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Steven Spielberg fala sobre seu interesse por histórias de espionagem

Diretor conversou ainda sobre o que Hollywood poderia fazer pelas mulheres e pelas minorias; veja trailer do longa 'Ponte dos Espiões'

Cara Buckley, The New York Times

02 de novembro de 2015 | 12h46

Em seu novo filme, Ponte dos Espiões, o diretor Steven Spielberg voltou ao tema que para ele é uma fonte inesgotável de inspiração: a história americana. Seu herói desta vez não é uma figura nacional totêmica, como em seu Lincoln, de 2012, mas alguém cujo nome não é muito conhecido, James Donovan, interpretado por Tom Hanks. Advogado nascido no Bronks, que defendeu um espião soviético caluniado, Rudolf Abel (Mark Rylance), no ápice da Guerra Fria, Donovan posteriormente negociou a troca de Abel pelo piloto americano do avião espião U-2 Francis Gary Powers, derrubado quando sobrevoava a União Soviética, e um estudante americano que havia sido preso em Berlim Oriental.

Spielberg - uma presença engajada, solícita, amável - conversou recentemente sobre o fato de o seu novo filme inspirar-se no mundo pós 11 de setembro, sobre o que Hollywood poderia fazer pelas mulheres e pelas minorias, e sobre o motivo pelo qual ele sente que nasceu dezenas de anos tarde demais. A seguir, trechos da conversação:

Você vê afinidades entre Ponte dos Espiões e Lincoln em termos da história?

Ambos são homens de princípios muito fortes, e têm uma missão a desempenhar. A missão de Lincoln era modificar a maneira de olharmos um para o outro, e a de Donovan era levar alguém de volta para casa. De certo modo, Lincoln e Donovan são personalidades inflexíveis na história, um completamente obscuro e o outro quase indescritivelmente famoso.

Donovan era particularmente irredutível quanto à ideia de que este homem merecia toda defesa. Há certa nostalgia aqui de uma crença e de um princípio? Estava pensando nos prisioneiros de Guantánamo. Você pensou nisso quando estava fazendo o filme?

Eu pensava em um monte de coisas do mundo contemporâneo. As missões dos drones. A baía de Guantánamo. A pirataria digital, porque a pirataria digital é uma forma de espionagem. No início da espionagem tecnológica, no final dos anos 50, com os sobrevoos dos U-2, nosso medo era que o Sputnik fosse um satélite espião, mas não era, evidentemente, e havia também um medo enorme e o temor de um holocausto nuclear. Cresci nessa era. Havia interesses enormes em jogo, realmente enormes. E no entanto hoje, há muito mais medo e temor de quem estará nos espionando. Havia um inimigo específico, a União Soviética, nos anos 50 e 60. Hoje não sabemos quem é o nosso inimigo. O inimigo não tem um rosto específico. 

Você sente certo alívio ao olhar as figuras heroicas da história? É um conforto em relação ao que está acontecendo hoje no mundo?

Aí é que está. Hoje é um pouco mais complexo, Donovan podia trabalhar cercado num sigilo total numa época em que não havia mídia social. Hoje, seria muito mais difícil encontrar um homem que defendesse seus princípios e sofresse os golpes e os ataques dos inimigos na mídia social. Donovan passou por maus momentos: no final dos anos 50, desconhecidos atiraram nele pela janela do seu apartamento. Imagine o sofrimento que a família de Donovan teria de suportar se o incidente tivesse ocorrido hoje em dia.

Como você descobriu esta história?

Um dramaturgo britânico, Matt Charman, me apresentou este episódio incrível sobre a troca de espiões. Eu sou grande fã do gênero espionagem. Embora este filme fosse mais um drama intelectual de espionagem, um pouco mais sobre a arte da negociação e da discussão, havia ainda uma arte da espionagem que despertou meu interesse. Sou um grande fã de A Morte Não Manda Aviso, Arquivo Confidencial, O Espião que Veio do Frio. Até de Flint contra o Gênio do Mal, o Dr. No e Da Rússia com Amor.

Vou passar para perguntas mais gerais. Quanto à indústria cinematográfica, você acha que ela goza de boa saúde?

A indústria cinematográfica sempre competiu com a televisão, e, no início da era da TV, alguns dos maiores roteiristas trabalhavam para a TV. Paddy Chayefsky, Stirling Silliphant, Rod Serling. Então a televisão se tornou muito estereotipada. Mas algo aconteceu nos últimos sete ou oito anos. Alguns dos maiores trabalhos hoje são para a televisão. Veja as séries como Transparent, Bloodline, Wolf Hall e Downton Abbey. Uma série maravilhosa de que gosto muito é Homeland. A TV faz com que o público assuma o risco de pagar para ir ao cinema e ver um filme. Porque se conseguir isto, e essa história está sendo exibida num cinema, poderá fazer com que mais pessoas saiam de casa para ver filmes.

Então os realizadores também podem assumir mais riscos?

Sim, os estúdios podem assumir riscos e permitir que os realizadores contem histórias autônomas e sequer prometem uma continuação. Acho que a televisão ajudou o cinema independente e que o cinema independente inspirou a televisão. Esta é indubitavelmente a segunda idade do ouro da televisão.

O ponto de vista das mulheres é um tópico muito explorado ultimamente. Você acha que alguém na sua posição tem a responsabilidade de encorajar as jovens realizadoras?

Eu encorajei as mulheres no cinema desde que decidi transformar minha secretária em minha produtora e criei minha companhia, a Amblin. Sinto-me muito mais confortável na companhia de mulheres. Refiro-me a mulheres que tenham a capacidade de criar, não de administrar. O primeiro filme que aprovei para a DreamWorks intitulava-se O Pacificador, e foi dirigido por Mimi Leder. Hoje, as mulheres ocupam muito mais cargos executivos na indústria cinematográfica - como a presidente da Universal, a presidente da Fox 2000. A ex-presidente da Sony. O que eu não entendo é a falta de diversidade e cor nos cargos executivos das companhias cinematográficas; isto é algo que deveremos analisar cuidadosamente e perguntar por que motivo isto acontece. Acho que é preciso que haja uma presença muito maior da mulher dirigindo e de mais homens e mulheres de cor na direção. Devemos fazer isto olhando os filmes que as pessoas estão fazendo tanto no YouTube quanto no Vine. Devemos estar abertos a isto, e procurar. É preciso sair por aí e ver onde está o talento e encorajá-lo.

Você explicou, falando dos filmes de super heróis, que eles terão uma vida útil finita em comparação com os westerns. Quais são os filmes de super heróis de que você gosta?

Não estava menosprezando o gênero, porque assisto a todos os filmes. Meus favoritos sã os filmes do Homem de Ferro. Adoro os filmes de Batman de Tim Burton e então - um salto no futuro - tudo o que Chris Nolan usou em Batman, por causa dos ambientes sombrios, do que motivaria um personagem como aquele, um personagem muito rico a servir a comunidade.

E de Homem de Ferro porque ...

Há muito de Joseph Campbell nos filmes do Homem de Ferro. Todos nós queremos voar, e sabemos que não podemos voar sem asas, exceto em nossos sonhos. Eu sonhava que voava com uma segunda pele, e quando o Homem de Ferro apareceu, eu disse: “Eles escreveram este tipo de coisa para mim. Isto atende a todos os meus desejos”.

Em E.T. e Contatos Imediatos de terceiro grau, você dirigiu seu olhar além do mundo. Agora você está explorando a História.

Sempre disse a mim mesmo que se chegasse ao sucesso, onde posso decidir o que fazer de maneira independente, queria contar histórias sobre pessoas que fizeram grandes coisas que tivessem um significado para mim. Também tenho imaginação - se ela ficar parada por muito tempo, tenho medo de que se torne um pouco aborrecida, por isso flutuo entre histórias baseadas em fatos verídicos e filmes que são muito mais o produto da minha imaginação hiperativa. Ou pelo menos a de Roald Dahl, que é meu próximo filme, Big Friendly Giant, com Mark Rylance no papel do gigante amigo.

Não sabia que Mark fez o papel de Abel; ele mergulhou tão profundamente no personagem.

Graças à Décina Segunda Noite e a Ricadro III (na Broadway), há uns dois anos, tive a oportunidade de conhecer muitas coisas que Mark Rylance fez .Eu o escolhi imediatamente. Tom (Hanks) fez personalidades americanas no passado, e é muito representativo dos nossos valores fundamentais principalmente do que acreditamos ser a liderança dos EUA. Esta foi uma tarefa especial para Tom, porque ele é o vilão desta história. Ele se dedicava obstinadamente à busca da justiça.

Você consegue arrancar grandes interpretações das pessoas.

Trabalhar com Daniel Day-Lewis me fez crescer consideravelmente. Eu vinha perseguindo Daniel Day-Lewis; depois de dez anos por fim ele concordou em fazer Abraham Lincoln. Sua interpretação realmente valorizou o filme. Acho mesmo que se fiz um dos meus melhores trabalhos em Lincoln, foi principalmente graças a este ator.

O que ele tem que fez com que as luzes se apagassem e todo o brilho emanasse dele?

Não dá para descrever. Eu tento voltar no tempo e imaginar como Howard Hughes conseguiu aquela interpretação de Montgomery Clift e John Wayne em Rio Vermelho. Acho que realmente eu tinha ótimas condições para trabalhar 70 anos atrás. Eu teria trabalhado como um burro de carga, por contrato, com roteiros dos outros, e teria prosperado. Passo mais tempo assistindo a filmes de 70, 60 anos atrás do que aos que são feitos agora. Clint Eastwood e eu somos muito bons amigos, e conversamos sobre aquela época. Ele gostaria de voltar no tempo e experimentar como seria se Darryl Zanuck ou Harry Cohn ou Louis B. Mayer me entregassem um roteiro, então eu o leria e diria: “Sabe de uma coisa? Odeio esse negócio, mas posso dar um jeito nele”.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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