Suso Cecchi D´Amico e Carlo Lizzani falam de Visconti

Conta o amigo e colaborador Franco Mannina que quando o técnico preparava os créditos daquele que seria seu último filme, O Inocente, Luchino Visconti fez uma correção do próprio punho. Onde se lia "um filme de Luchino Visconti", ele escreveu, com o traço trêmulo, "era" um filme de Visconti. Com dificuldade para locomover-se e até falar, o grande cineasta teve um fim de vida atormentado pelas brigas com amigos e colaboradores. Perfeccionista, não tinha mais condições de fazer as coisas como queria. Dependia dos outros e isso era avesso ao seu comportamento. Ele ainda trabalhava na cópia final de O Inocente quando foi acometido de uma forte gripe. Ficou debilitado. Conta Bruno Villien em seu livro sobre Visconti, um álbum espetacular pelas fotos e acurado pelo texto, que Luchino pediu à irmã e cúmplice, Uberta, para ouvir Brahms. Ouviu várias vezes a Segunda Sinfonia. De repente, disse "chega". Virou o rosto para o lado e morreu. Foi no dia 17 de março de 1976 - há 25 anos.Sua vida foi teatral. É o que diz Vittorio Gassman, que trabalhou várias vezes com Visconti no teatro, no documentário que a GNT mostra nesse sábado, às 17 horas, para assinalar a data. Esse documentário é assinado por Carlo Lizzani. Reúne depoimentos valiosos (alguns do próprio Visconti), cenas de filmes. Mais do que nunca, é oportuno lembrar a obra extraordinária desse esteta genial. É o que faz hoje a reportagem que entrevistou para isso a roteirista Suso Cecchi d´Amico, cujo nome está ligado às maiores obras-primas do diretor, e o próprio Lizzani, autor do documentário. Visconti é alta cultura. Se a sua vida foi teatral, a morte também foi. Nos últimos tempos, combalido pela doença - sofreu uma trombose durante a rodagem de Ludwig, que passou no Brasil com o acréscimo de A Paixão de um Rei ao título -, Visconti estava obcecado pela morte. "Penso muito no assunto", ele dizia. Mas encarava a morte como algo natural. "Nascer ou morrer é a mesma coisa e eu acho que talvez seja mais fácil morrer. Tenho curiosidade pelo mistério. Quero saber o que há depois. Será como ir ao cinema." A morte ronda a fase final da obra do diretor. Está no título da adaptação que ele fez de Thomas Mann - Morte em Veneza. Irrompe nas imagens de Ludwig, de Violência e Paixão, de O Inocente. Mas são filmes de quem encarava a morte sem morbidez. Foi, até o fim, comprometido com a vida.O cinema de Visconti. Foi por meio de seus filmes que ele se tornou conhecido em todo o mundo - "o Stendhal do cinema", como o chamou Gláuber Rocha. Foi o mais clássico dos revolucionários da tela. Filho do conde Giuseppe de Modrone e Visconti, fez sua opção ideológica pela esquerda, mas carregou sempre o luto da aristocracia e da grande burguesia, nas quais foi criado. A mãe, Carla, era herdeira da poderosa casa farmacêutica italiana Erba. "Era um aristocrata na vida", define Suso. Exigente, refinado, nunca indolente. O aristocrata era, na arte e na política, um revolucionário. "No cinema foi um narrador clássico, acusavam-no de ser decadente, mas ele dizia que era o narrador da decadência", diz a roteirista. Fazia filmes acreditando na necessidade de uma sociedade melhor e mais justa. "O final de Rocco e Seus Irmãos é a prova", segundo Suso. No teatro e na ópera, sim, foi sempre revolucionário. "Tirou o teatro da mundanidade e o transformou em fato cultural na Itália, dirigiu montagens que se tornaram referências históricas", ainda segundo Suso.Na ópera, foi o mentor de Maria Callas. "Luchino ensinou-lhe tudo sobre o palco. Depois dele, não se admitem mais cantores líricos que não sejam capazes de interpretar, no sentido mais dramático da palavra. Não basta cantar." Ela surpreende ao dizer que Visconti, que amava La Terra Trema, Sedução da Carne (Senso) e Rocco, não tinha muito apreço por Vagas Estrelas da Ursa, que é, no entanto, uma de suas obras maiores. Lizzani coloca o grande cineasta na sua perspectiva histórica. Conta como um grupo de intelectuais, reunidos na revista Cinema, na Praça Pilotta, no centro de Roma - a revista era dirigida pelo filho de Benito Mussolini, Vittorio -, criou o neo-realismo. Ossessione foi o primeiro grande marco do movimento. "Com a cumplicidade de todos, que participamos do roteiro, muitos sem assinar, transpondo o original de James Cain The Postman always Rings Twice para a paisagem italiana, Luchino levou para a tela uma cultura figurativa que não era só literária nem cinematográfica, mas fundia todos esses elementos numa dramaturgia comprometida com a análise da realidade social." Isso, diz Lizzani, foi o neo-realismo. Suso admite que Visconti ainda lhe faz falta, fisicamente. "Mas ele está vivo; cada vez mais na Itália se fala nele, se discute sua obra, sua importância. Na verdade, nem a morte conseguiu nos livrar de Luchino."

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