Steven Spielberg faz política em "O Terminal"

O Terminal, novo filme de Steven Spielberg, que estréia hoje, faz rir sem ser comédia; e chorar sem ser dramalhão. É curioso que tenha chegado no Brasil às vésperas da data do ataque terroristas às torres gêmeas, em Nova York. O fatídico 11 de setembro desencadeou um retorno à pior paranóia que Spielberg exorcizou em E.T.. Sem tratar diretamente do assunto, Spielberg não faz outra coisa em O Terminal. O protagonista de sua história, interpretado por Tom Hanks, é um emigrante do Leste Europeu. Chama-se Viktor Navorski. Enquanto ele voava para os EUA, ocorreu o improvável - a Krakózia, seu imaginário país de origem, sofreu um golpe e o novo governo não foi reconhecido pelos EUA. Viktor é um homem sem passaporte, portanto, sem identidade. Sem licença para entrar nos EUA e sem poder ser despachado para a Krakózia, ele fica no terminal do aeroporto, transformado em terra de ninguém. Spielberg fez construir o maior cenário de cinema do mundo. O terminal é uma réplica exata, em tamanho natural, de um terminal de verdade. Numa cena, o diretor coloca Tom Hanks, isto é, Viktor, no meio desse cenário imenso e afasta a câmera até que ele seja reduzido a dimensões liliputianas. É o tema de O Terminal - o indivíduo humilhado e ofendido. Viktor fica amigo de meio mundo no terminal, inicia um romance (sem futuro) com a aeromoça Catherine Zeta-Jones. Tem um inimigo. É o chefe da segurança do aeroporto, interpretado por Stanley Tucci, que se chama Dixon, e inferniza a vida de Viktor com seu código que ultrapassa o conceito de segurança para virar ódio desse pequeno (e inofensivo) estrangeiro. Numa cena, ele humilha outro pobre imigrante. É repreendido pelo antigo chefe, que lembra que esta não é a tradição da América, terra de imigrantes. A história de O Terminal é real. Ocorreu com um cidadão iraniano no aeroporto Charles De Gaulle, em Paris, Merhan Karimi, que mora no terminal há 16 anos. Spielberg toma suas liberdades, mas mantém a essência. Viktor não fala uma palavra de inglês, é desajeitado, mas é do bem. Por que ele insiste tanto para entrar nos EUA você só sabe nos 15 ou 20 minutos finais, que são mágicos. Neles transparece a paixão de Spielberg pela música. É um belo filme que mostra que Spielberg ainda não esgotou sua capacidade de surpreender - e maravilhar.

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