na Casa Branca, e Margaret Thatcher, como premier da Inglaterra, consolidaram a economia neoliberal. O mundo mudou, goste-se ou não. Stallone, deixando de ser o emblema da era Carter, bandeou-se para o lado de Reagan. Rambo, que nascera crítico em Programado para Matar, virou o emblema da nova era. Em Rambo 2 - A Missão, de George Pan Cosmatos, que passa hoje na TV paga - Telecine Cult, 22 h -, voltou ao Vietnã para vencer a guerra que os EUA haviam perdido na realidade. Em Rocky IV, de 1985, o personagem enfrenta o campeão soviético Drago, e o derrota. O resto é história. Stallone adquiriu fama, ganhou rios de dinheiro, mas virou o cara de Hollywood que a crítica, principalmente de esquerda, mais adorava bater.

Não adiantou tentar zombar da próprias imagem, fazendo comédia em Oscar. Stallone virou diretor - de novos Rocky e Rambo -, mas até como herói de ação foi se esgotando. A história não termina assim. No ano passado, aos 69 anos, ele aceitou fazer Creed, voltando ao papel de Rocky, mas agora como treinador do filho de seu lendário oponente no primeiro filme da série, Apollo Creed. O sucesso superou toda expectativa e Stallone, finalmente consagrado como ator, ganhou o Globo de Ouro, o Critic’s Choice e o National Board of Review. Só perdeu o Oscar de coadjuvante, mas isso foi safadeza que Hollywood fez com ele. O pior é que não se pode dizer que o vencedor - Mark Rylance, de Ponte dos Espiões - não merecesse.

Setenta anos esta noite. Stallone com certeza vai comemorar em família, com as filhas, todas lindas. Mas sua felicidade não estará completa. Pode parecer melodramático, mas, em 2012, Stallone teve de enterrar o filho, Sage - que foi visto no cinema como filho de Rocky -, que morreu, aos 36 anos, de overdose de medicamentos. Na época, chorou. Disse que a nenhum pai deveria caber enterrar o próprio filho. O que isso prova? A dor não poupa ninguém. Nem um durão como Rambo, ou Rocky.

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