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Sucesso dos filmes 'gore' e 'giallo' faz indústria do vídeo prosperar

O terror é um gênero que cresce na era do medo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2016 | 16h00

É possível que até mesmo uma pessoa que nunca ouviu termos como ‘gore’ ou ‘giallo’ tenha visto filmes do gênero. Sucesso entre espectadores de diferentes idades, eles são colecionados e discutidos entre cinéfilos, que descobriram ou redescobriram clássicos de meio século atrás, como o premonitório Sob o Poder da Maldade (The Sorcerers, 1967), último grande papel de Boris Karloff. A indústria do vídeo, que perdeu terreno nos últimos anos para provedores via streaming como o Netflix, está recuperando suas forças justamente com esses filmes, agora lançados em versões restauradas com muitos extras, cards que reproduzem os cartazes originais e digistack de luxo.

A coleção Obras-Primas do Terror, lançada pela Versátil, por exemplo, já está no quarto volume. Traz, entre outros títulos, o terror politizado do espanhol Guillermo del Toro, A Espinha do Diabo, realizado em 2001 e ambientado durante a Guerra Civil Espanhola. Destaca-se também o cultuado Nasce um Monstro (1974), de Larry Cohen, sobre um bebê mutante e canibal, que também pode ser visto como uma parábola antecipatória para os tempos de zika, transgênicos e contaminação por pesticidas.

Ainda que possa ser inserido no gênero ‘gore’, caracterizado pelo volume de sangue que jorra sobre o espectador – e há uma sequência em que ele se mistura ao leite, porque se trata, afinal, de um bebê monstro – o filme de Cohen avança em relação à violência gráfica do verdadeiro ‘gore’, ou ‘splatter’, do italiano Lucio Fulci, considerado o rei desse subgênero de terror, representado na caixa por A Casa do Cemitério (1981), mais convencional e menos metafórico. Nele, uma família se instala num velho casarão ao lado de um cemitério e é atormentada por espíritos perturbados, presenciando crimes violentos. Com toda certeza, você já viu esse filme antes – com este ou outro nome.

Já ‘giallo’, outro gênero cinematográfico, toma emprestado justamente a expressão literária de mesmo nome (‘amarelo’, referência às capas das revistas pulp da mesma cor, que publicavam histórias policiais na Itália). Mario Bava, diretor de Schock (1977), foi o introdutor do ‘giallo’ no cinema, em 1963, com um filme (que não está na caixa) chamado A Garota Que Sabia Demais, sempre lembrado por ter o “assassino do alfabeto” e por relacionar a história de uma jovem obcecada por livros de mistério com os crimes testemunhados pela garota do título. Em Schock, Bava usa uma trama que evoca Allan Poe, aquela das velhas mansões em que seus moradores são assombrados por fantasmas – no caso, o de um ex-marido – e por uma criança estranha.

Pequenos malignos não faltam no quarto volume de Obras-Primas do Terror, a começar pelo primeiro filme, A Espinha do Diabo, em que um menino é levado a um orfanato por resistentes na Guerra Civil Espanhola. O lugar, macabro, gótico, é um microcosmo que representa a Espanha acossada por seus fantasmas de crianças abusadas pelo fascismo. Uma delas, desaparecida, volta para exigir do garoto que cometa um crime de vingança contra um violento empregado do orfanato. Del Toro é um diretor requintado. Não tem nada de ‘gore’ ou ‘giallo’. É terror clássico.

Igualmente clássico é Sob o Poder da Maldade, realizado em 1967 por Michael Reeves. Nele, um casal de idosos usa um jovem entediado que hipnotizam para cometer crimes. O método usado pelo médico (interpretado por Karloff) se assemelha à lavagem cerebral que grupos políticos extremistas (como o EI) utilizam hoje para arregimentar e manipular os jovens rebeldes sem causa pela internet – que, naturalmente, por não existir em 1967, obrigava os hipnotizadores a testar outras estratégias.

A caixa da Versátil traz ainda A Filha de Satã (Night of the Eagle/Burn, Witch, Burn), que o cineasta britânico Sidney Hayers dirigiu em 1962 com roteiro de Richard Matheson (da série televisiva Além da Imaginação). Um professor de Psicologia, racional, cartesiano, descobre que sua mulher pratica bruxaria e a obriga a se desfazer do material que usa para esse fim, o que traz consequências desastrosas para a vida do mestre, a começar pela acusação de estupro feita por uma jovem aluna. A cópia restaurada é a que foi exibida nos EUA, em que o ator Paul Frees, no prólogo, profere uma bendição para proteger o espectador da “palavras malditas” ditas pela bruxa do filme.

OBRAS PRIMAS DO TERROR (VOL. 4) 

6 filmes dirigidos por Mario Bava, Lucio Fulvi e outros. Versátil, R$ 69,90 

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