Steven Spielberg cede aos encantos do impostor

Prenda-me se For Capaz não deixa de ser um Spielberg intrigante. Spielberg costuma dividir-se. Faz filmes de diversão e filmes sérios. Uns não dialogam com os outros. Uns são de entretenimento puro; outros parecem trazer em si o peso do mundo, com uma seriedade obrigatória que não esconde o desejo de sentir-se reconhecido como autor, responsável e participativo.Nesse novo longa, estrelado por Leonardo DiCaprio, o veterano Spielberg diverte-se com uma receita tradicional, mas que, bem cozinhada, costuma funcionar - a mistura de gêneros.Seu "herói" é um personagem real, Frank Abagnale, que, ainda muito jovem (dos 16 aos 20 anos), levanta uma fortuna passando cheques sem fundo, depois se faz passar por co-piloto da Pan Am, médico e advogado. Terá em seu encalço um perseguidor implacável, Carl Hanratty (Tom Hanks), funcionário do FBI que vai segui-lo até a França.Certo, o filme começa e você já está pensando no que Spielberg vai fazer para dar um jeito nesse personagem problemático e enquadrá-lo nos ideais da boa moralidade americana. Porque Abagnale é em tudo contrário ao bom moço adaptado ao sistema, tipo tão a gosto do diretor. DiCaprio deita e rola, usa seu charme com toda a impunidade e parece um daqueles péssimos exemplos de como o crime pode compensar. Cinema americano não tem nada contra vigaristas, desde que sejam punidos no final.Claro, aqui e ali, a tendência moralizante mostra seu rosto, fazendo, por exemplo, com que aquele escroque elegante sofra com a solidão. Seria um "preço a pagar" pela vida levada à margem, sem a compensação da família, etc. Mas isso ainda parece pouco como castigo, levando-se em conta que Abagnale subverte todas as regras da boa convivência, a confiabilidade no sistema bancário em primeiro lugar. Há um certo psicologismo aí. Como o pai de Frank (Christopher Walken) foi arruinado pela negativa de um empréstimo bancário, o filho se vinga da estrutura que desmanchou sua família.Mas o que dizer de uma instituição tão sagrada quanto a aviação comercial? Ou das práticas da medicina e da advocacia, esta última uma profissão tão cara aos americanos como já havia detectado Tocqueville em sua Democracia na América, um livro de 1835? Abagnale Jr. passa como trator por cima de tudo isso. Não respeita nada e a todos envolve com sua carinha de anjo e ares de sedutor. Impostor refinado, quando sente que James Bond passou a ser um símbolo sexual para as garotas, manda cortar ternos iguais aos usados por Sean Connery no personagem baseado em Ian Fleming.Em entrevistas, Spielberg tem dito coisas interessantes. Conta um pequeno episódio de sua juventude, quando ele também, hoje um modelo de correção moral, tornou-se um impostor. Fez-se passar por cineasta para poder freqüentar um estúdio e mostrar suas primeiras experiências em cinema.Depois, confessa que se sentiu atraído pelo personagem real Frank Abagnale porque este apresenta uma "curva moral" em sua biografia. Do fascínio pelo crime inclina-se para a reabilitação, usando o know-how adquirido na prática para prevenir infrações semelhantes às suas. De pirata passa a defensor da ordem. Essa capacidade de "redenção", diz ele, foi o que o atraiu no personagem. Quando não existe redenção, sente-se triste, decepcionado e desmotivado. Redenção, a necessidade dela, é parte indispensável do seu sistema de valores.Por isso entende-se o desfecho desse Prenda-me se For Capaz, previsível desde as primeiras cenas. Se o sujeito real não tivesse terminado mesmo daquela forma, pode estar certo de que Spielberg vergaria a história para o final que o interessa. No caso, houve apenas confluência entre a realidade da vida e o desejo do ficcionista.Mas esse epílogo, bastante convencional, deve ser descartado em benefício do restante do filme. Este exibe um frescor há muito não visto numa obra de Spielberg, e talvez essa vivacidade se deva a uma inconfessável nostalgia da contrafação. É um grão de sal que não se encontra em seus outros filmes.

Agencia Estado,

21 de fevereiro de 2003 | 12h32

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