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Sucesso de 'Operação Big Hero', inspirada em HQ, consolida boa fase da Disney

Animação bateu o aguardado 'Interestelar'

Mariane Morisawa / BURBANK, Especial para o Estado

26 Dezembro 2014 | 20h03

A maré boa da Disney continua. Operação Big Hero, de Don Hall e Chris Williams, que estreou dia 25 no Brasil, bateu o aguardado Interestelar, de Christopher Nolan, no fim de semana de abertura nos EUA, com US$ 56 milhões. Pode não ser um fenômeno no nível de Frozen – Uma Aventura Congelante, que arrecadou mais de US$ 1,2 bilhão globalmente, mas certamente consolida o momento especial do estúdio de animação mais famoso do mundo. 

Desta vez, a fonte de inspiração não foi um conto de fadas, mas uma história em quadrinhos pouco conhecida da Marvel, que também pertence à Disney. O órfão Hiro Hamada é um gênio de 14 anos incentivado por seu irmão mais velho, Tadashi, a cursar a universidade. Depois de um acidente, Hiro se vê sozinho no mundo até conhecer Baymax, um robô enfermeiro desenvolvido por Tadashi. Juntos, Hiro, Baymax e quatro amigos de Tadashi – Go Go Tomago, Wasabi, Honey Lemon e Fred – montam um esquadrão de super-heróis para combater um vilão mascarado. “A Marvel sempre participou das conversas, mas nos deixou livres para criar nosso mundo”, disse Don Hall na sede do estúdio, em Burbank, perto de Los Angeles. Assim, em vez de se passar num lugar real como Nova York, onde já existem super-heróis, Operação Big Hero acontece na fictícia São Fransokyo, junção de São Francisco e Tóquio, e esses são os primeiros super-heróis de que se tem notícia. 

O drama do relacionamento entre Hiro e Tadashi e entre Hiro e Baymax foi o que intrigou John Lasseter, diretor criativo da Disney Animation, segundo os diretores. “É uma estrutura simples, porque basicamente trabalhamos para ele”, explicou Williams. 

Não é coincidência que o renascimento da Disney tenha acontecido com a chegada de John Lasseter, que acumulou as funções de diretor criativo do estúdio de animação e da Pixar quando esta foi comprada pela Disney, em 2008. Aos poucos, a Disney foi recuperando seu brilho, a ponto de, hoje, ser difícil diferenciar uma animação da matriz e uma produção da Pixar, reconhecida pela inventividade. Tanto Operação Big Hero quanto Frozen e Detona Ralph poderiam muito bem ter saído da Pixar, que fica em Emeryville, ao lado de São Francisco. Lasseter trouxe para a Disney os hábitos da Pixar. As ideias dos longas-metragens surgem com os diretores que trabalham na companhia – daí a variedade de temas. Todos os projetos são aprovados e acompanhados de perto pelo próprio Lasseter e por um conselho de cineastas. Em cada fase do filme, qualquer funcionário pode assistir às apresentações e dar opiniões. As pesquisas são intensas. A produção de Operação Big Hero, por exemplo, fez um tour por faculdades de tecnologia americanas. Foi na Carnegie Mellon que descobriram um braço robótico revestido de vinil macio para uso na área de saúde que virou a base para o robô “abraçável” Baymax. “Sua personalidade também veio dessa pesquisa, é um robô que só quer ajudar as pessoas”, disse Hall. O design tinha de ser simples. “Seria muito esquisito se ele tivesse um rosto realista. Ficaria assustador.” A equipe também foi ao Japão e a São Francisco. Uma psicóloga ajudou a entender como um adolescente lida com o luto. “Nossa tarefa é criar algo nunca visto. John Lasseter quer que ousemos”, lembrou Hall.

Segundo o produtor do filme, Roy Conli, não há competição entre Disney e Pixar. “John permitiu que cada estúdio amadurecesse no próprio legado. Como esteve na Disney no passado (Lasseter trabalhou no estúdio entre 1979 e 1984), ele trouxe de volta nosso DNA, que tínhamos perdido.”

Em 2016, a Disney Animation lança Moana, sobre uma navegadora que busca uma ilha fantástica, e Zootopia, em que uma raposa tenta escapar depois de ser acusada de um crime que não cometeu. 

 

Até na hora de namorar, John Lasseter se vale do Japão

Para conquistar a sua mulher, o chefe de criação dos estúdios Pixar e Disney mostrou filme de mestre japonês

Elaine Guerrini / TÓQUIO - Especial para o Estado

No início dos anos 70, as corridas automobilísticas de Speed Racer e o mundo futurístico de Astro Boy despertaram a fascinação de John Lasseter pela animação japonesa. “Muitos me achavam estranho na adolescência. Eu só queria saber de desenhos e não ligava muito para garotas ou carros”, contou, rindo, o atual chefe de criação dos estúdios Pixar Animation e Walt Disney Animation.

Aos 57 anos, Lasseter é o primeiro a reconhecer a grande influência do Japão no sucesso de sua trajetória profissional. Foi durante a sua primeira viagem ao país que ele teve a ideia de rodar uma animação protagonizada por brinquedos – após visitar o museu Tin Toys (de brinquedos antigos, feitos de lata), em Yokohama. Daí nasceu o curta-metragem Tin Toy (1988), o predecessor do longa Toy Story (1995), que revolucionou o mercado de animação com o uso da computação gráfica e rendeu um Oscar a Lasseter.

“Os japoneses têm uma percepção única para os detalhes e conseguem comunicar muito com uma economia de palavras, essencial na animação”, disse Lasseter, durante a última edição do Festival Internacional de Cinema de Tóquio. Foi no evento japonês, realizado há 27 anos, que o último título da Walt Disney Animation, Operação Big Hero, teve a sua première mundial. 

A animação foi concebida como “carta de amor” do executivo californiano à cidade de Tóquio. “Como locação, criamos San Fransokyo. É a combinação de nossas duas cidades favoritas, Tóquio e São Francisco (cidade onde mora a maioria dos animadores da Pixar, localizada em Emeryville, a cerca de 13 quilômetros)”, contou Lasseter, produtor executivo do filme. “Nós incorporamos as colinas, os bondinhos e a ponte Golden Gate de São Francisco à densidade e à escala de Tóquio, entrelaçando o moderno e o tradicional.”

Trata-se da primeira homenagem da Disney aos mangás de ficção científica japoneses. Inspirado no HQ da Marvel Big Hero 6, criado nos anos 1990, Operação Big Hero segue os passos do jovem Hiro Hamada e de seu robô inflável Baymax. A dupla reúne um grupo de heróis improváveis para combater a criminalidade.

Sob a supervisão de Lasseter, os diretores Chris Williams e Don Hall buscaram a estética, a sensibilidade e o estilo narrativo das animações japonesas. “O traço japonês é de uma simplicidade comovente, principalmente no que se refere à expressão das emoções”, afirmou Lasseter.

Uma das grandes inspirações para o americano foi Hayao Miyazaki, ícone da animação japonesa. O Castelo de Cagliostro (1979) teve grande impacto sobre Lasseter, quando ele ainda trabalhava na Divisão de Computação da Lucasfilm, sinalizando o caminho que o animador seguiria mais tarde. “Deve ter sido um dos primeiros filmes do gênero feitos para entreter todas as idades. Havia uma profundidade e uma sofisticação que ampliavam a sua audiência. Miyazaki simplesmente realizou o que eu sempre quis fazer, provando que eu não estava sozinho na minha concepção de animações para crianças e adultos.’’

Lasseter recorreu à obra de Miyazaki até na hora de conquistar Nancy Tigg, com quem está casado há 25 anos. Eles se conheceram em 1985, numa conferência de computação gráfica. “Depois de um jantar com amigos, eu a convidei para conhecer o meu apartamento. Primeiro mostrei a minha coleção de brinquedos e depois coloquei no vídeo a sequência da perseguição automobilística de O Castelo de Cagliostro. Ao ver que ela tinha gostado, percebi estar diante da mulher dos meus sonhos”, recordou.

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