EFE/EPA/CLEMENS BILAN
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Steven Yeun: 'Carrego comigo minha cultura e quem sou, se isso rompe paradigmas, acho maravilhoso'

O astro, indicado ao Oscar de Melhor Ator por ‘Minari’, estava dormindo durante o anúncio da indicação. Ele é um dos dois únicos homens de ascendência oriental indicados para a categoria este ano

Sarah Bahr, The New York Times

17 de março de 2021 | 20h00


Steven Yeun tentava dormir durante sua histórica indicação ao Oscar. Era 5h45 em Los Angeles - na verdade, 4h45, por causa do horário de verão - mas o telefone dele simplesmente não parava de tocar.

Bzz! Bzz! Bzz!

“Me esforcei para voltar a dormir”, afirmou o ator de 37 anos, indicado ao Oscar de Melhor Ator por sua atuação em Minari, de Lee Isaac Chung, um filme a respeito de um imigrante tentando concretizar seu sonho de agricultor, iniciando uma fazenda no coração dos Estados Unidos. “E ainda estou cansado. Peço desculpas, não estou entendendo bem o que está acontecendo agora.”

Yeun, que nasceu na Coreia do Sul e foi criado nos Estados Unidos, é um dos dois homens de origem oriental indicados para a categoria de Melhor Ator - juntamente com Riz Ahmed (um britânico de ascendência paquistanesa), que estrela O Som do Silêncio - no Oscar deste ano, a primeira vez que isso acontece nos 93 anos de história da premiação. É também a primeira indicação de um homem de origem asiática para Melhor Ator em aproximadamente 20 anos.

“Parece surreal”, afirmou Yeun na segunda-feira. “Ainda não processei o que houve.”

Numa conversa por telefone, o ainda sonolento Yeun relatou como foi trabalhar nos EUA com um elenco em sua maioria coreano, comentou se isso indica que Hollywood teria chegado a um ponto de inflexão em relação a atores americanos de origem asiática e falou a respeito do que está por vir. A seguir, trechos editados da conversa.


 


 

Você é um dos dois homens de ascendência oriental concorrendo ao prêmio de Melhor Ator no Oscar deste ano, algo inédito na trajetória da premiação. Como é a sensação de fazer história, especialmente quando o Oscar negligenciou amplamente atores asiáticos nos anos recentes?

Isso não é algo que me preocupe. Carrego comigo minha cultura e quem eu sou, e se isso desafia ou rompe paradigmas, acho maravilhoso.


 

Qual foi seu primeiro pensamento ao ler o roteiro?

Isaac (que escreveu e dirigiu Minari) tem muito jeito com as palavras e captou nas páginas do roteiro algo profundo que eu queria dizer em muitos níveis. Quando li, fiquei muito emocionado, me conectei profundamente. Talvez Isaac não tenha escrito algo inédito em relação à realidade, mas ele escreveu algo que é uma novidade para nosso entendimento coletivo a respeito do que é a realidade. Fazer as pessoas entenderem essa nova linguagem e sentir que entregamos essa mensagem nos preenche de humildade, é uma coisa linda.


 

Como foi trabalhar nos EUA com um elenco em sua maioria coreano?

Teve seus desafios. Você contorna as falhas na comunicação de diferentes maneiras. Mas, depois dos primeiros dias, resolvemos os eventuais impasses e nos unimos para contar essa história de família e de humanidade. Sei que as indicações são delimitadas e distintas, mas a experiência sempre é coletiva. Foi um trabalho de amor, e espero que todo o elenco seja notado. Todos nós trabalhamos com todo coração.



 

Sua companheira de tela, Yuh-Jung Youn, foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, e parece uma conquista o fato de a Academia reconhecer mais de uma estrela em um elenco de protagonistas asiáticos. Será que as coisas mudaram em Hollywood em relação a atores asiáticos?

Não sei se tenho opinião em relação a isso. Sei o que quero fazer nesse sentido: quero continuar a ser tão honesto e verdadeiro quanto me for possível e me manifestar a partir do meu lugar de fala. Carrego em mim muitos elementos, como ser americano de origem asiática. No fim, onde quer que a vida me leve, espero apenas poder compartilhar mais histórias como essa.


 

Quais filmes você assistiu esse ano cuja indicação o agradou?

Para ser honesto, ainda não prestei atenção em quem foi ou deixou de ser indicado. Mas adorei O Som do Silêncio e Nomadland. E achei incrível Destacamento Blood.


 

Qual o próximo passo?

Não quero ser pessimista, mas ainda estamos em meio à pandemia, e ainda estou tentando processar o ponto em que me encontro, o que aprendi e o que está por vir. Mas tenho bastante fé e esperança no futuro. E, se aprendi algo, é a realmente tentar fincar os pés no presente e me dar conta do que está acontecendo neste momento.



Tradução de Augusto Calil

 

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