Steven Soderbergh retorna ao cinema com ‘Roubo em Família'

Steven Soderbergh retorna ao cinema com ‘Roubo em Família'

O diretor conta, em entrevista ao 'Estado', como a história dos irmãos que aprendem a roubar se tornou essencial para ele; longa estreia na quinta, 12

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2017 | 06h00

Foi há cinco anos. Steven Soderbergh cansou-se do cinema – do sistema de produção e distribuição montado em Hollywood – e anunciou que estava parando. Com o cinemão, não com a carreira. Iria continuar com a TV. Eis que ele está de volta com Logan Lucky – Roubo em Família, que estreia nesta quinta-feira, dia 12. O filme integrou a seleção do Festival do Rio. Um grande elenco, uma história de assalto. Channing Tatum e Adam Driver são irmãos. Acreditam que uma terrível maldição pesa sobre a família e explica os revezes financeiros que se sucedem, mantendo todo mundo na pobreza.

Para reverter a situação, os irmãos Logan planejam um assalto durante um campeonato da Nascar, a maior competição de stock car dos EUA. Convocam um especialista em arrombamento de cofres, e ele está preso – Daniel Craig. Como se tira um cara desses da cadeia? E quando surge uma agente obsessiva do FBI investigando o caso, papel de Hilary Swank? Como fazer frente ao problema? São muitas perguntas, que Soderbergh respondeu numa entrevista de quase uma hora por telefone. Falou sobre o filme, sua carreira, astros e estrelas. E revelou, em primeiríssima mão, que já foi sondado por um estúdio para filmar a recente tragédia em Las Vegas.

O que há de tão atraente em Roubo em Família, a ponto de você ter rompido a próprias palavras para voltar a Hollywood e ao cinemão?

Na verdade, não estou voltando ao cinemão de Hollywood, mas a um outro sistema de produção e distribuição mais ameno (NR – No Brasil o filme não é distribuído por um major, mas pela Diamond Films), que respeita mais a figura do diretor como autor. O que me atraiu foi a história, o roubo em família, como você diz. E o meu envolvimento começou meio esquisito. O estúdio me sondou se eu poderia indicar um diretor para o filme. Li o roteiro e não conseguia pensar em outro diretor, até porque fui fisgado pela trama, pelos personagens. Mas relutava em assumir. Falei com Channing (Tatum), se ele toparia, mas nas nossas bases. Ele disse que sim e eu ainda falei que teríamos de fazer rapidamente. Ele se mobilizou, eu me mobilizei. Em um ano, talvez menos, estávamos filmando.

Vocês fez muitos filmes de roubos – a série Onze Homens e Um Segredo. Qual a diferença?

Onze Homens, Doze Homens e Outro Segredo e Treze Homens e Um Novo Segredo eram todos sobre profissionais. Roubo em Família é sobre amadores, sobre gente que precisa aprender a roubar, e isso faz toda a diferença. Dois irmãos, uma família atormentada por uma suposta maldição, um pai (Channing) cuja ex-mulher se casou de novo, com um cara bem-sucedido e ele sente que está perdendo a filha. O irmão, Adam (Driver), perdeu a mão na guerra. São personagens embasados na realidade, humanos. Comparativamente, Brad (Pitt), George (Clooney) e seus amigos, na série Onze Homens, são ladrões de cinema, vivem nesse mundo de fantasia que é Las Vegas. O foco é totalmente distinto.

Já que você falou no mundo de artifício de Vegas, o que achou desse verdadeiro massacre?

Ainda estou em choque, como toda a América e o mundo. Dois dias depois, um estúdio já me ligou, perguntando se eu via alguma possibilidade de transformar essa história em filme. De cara disse que não, mas não porque a história terrível não mereça ser contada. Está tudo muito nebuloso. O cara não é o típico assassino. Por que, por quê? Está todo mundo andando em círculos, tentando entender. Tenho pensado no assunto, mas a questão é justamente achar um foco. Assassinatos em série, armas de fogo e violência são temas relevantes da cultura americana, mas fazer só mais um filme sobre o tema não muda nada. Estamos chocados, e mais que isso alarmados com a facilidade com que o atirador conseguiu comprar os chamados ‘bump stocks’, peças que automatizam rifles e que ele usou para obter uma velocidade de disparo semelhante à das armas automáticas. Tudo isso é muito perigoso nesse momento de explosão da direita, de surtos de preconceito e racismo. Essa história expõe alguma coisa, só que ainda não sei muito bem o quê. É preciso ser prudente, reflexivo.

Pelo que você conta, Roubo em Família já começou a nascer com Channing Tatum. Como você foi agregando Adam Driver, Daniel Craig, a própria Hilary Swank? Sem spoiler, mas justamente por Hilary, a ideia é fazer outra série?

São muitas perguntas... Vejamos – Channing é um ator muito físico, que se expressa com o corpo e, por isso, é tão bom em Magic Mike. Pensei que seria interessante fazê-lo contracenar com um ator mais reflexivo, cerebral e foi assim que entrou Adam. Daniel fica entre os dois, porque precisava de alguém que, mais que ser um ator, tivesse carisma. Agora, a questão é como se trabalha com todos eles? Qual é meu método? Antes, eu tinha um método. Ensaiava. Hoje, eu prefiro ter muitos encontros. Almoço, janto, discuto com um ator, vejo como ele encara o personagem. Faço a mesma coisa com outro e assim é feita a preparação. Quando todo mundo está pronto, é só reuni-los no set e... Shoot!

Fácil, assim?

Não se esqueça de que o filme é sobre amadores, mas estou tratando com profissionais da representação. É um dos prazeres desse ofício. A história é sempre o mais importante, mas sem o ator certo não tenho nada. O cinema vive através dos atores.

E o seu estilo?

Estilo? Não tenho consciência de ter um estilo. Sou um contador de histórias. Sirvo aos roteiros que me interessam, às histórias que quero contar.

John Huston dizia a mesma coisa...

E era um gênio. Tive a sorte de surgir com um filme como sexo, mentiras e videotape, depois fiz uns quantos (filmes) que ninguém viu, mas que eu precisava fazer para descobrir o tipo de diretor que queria ser.

Diante de sexo, mentiras e videotape, Wim Wenders, que presidia o júri de Cannes e lhe outorgou a Palma de Ouro, disse que estava vendo o futuro do cinema. A sorte tem alguma coisa a ver com isso?

Não a sorte, o timing. O filme ia para a Quinzena dos Realizadores, na última hora foi selecionado para a competição. (Francis Ford) Coppola ia presidir o júri, foi substituído por Wenders. Tudo se uniu para o resultado. Dois anos antes, ou dois anos depois, não sei se sexo, mentiras e videotape teria ocorrido. Só sei que foi importante para mim.

LIÇÕES DE MESTRE:

O diretor de Logan Lucky conta quais os filmes que o influenciaram no novo trabalho.

Os Quatro Picaretas

“Peter Yates é um diretor subestimado, mas que fez grandes filmes. Esse talvez seja o maior. Quatro caras se unem para roubar uma pedra preciosa. Robert Redford, George Segal e mais dois. O filme é uma obra-prima de humor com arcabouço dramático. Foi o que quis alcançar”

O Segredos das Joias

“Não vou dizer que esse filme tenha me influenciado especificamente, mas é o clássico de assalto por excelência. Está no seu imaginário como no meu”

Pequena Miss Sunshine

A relação do personagem de Channing Tatum com a filha em Logan Lucky, o concurso de dança, tudo me levou ao filme de Jonathan Dayton e Valerie Ferris. E assim como eles tiveram uma garota maravilhosa, eu tive a minha”

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