Whitten Sabbatini/The New York Times
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Steve McQueen dirige Viola Davis em 'As Viúvas'

Novo filme do diretor de '12 Anos de Escravidão' traz atrizes em papéis masculinos; estreia é nesta quinta-feira, 29

Entrevista com

Steve McQueen e Viola Davis

Reggie Ugwu, The New York Times

26 Novembro 2018 | 06h00

CHICAGO — Na primeira reunião de Steve McQueen com Viola Davis, dois anos atrás, na casa dela em um bairro verdejante de Los Angeles, ele contou a história de seu encontro inicial com As Viúvas – a minissérie britânica de 1983 que tomou conta dele há 35 anos e que finalmente será exorcizada na quinta, 29, com a estreia de sua visão do robusto e violento thriller.

Um McQueen de 13 anos ficava acordado até tarde na sala em Londres quando o programa apareceu na televisão e o deixou enfeitiçado. “De imediato, eu me identifiquei com aquelas mulheres que via na tela”, ele lembrou novamente no mês passado, sentado ao lado de Davis em um hotel no centro da cidade, antes da estreia. “Elas estavam sendo julgadas pela aparência e consideradas incapazes, da mesma forma a como eu estava sendo julgado como uma criança negra que cresceu na Londres dos anos 1980”.

O diretor, cujo último filme, 12 Anos de Escravidão (2013), fez dele o primeiro negro vencedor do Oscar de melhor filme e o terceiro a ser indicado na categoria de direção, apresentou Davis na adaptação, que acompanha mulheres que herdaram as plantas de um roubo planejado por seus maridos de uma gangue de assassinos em Chicago. 

“Ela é como De Niro, de certa forma”, disse McQueen sobre Davis, que emitiu uma tímida risada na sala de reuniões do hotel. “Ela reflete algo de visceral e imprevisível na humanidade com a qual você de alguma forma se conecta.”

Davis, cujas performances de tirar o fôlego no palco e na tela lhe renderam seus prêmios na Academia, Emmy e Tony, lembrou como ele a encantou. “Senti que ele me via como um vasto paradoxo”, disse, sobre McQueen. “De uma maneira diferente, é como se fosse a primeira vez que eu encontrei meu marido – algo que tem registro onde você se sente confortável o suficiente para se abrir e deixar sair quem você é.” Na entrevista, os dois discutiram a necessidade de ação coletiva contra a desigualdade racial em Hollywood e como transcender as barreiras estruturais à criatividade de artistas negros.

Steve, este filme é um pouco crucial para você, depois de 12 Anos de Escravidão, Shame e Fome. Queria mudar de rumo?

Steve McQueen: Não, eu não estou interessado em grandes histórias. Nunca pensei estar fazendo outra coisa além de tentar contar uma boa história e com esperança. O próximo poderia ser uma comédia musical subaquática estrelada por Viola. Não importa. Se a história é ótima, então vamos seguir em frente.

Viola Davis: Qualquer um que tenha visto esse filme sabe que é muito mais do que um filme sobre assalto. Mas muitas vezes, por causa de Hollywood, o público espera entrar com sua pipoca, petiscos e refrigerante, e apenas escapar, relaxar e desligar. Eles querem uma história que venha embrulhada com um rótulo e um belo laço. Mas esse não é o nosso trabalho. Nosso trabalho é alimentar sua humanidade de uma forma que você não é alimentado em sua vida cotidiana.

O filme foi uma oportunidade para ter o melhor dos dois mundos? Humanidade e pipoca?

McQueen: Olha, quando fiz 12 Anos de Escravidão, jamais imaginei que seria um blockbuster. Mas faturamos US$ 25 milhões só em vendas de DVDs na América do Norte durante o ano. Com As Viúvas, queria alcançar um público mais amplo sem perder o público que veio para Shame, Fome ou 12 Anos.

Por quê?

McQueen: Porque é hora. Como artista, tenho a responsabilidade de alcançar o maior número de pessoas possível. E eu queria fazer um filme sobre certos tipos de pessoas, que não são necessariamente consideradas de “bilheteria”, e depois fazer com que essas pessoas venham para ver o filme. Isso foi muito importante para mim. Eu não vejo sentido em pregar para convertidos. Nós precisamos ter diálogo. Caso contrário, estaremos apenas olhando para o umbigo.

Qual o fascínio em ver mulheres em papéis historicamente masculinos? 

Davis: Tudo o que queremos das mulheres é que sejam bonitas e gentis. E são essas qualidades superficiais associadas à feminilidade que vemos na tela. Então, sempre nos sentimos menos que isso. Sempre nos sentimos como a presa do predador. Sempre sentimos aquela bota de influência e poder masculinos. É sobre isso que #MeToo e Time's Up são. Este filme é uma jornada realista para as mulheres que conquistam a propriedade sobre suas vidas. E não à custa de quem elas são. A energia feminina e a vulnerabilidade ainda estão lá. Mas acho que é uma fantasia de toda mulher fazer algo ousado e nada legal, sair de si mesma e das normas sociais para chegar a um nível de autenticidade. 

O filme estreia num momento em que, do entretenimento à política, as mulheres estão realmente sendo ousadas – exigindo mudanças e dando voz à sua raiva.

McQueen: Sou grato. Mas é extremamente amargo. Baseei esse filme em um programa de TV que vi há 35 anos e nada mudou. Absolutamente nada. Mas o fato de que, como um objeto, o filme pode ser útil, sou muito grato. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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