Jordan Strauss/Invision/AP
Jordan Strauss/Invision/AP

Steve McQueen faz retrato contundente da escravidão

Diretor fala sobre '12 Anos de Escravidão', que recebeu sete indicações ao Globo de Ouro

Pedro Caiado / Londres, Especial para o Estado

10 de janeiro de 2014 | 23h27

12 Anos de Escravidão não vai agradar a todos. É um filme difícil de assistir, com suas cenas de violência explícita. Entretanto, é uma carta aberta ao público sobre escravidão, assinada pelo diretor britânico Steve McQueen. "O filme abre nossos olhos para a história", diz ele ao Estado.

Durante o ano passado, 12 Anos foi aplaudido e odiado na Europa e na América, onde o nível de violência foi considerado desnecessário. Mesmo assim, foi considerado o melhor filme já feito sobre a escravidão americana e concorre ao Globo de Ouro em sete categorias.

Será lançado no Brasil no fim de fevereiro e já se prevê inúmeras indicações ao Oscar. Nos EUA, críticos tem se perguntado por que foi necessário esperar tanto para que um filme que fizesse justiça à história da escravidão americana fosse lançado. A revista Variety foi além, e afirmou ser uma "desgraça" que, após tanto tempo, um diretor britânico tenha sido necessário para levar o tema às telas.

O longa é baseado no livro biográfico de Solomon Northup, um negro livre de Nova York que foi sequestrado e vendido para o tráfico de escravos em 1841, experimentando, por 12 anos, o abuso de um regime violento e injusto, até ser libertado. O livro foi publicado em 1853 e é ainda mais chocante e violento que o filme.

Steve McQueen, diretor britânico de 44 anos, defendeu que essa não é uma história americana apenas. "É uma história mundial. A escravidão era uma indústria mundial", contou ele durante o Festival de Cinema de Londres. "Eu queria fazer um filme sobre esse assunto e descobri este livro que me impressionou. Eu não acreditei que não o havia lido antes. Não só eu, mas ninguém conhecia essa biografia."

Talvez a cena mais impactante do longa, seja aquela em que Solomon passa minutos dependurado pela cabeça, em um tronco, tentando se erguer usando as pontas dos pés para sobreviver. A normalidade dos que estão ao seu redor espanta, assim como a falta de emoção e compaixão dada aos negros. 12 Anos retrata com dura honestidade o ódio de pessoas que tratavam seres humanos como animais. Um lembrete de um período feio da história mundial, pouco lembrado hoje em dia. "Você acha que tem ideia do que foi a escravidão, mas na verdade não tem."

A dupla McQueen e Michael Fassbender - os dois trabalharam juntos nos excelentes longas Fome e Shame - retorna. Fassbender interpreta um cruel proprietário de plantações, um senhor de engenho, que abusa de seus escravos. É dele a cena mais violenta do filme. 12 Anos traz também o onipresente ator Benedict Cumberbatch, além de Brad Pitt, em papel pequeno, dessa vez como um branco que ajuda o negro. Pitt tem crédito também como produtor.

Sobre a escalação, McQueen explicou. "Havia uma dignidade em Chiwetel Ejiofor e eu precisava disso para compor Solomon. Ele me lembra Sidney Poitier, é algo difícil de encontrar. O Michael, por sua vez, é um artista, uma força. Ele tem uma mágica. As pessoas choram quando ele está no set

O diretor defendeu a presença da violência no filme. "O livro é bem extremo. Se você faz um filme sobre escravidão, você tem que mostrar a tortura sofrida por anos pelos negros. Eu estou hoje aqui como um indivíduo porque membros da minha família passaram pela escravidão."

Chiwetel Ejiofor, o ator londrino que é estrela do filme, explicou seu fascínio com Solomon. "A maneira como ele abordava o mundo e os problemas era incrível. Ele tinha uma paixão pela vida." O ator hesitou em aceitar o papel. "Quando eu li o roteiro, eu tive que confiar e ver o que ia acontecer. Era tanta responsabilidade. Não haveria outra maneira de contar aquela história sem mostrar violência, caso contrário, não estaríamos sendo justos com as pessoas envolvidas e o próprio Solomon. Da mesma maneira que fazer um filme sobre a Segunda Guerra sem atirar em alguém não seria possível", diz o ator, acrescentando a emoção de filmar em locais históricos.

McQueen concorda. "No primeiro dia, estava um calor de mais de 50 graus e era um ambiente duro, mas emocionante. Nós sentimos algo muito forte do passado, quando filmamos naquelas plantações". A maior parte do filme foi realizada em fazendas na região de Nova Orleans, perto de onde Solomon esteve preso. "A minha ideia era mostrar tudo com a visão do Solomon. O que ele vê, o publico vê."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.